Pesca apeada em Lisboa: quando lançar o isco ao rio Tejo é o melhor remédio  

por • 29 Maio, 2017 • Reportagem, Slideshow, VIDA NA CIDADEComentários fechados em Pesca apeada em Lisboa: quando lançar o isco ao rio Tejo é o melhor remédio  1418

Muitos são os que procuram a zona ribeirinha da capital para passarem algumas horas entregues à pesca lúdica. Se alguns o fazem para levar para casa algum alimento extra, os outros simplesmente desejam realizar uma pausa nas suas vidas quotidianas, tendo o rio ou o mar no horizonte. O Corvo foi em busca das suas motivações e preocupações. Cada um terá as suas, mas todos parecem concordar numa coisa. A paciência acaba por se revelar uma qualidade que dá frutos. Ou melhor, dá peixes.

 

Texto e fotografias: Pedro Arede    Vídeo: Álvaro Filho

 

O dia amanhece chuvoso e sem jeito para os que planearam ir pescar junto ao Tejo. A sorte procura-se quando se está de frente para a água, mas é coisa que nunca se deseja antes de uma pescaria. Mestres domadores de paciência, são actualmente inúmeros os pescadores que procuram diversos pontos da zona ribeirinha de Lisboa para a prática da actividade, que continua a ser, para muitos, não só um hóbi, mas também uma forma de passar pela vida.

 

Com a Torre de Belém em pano de fundo, um casaco preto com a inscrição “FBI” em letras brancas garrafais, vai fazendo movimentos pendulares entre uma cana de pesca, que se encontra atracada junto ao rio, e o porta-bagagens de um carro. O homem que o veste é Carlos Fernando, cantoneiro de profissão na Câmara Municipal de Lisboa. Do compartimento traseiro do automóvel, que funciona como uma verdadeira base de comando, tira tudo o que vai sendo preciso, sob o olhar atento da mulher, Armanda, que faz questão de o acompanhar sempre que pode.

 

Primeiro, a linha, um nó. Depois, o isco e, finalmente, o anzol número 6 que diz ser o melhor para aquela situação. “Aqui há bom peixe. Desde corvinas, até sarguetas e linguados”, conta ao Corvo. “Venho para aqui todos os dias, porque me ajuda a libertar as ideias. Muitas vezes, não se apanha nada, mas não me chateio. Hoje, por acaso, até já me safei”, conta o homem de 54 anos.

 

 

João Rodrigues não está com a mesma sorte. O pescador de 49 anos encontra-se a contemplar o mar – que se vislumbra a jusante – há já um bom bocado, quando chegamos à fala com ele. A meio da manhã, ainda não tinha apanhado qualquer peixe. “Na pesca, são mais as vezes em que não se apanha nada, é preciso ter muita paciência. Ainda por cima, isto agora está pior. Há pesca ilegal e chega a andar por aí um barco a arrastar”, alega. Ainda assim, João Rodrigues não consegue passar sem vir à pesca. “Parece que, se não vier, custa-me mais a atravessar a semana. Isto, para mim, é uma terapia de espírito”, confessa ao Corvo.

 

(foto: Álvaro Filho)

 

As nuvens abrem agora alas para o sol passar. Já perto da estação fluvial de Belém, um outro pescador prepara a linha e o anzol para atirar ao mar. O seu perfil destoa de todos os outros que vimos até aqui, tanto pela jovialidade, como pela aparência relaxada e estilo vistoso e alegre. Apesar disso, o rosto induz pistas que nos deixam a imaginar se já terá vivido mais do que a idade que efectivamente tem. Rúben tem 31 anos e faz questão de pescar todas as semanas. Gosta da pesca e do contacto com o mar ou o rio. Fá-lo para se “esquecer dos problemas do dia-a-dia”.

