Outra drogaria fechou portas no Chiado para dar lugar a turistas e a loja gourmet

por • 1 Abril, 2016 • Actualidade, Reportagem, Segunda ChamadaComentários (23)1958

O desfecho era já conhecido das funcionárias, “há cerca de um ano e tal”. Mas a tristeza quase conformada de Rute Peixe, 32 anos, e de Maria José, 57, parecia ontem difícil de esconder, apesar dos sorrisos. Ambas trabalhavam na loja há praticamente uma década e, juntamente com uma outra, Maria da Luz, 51, a partir desta sexta-feira (1 de abril), já estarão no fundo de desemprego. Um encerramento que acontece no mesmo dia do fecho da Drogaria Pereira Leão, na Rua da Prata, e pelos mesmos motivos: rentabilizar o imobiliário respondendo à demanda turística.

 

Ao princípio da tarde, atrás do balcão da Drogaria do Loreto, no número 62 da Rua do Loreto, as duas funcionárias iam atendendo as solicitações dos clientes que aproveitavam as promoções oferecidas no último dia de actividade da loja, situada às portas do Bairro Alto. “É um dia triste para nós, claro. Demos aqui muito do nosso tempo, muita da nossa dedicação, muito amor”, desabafa ao Corvo Rute, que tem dois filhos – um de dez anos e outro de oito meses – e o marido também desempregado, há cerca de mês e meio.

 

Mas tais preocupações pouco diziam a quem entrava ontem na loja. “As coisas têm-se vendido bem. As pessoas querem barato, claro. Há uma promoção, entram para ver. Até nós andamos sempre atentas às promoções, como é natural”, reconhece Maria José.

 

Drogaria do Loreto, último dia aberta ao público, Rua do Loreto, Lisboa 31.3.2016 © Luisa Ferreira

 

O prédio vai agora ser convertido num conjunto de alojamentos para turistas, estando ainda prevista a abertura no rés-do-chão de duas lojas mais de acordo com o gosto do momento. A drogaria deverá ser ocupada por uma loja gourmet, enquanto a loja ao lado, onde até há alguns meses funcionou uma papelaria-tabacaria onde se vendia alguma da melhor imprensa internacional, deverá dar lugar a uma gelataria. As obras começarão em breve, prevendo-se a sua conclusão até ao final deste ano.

 

Tudo isto fará parte do Edifício Officina Real, um dos quatro empreendimentos anunciados recentemente para o centro de Lisboa pela Almaria, a marca criada pela Parimob – Investimentos Imobiliários para apostar na reabilitação urbana na capital portuguesa. A empresa, que é presidida por Ana Maria Martins Caetano, filha de Salvador Caetano, gastou 15 milhões de euros nesses projectos situados na zonas do Chiado/Corpo Santo e Santos.

 

Drogaria do Loreto, último dia aberta ao público, Rua do Loreto, Lisboa 31.3.2016 © Luisa Ferreira

 

No sítio da Almaria, pode ler-se que o Edifício Officina Real será constituído por 11 apartamentos nas tipologias T1 e T1+1, destinados a arrendamento de curta duração. “O edifício, que acolheu em tempos as oficinas que estanhavam as loiças da Casa Real, deve o seu nome a este passado, o qual será evidenciado em todo o projeto”, explica-se, adiantando-se ainda que, na sua nova vida, “os apartamentos estão decorados, mobiliados e equipados, integrando todas as facilidades para proporcionar uma estadia diferenciada aos seus hóspedes”.

 

Uma situação que tanto Rute Peixe como Maria José julgam não fazer sentido. “Qualquer dia, os turistas vêm cá e perguntam uns aos outros ‘O que é que viste em Lisboa?’ e a resposta é ‘Olha, vi lojas gourmet e hostels’”, ironiza Rute, considerando que esta estratégia de aposta massiva no turismo é pouco inteligente, até porque muitos dos turistas são clientes do comércio tradicional, como acontecia com esta drogaria, onde procuravam sobretudo produtos portugueses, como os sabonetes. “Além disso, até podiam abrir o hostel em cima, mantendo as lojas em baixo”, sugere.

 

Texto: Samuel Alemão                       Fotografias: Luísa Ferreira

 

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23 Responses to Outra drogaria fechou portas no Chiado para dar lugar a turistas e a loja gourmet

  1. Ines Paulo Ines Paulo diz:

    Frances Overdosed a tal de que te falei.

