O deslumbrante claustro do Convento da Graça abre as suas portas à comunidade

por • 1 Julho, 2017 • CULTURA, Reportagem, SlideshowComentários (10)233

É difícil não nos deixarmos impressionar pela alvura das galerias do renovado claustro do Convento da Graça, que poderá ser visitado por todos a partir das 15h deste sábado (1 de julho). A luz natural irradiada do centro ajardinado sublinha a imaculada geometria destes quatro corredores de arcadas, agora a resplandecer por uma profunda intervenção de reabilitação. O pavimento em vidraço de ataíja, espécie de émulo económico da pedra lioz, conjuga-se bem com as paredes pintadas de branco, conferindo um contínuo cromático. A limpeza das pedras mármore da arcaria e a pintura dos gradeamentos metálicos da janelas, bem como dos candeeiros, ajudam a completar um quadro de esmero a condizer com uma estreia. A cidade de Lisboa ganhou mais um lugar visitável, tirado do baú da sua história. Como é que não conhecíamos isto?, perguntamo-nos.

 

A abertura do claustro, bem como da portaria e da sala do capítulo do Convento da Graça, todos sujeitos a profundos trabalhos de reabilitação, é o resultado de um protocolo assinado entre a Paróquia da Graça, a Real Irmandade de Santa Cruz e Passos da Graça e a Câmara Municipal de Lisboa (CML). José Sá Fernandes, vereador da Estrutura Verde, há muito defendia a abertura ao público deste espaço. Coube à autarquia custear a operação de restauro, orçada em cerca de 360 mil euros, a troco da disponibilização do usufruto pelo público destes espaços, integrantes de um edifício classificado como Monumento Nacional e até agora afastados dos olhares mais curiosos. A sala do capítulo/refeitório, cuja maior atracção são os belíssimos painéis de azulejos do século XVII, está já visitável desde 15 de junho, onde se encontra a exposição sobre a procissão do Corpo de Cristo, composta por centenas de figuras de barro concebidas por Diamantino Tojal, em 1948.

 

 

Olhando agora ao comprido para a sala, além da azulejaria e do tecto, sobressai a elegância do chão em pedra. E é difícil imaginar como é que, até muito recentemente, se encontrava coberto por uma superfície de linóleo, pisoteada todos os dias por dezenas de crianças. Até há cerca de ano e meio, funcionou aqui a creche da Fundação Maria do Carmo Roque Pereira, entretanto transferida para perto. Também os azulejos, aliás, estavam ocultos por vastos painéis de contraplacado, impossibilitando que se vissem as figuras nele representadas. Apesar de desveladas, elas é que continuam sem nos poder fitar, uma vez que os seus olhos foram todos rasurados, presumivelmente por soldados, após a extinção das ordens religiosas, em 1834. Acto que ditou a supressão do convento e a expulsão dos monges agostinhos – que ali estavam desde a conquista de Lisboa aos mouros, em 1147, embora o actual convento resulte da reedificação feita a partir de 1556.

 

 

As crianças da tal creche, que ali funcionou durante mais de três décadas, tiveram a sorte de poder ter como recreio o claustro agora franqueado aos lisboetas. O espaço ajardinado ao centro era onde estava uma superfície artificial com a zona de jogos e brincadeiras da pequenada. Neste momento, e até por contraste com a brancura das paredes e do mármore das arcadas, cinco por cada lado, o aspecto raquítico e ressequido da vegetação acaba por ser uma desilusão. Mas isso é ilusório e tem uma explicação. “É mesmo assim, foi plantado aqui um prado de sequeiro, por opção, para não gastar água. De verão, tem este aspecto, mas no inverno fica verde”, explica Miguel Almeida, responsável administrativo da paróquia e cicerone d’O Corvo. Os visitantes poderão percorrer toda esta área, cujo acesso será feito pelo lado sul, a partir de duas portas que comunicam com o interior da Igreja da Graça ou de uma outra, um gradeamento junto ao miradouro com o mesmo nome.