 

 

“Vir para aqui fumar enquanto pesco é absolutamente incrível”, confessa ao Corvo. Quanto à pesca lúdica, as queixas de Rúben vão no sentido de pouco ou nada ter sido feito em termos de investimento em estruturas de apoio aos pescadores naquela zona. “Há cinco anos que há licenças para a prática da pesca lúdica e ainda não vi nenhum desse dinheiro ser investido nos pescadores”, lamenta.

 

Apesar das queixas, o processo de licenciamento tem vindo a ser descomplexificado. Ao contrário do que já aconteceu, em tempos, para a prática da chamada pesca lúdica, neste caso apeada, basta requisitar a emissão de uma licença a partir de um terminal Multibanco. A autorização tem o custo anual de oito euros.

 

Jogo de paciências

 

No Parque das Nações, bem junto ao Oceanário de Lisboa, dezenas de pescadores procuram também a sorte, sentados, à espera que ela talvez morda o isco, enquanto contemplam o rio e trocam dois dedos de conversa.

 

 

Carlos tem 50 anos e é pasteleiro. Todos os dias, entra às três da manhã e, sempre que lhe é possível, quando sai do serviço, vai para o Parque das Nações para pescar. “Sem paciência, não se consegue nada”, refere. Já Alfredo Silva, de 51 anos, veio à pesca pela primeira vez. “Acho um desporto bonito. Espero apanhar uma chaputa na minha estreia”, prognostica.

 

Estamos na época da corvina. Alguns repartem a atenção por duas ou três canas de pesca de cada vez e o discurso é bastante consensual. Ou seja: que é preciso ter paciência; que já houve melhores dias; que a pesca ilegal está a afectar os pescadores apeados e que, naquela área, se há pessoa que sabe o que se passa é o Sr. Leão.

 

“Olhe que ele trata os peixes por tu”, ouve-se um grupo de pescadores dizer, quando conseguimos chegar à fala com o Sr. Leão, que tem um bigode de tal forma farto que há até quem, carinhosamente, lhe chame de “Leão Marinho”. “Já cá ando há 50 anos e posso dizer que isto está bem pior do que aquilo que era. As embarcações ilegais dão cabo disto tudo”, conta ao Corvo, o pescador de 65 anos.

 

“Já caí muitas vezes ao mar. Claro que, se levar para casa um peixinho bom, já vale a pena vir aqui, mas, na verdade, eu já estou reformado e não me importa muito se volto de mãos a abanar. Mas há por aí muitas ovelhas ranhosas que deixam por aí muito lixo e estragam a pesca aos outros”, desabafa.

 

Todos os dias, o Sr. Leão faz-se acompanhar pela a mulher, enquanto aplica a sua experiência no rio. “Ela não está muito bem, mas é a minha mulher e sempre está melhor aqui do que em casa”, conta. “O convívio aqui não tem preço”, remata.

 

 

“Tiro a minha cana daqui para te dar espaço?”, ouve-se ao longe. Ao mesmo tempo que nos despedimos do Sr. Leão, uma batalha acabara de começar noutro lado. “Tem calma! Aguenta-te”. À volta de uma cana azul visivelmente mais arqueada que todas as outras, as movimentações não passam despercebidas. Mais perto, uma forma volumosa começa a ser perceptível dentro de água, ao mesmo tempo que, em terra, uma orla se abriu para dar espaço de manobra para o pescador que a está a tentar domar.

 

 

A paciência de horas transformou-se, numa questão de segundos, num frenesim de nervos e força. Tudo à volta parou. Indicações e palavras de incentivo são atiradas ao ar, enquanto o pescador dá tudo o que tem. “Este é pesado!” Quando, finalmente, o peixe vem à tona de água, um outro pescador põe fim à batalha com um arpão.

 

 

Já em terra, o exemplar é apreciado. Afinal de contas, todos sentiram aquela corvina de cerca 30 quilos como sendo sua. A espera acabou. Afinal, a paciência, por vezes, sempre dá os seus frutos.

 

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