  2. pedron pedron diz:

    RT @ocorvo_noticias: Outra drogaria fechou portas no Chiado para dar lugar a turistas e a loja gourmet – https://t.co/rvW8SvvPNN

  3. Parece-me óbvio que tem que fechar! Algum português ainda vai comprar o que quer que seja a lojas destas? Tudo desarrumado, tudo misturado, tudo sem graça… Está agora na moda as pessoas ficarem todas escandalizadas cada vez que fecha alguma coisa para dar lugar a uma outra mais virada para o turismo… ora as coisas fecham porque não dão dinheiro, ou dão menos do que a alternativa. E não dão dinheiro porque as pessoas (os mesmos portugueses que se escandalizam cada vez que uma loja dessas fecha) não compram lá, porque preferem os centros comerciais e as lojas arrumadinhas e bonitas…

    • E até têm surgido boas lojas de comércio tradicional pelo
      Chiado e Baixa. A Loja da Burel, a Chocolataria Equador, a D’Aquino, a Pelcor, a Mercearia dos Açores… Não, esta drogaria e outras lojas não fecham por causa do turismo. Fecham porque não têm clientes, estão obsoletas, e a única razão porque não fecharam há mais tempo, muito antes do boom turístico é porque pagavam uma renda de terceiro mundo e os proprietários não tinham incentivos para reabilitar os prédios a cairem de podres. O que os turistas vão passar a ver é uma cidade com um património reabilitado e uma cidade mais dinâmica. E por cada loja pirosa para turistas que abre, abre outra de qualidade. Não é só ir na onda de dizer mal do turismo de das lojas arcaicas que fecham. Há que também (re)conhecer os muitos bons exemplos que também existem, e que Lisboa finalmente começa a ter a reabilitação que precisa e um pouco mais de brio.

    • José Fernandes diz:

      Pressinto que o estimado cavalheiro nunca terá posto pé na supracitada loja.

    • Filipa diz:

      A mim parece-me óbvio que o senhor Gonçalo opina sobre o que não sabe.
      Sou cliente desta loja e agora pergunto-me onde vou adquirir os produtos que normalmente lá comprava. Porque era ainda uma loja que oferecia produtos portugueses de qualidade e a preços sustentáveis para quem vive aqui.

    • Mar Mosso Mar Mosso diz:

      E a baixa “impestada ” de lojas que vendem todas o mesmo (porta sim, porta sim) para turistas embascados com o “nice price ” não fecham porquê ? É que aqui a desordem ainda é maior !

    • Talvez o Senhor esteja a ser um pouco individualista, pois na parte que me toca cada vez mais frequento menos as tais redes de Hipermercados e mais as ditas Lojas de Bairro, pois prezo imenso a Qualidade que entra na minha casa, mais informo que se engana a pensar que somos poucos pois os produtos do Dia acrescento que se não for cedo esgostam!

    • São Lopes São Lopes diz:

      Também devíamos fechar os Jerónimos, aquilo é tudo em pedra, não tem conforto nenhum, Quem é que quer lá ir?

    • São Lopes Mas aí não existem senhorios sedentos de por na rua os inquilinos. É verdade que ainda existem rendas “muito pobres” mas há sempre forma de encontrar consensos e não simplesmente “expulsar” pessoas, muitas vezes idosas, do sue habitat.

    • Fabiana diz:

      Eu ia là comprar a anos. Nao gosto de centros comerciais e nao quero ser obrigada a ir là comprar porque nao tenho alternativa. As senhoras trabalhavam tinham uma clientela fixa.

    • São Lopes São Lopes diz:

      Estas lojas são, por si, atracções turisticas autênticas, ao contrário das lojas de gift’s de autenticidade duvidosa que existem em todas as esquinas. São parte da história, cultura e identidade de uma cidade. A única coisa que precisam é de uma limpeza e uma intervenção de marketing… são os locais ideiais para a venda dos recuperados produtos portugueses tão em moda hoje em dia.

    • Se determinadas lojas fecham, é porque nao sao sustentaveis. Ponto.

      As novas lojas abrem nessas zonas porque as lojas ja estavam VAZIAS !

      Basta andar pela Baixa, e sao inumeros os predios abandonados… Ou, mesmo que habitados, a precisar de obras.

      Sabem porque a maioria de voces nao sabe isso?! Porque nem metem la os pes na loja… E as ditas lojas anteriores fecham por falta de clientes.

    • Sao Lopes… Se acha que é assim tao facil de resolver, porque nao fazem?!
      Porque nao investem no seu proprio negocio?!

      Nem tudo é uma questao de dinheiro… E se forem negocios viaveis e a funcionar, o dinheiro aparece.
      Se nao percebem do negocio (como muitos “empresarios” nao percebem) ou nao tem competencia para gerir, sera sempre muito dificil e caro ensinar quem nao tem “gosto” ou “jeito” para o negocio.