 

 

Esta entrada, que pode ser considerada a principal, dá acesso directo à sala da portaria, correspondente a uma velha capela que estava em muito mau estado. Tanto que, nos últimos anos, o tecto se encontrava escorado, uma vez que corria risco de derrocada. Fazendo ligação com a sala do capítulo, a partir da qual se tem então acesso ao claustro, a sala da portaria apresenta-se agora integralmente reabilitada, sendo difícil não apreciar o piso em mármore trabalhado. Ao fundo, o olhar de quem entra é captado por uma reprodução de alta resolução de um quadro de Vieira Lusitano (1699-1783), “Santo Agostinho Calcando aos Pés a Heresia” (1770), cujo original se encontra no Museu Nacional de Arte Antiga. Passando pelo já referido lado sul do claustro, os visitantes deparar-se-ão com uma escavação arqueológica em curso. Existem ali diversos vestígios do que, supõe-se neste momento, será a entrada de um cripta existente a uma cota inferior. Finda a pesquisa em curso, a escavação será coberta por um piso envidraçado, para que possa ser admirada.

 

 

Esse lado sul do claustro do convento é o único sob administração da paróquia – os restantes integram o património do Tesouro e têm ocupação militar, embora uma planeada hasta pública deixe adivinhar outros usos. Na parte do edifício sob alçada eclesiástica, e nesta fase, fica apenas por revelar ao público a capela mortuária da Igreja e do Convento da Graça – divisão que, tal como os espaços agora reabilitados e abertos, e ao contrário da própria igreja, resistiu mais ou menos intacta ao terramoto de 1755. Existem, todavia, planos para voltar a usar como sacristia esta esplendorosa nave. “Mas uma sacristia dinâmica, que seja visitável pelas pessoas, embora mantendo a sua função”, explica Miguel Almeida. Por agora, e enquanto tal não sucede, podemos contemplar a portaria, a sala do capítulo e, sobretudo, o claustro, entre terça e domingo, a partir das 10h e até às 17h30. Ao domingo, deverá fechar portas meia-hora mais tarde.

 

 

Texto: Samuel Alemão

 

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10 Responses to O deslumbrante claustro do Convento da Graça abre as suas portas à comunidade

  1. Francisco Caselli, vamos lá hoje?

  2. Francisco Caselli, abre hoje 15h

  3. Fantástico espaço que recordo da m infância e que irei recordar !!!

  4. Inês B. diz:

    Absolutamente deslumbrante! O espaço e as muitas figurinhas da procissão do Corpus Christi. Há que dizê-lo: a CML está de parabéns, sobretudo Sá Fernandes (que aqui se redime de algumas coisas).

  5. Jokka diz:

    IMHO a exposição sobre a procissão do Corpo de Cristo estraga a visão e usufruto da sala do capítulo/refeitório. A retirar rapidamente para outro local menos rico de decoração

  6. Rodrigo Noronha diz:

    Constrangedor o claustro. Um claustro é suposto ser como um éden, um “hortus conclusus”, um jardim com flores, arbustos, árvores (laranjeiras por exemplo). Mesmo que não seja um jardim à francesa com buxo, tem é que ser um espaço fresco e agradável com uma doce natureza, algo que inspire espiritualidade, beleza, introspeção, meditação. Ora a opção de deixar “um prado de sequeiro” não podia ser mais feia, desmazelada, desvalorizadora do claustro e reveladora da falta de cultura e de bom gosto de quem tomou a decisão, para na verdade não terem que ter jardineiros, nem gastarem água, uma miséria que revela falta de valorização do património.

  7. Rodrigo Noronha diz:

    A falta de cultura e de valorização do património continua com a instalação de um enorme expositor (com as centenas de figuras de barro) a tapar a decoração nobre do chão da sala do capítulo/refeitório. Tapa a visão da decoração e mata o efeito geométrico que foi desenhado para aquela sala. Um notável trabalho de grande beleza tapado. Santa ignorância…

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