      Em Portugal, parece haver a ideia generalizada que qualquer um pode ter uma loja ou empresa familiar, Ou que pode ser senhorio, sem perceber nada de gestao ou dessa area de negocio.
      E depois ficam surpreendidos quando da lucro, e quando da prejuizo…

    • Anabela diz:

      Hà muito de verdade no que diz, como o facto dos portugueses fazerem como todos os populares do mundo ao comprarem nas grandes superficies. Mas a verdade é que o que cativa os turistas é, justamente, o comércio tradicional. Ao matarem esta alta, também o turismo se ira para outos arrabaldes.

  4. Meus senhores, não chamem a esta loja, uma loja “tradicional”! Vivo a uns 100 mts desta loja e acho que nunca lá comprei nada…preços caros e com a concorrência das perfumarias e supermercados não existe forma de se safarem…. se vendessem podiam pagar rendas mais altas!

  5. João Fernandes diz:

    Compreendo ambas as posições divergentes aqui.

    No centro e em especial na baixa existem lojas antigas que se tornaram obsoletas e pouco apelativas, muito por culpa de quem as gere. Contudo, parece-me que ficar contente com “o mal menor” que é o de ter uma cidade com edíficios reabilitidos sacrificando património e identidade ou reduzir a essência de uma cidade à frieza do que dá ou não dá lucro não é de todo correcto.

    Existem mais alternativas para além de orientar toda uma zona para um sector de actividade, o turismo. Refira-se que outros negócios “não turísticos” têm dificuldade em proliferar porque a especulação irrealista com os preços das casas impede pessoas “normais” de morar na zona.

    A discussão aqui presente é na realidade uma multiplicidade de fenónemos interligados, como por exemplo, decisões erradas que levaram às situações actuais da rendas, preços irrealistas das casas, empresários com estratégias de lucro imediato sem reflexão sobre os impactos a médio/longo prazo, entre muitas outras coisas.

    Não frequentava a loja em questão logo não vou opinar sobre a mesma, mas por exemplo “A adega dos lombinhos” que frequentava e estava sempre cheia (tinha de ir cedo para conseguir almoçar lá) fechou por uma razão igual … não me parece razoável fecharem negócios viáveis, com décadas de existência e com uma vida muito própria para dar lugar a hotéis ou lojas para turistas, seja de boa ou de mal qualidade … há espaço para todos. Quem fala na “Adega dos Lombinhos” pode falar também por exemplo do “Palmeira” ou da Fabrica de Loiças de Sant’Anna (que felizmente ainda não fechou) ou mais recentemente o Jamaica, Tokyo e Europa. No caso de alguns prontos a vestir na rua dos fanqueiros e da prata, concordo que sem uma actualização já não há lugar para eles, mas há muitas lojas economicamente viáveis que estão a fechar nos mesmos moldes que a loja referida neste artigo !

    Só para terminar, gostaria só de referir que o turismo pode não ser uma industria rentável para sempre e suportar toda uma economia local num sector só é perigoso. Lembremo-nos de que a Lisboa que despertou a atenção do mundo e causou este boom turístico era diferente da que existe agora e daquela em que se está a transformar … entre 2009 e 2014 Lisboa teve um aumento de 54,7% em estabelecimentos hoteleiros e uma redução de 6,8% da população (cerca de 37000 habitantes).

    Dito isto, sou a favor do turismo desde que não cause danos na cidade e em quem nela vive.

  6. Parece que no chiado so a lojas “para turistas e lojas gourmet”… Ou entao é isso que interessa dizer para alimentar algum lobby.

    Ironia das coincidencias, parece que tambem vai abrir uma loja de calçado portugues… https://m.facebook.com/STARTUPLISBOA/photos/a.167181516711099.36440.167159833379934/967552793340630/?type=3

  7. JOÃO BARRETA diz:

    Há algum tempo que me interesso e que tento estudar e aprofundar conhecimento sobre “Comércio em contexto urbano” e, tenho de confessar, que nunca li em qualquer livro ou manual (se os houvesse!!) qualquer “teoria” que desse, no mínimo, a entender que Comércio e Turismo são incompatíveis !!! O que já “descobri” é que ao contrário da tal marca de refrigerantes, que primeiro estranha-se depois entranha-se, o Comércio para os nossos Governantes (seja na Administração central, seja nas Autarquias) continua a ser algo de muito estranho, desconhecido e ignorado. Mas enquanto isso, nós entretemo-nos com comentários aos rótulos e dificilmente chegamos a provar a bebida!

  8. Vasco diz:

    Porque nao reabrem a loja noutro prédio ao lado? O que nao faltam são espaços vazios para alugar. Deixem-me adivinhar… não reabrem porque o valor das rendas é alto. Então como é que as lojas de indianos pagam essas rendas sem problema? Certamente porque têm clientes, vendem e têm lucro. O mesmo não acontece com as chamadas lojas históricas.