Novo largo junto ao Fonte Nova atrai várias gerações, mas piso “cinzento” é criticado 

por • 18 Outubro, 2017 • BAIRROS, Benfica, Reportagem, São Domingos de Benfica, Slideshow, URBANISMO, VIDA NA CIDADEComentários (10)667

O parque de estacionamento ao lado do centro comercial foi reduzido a um terço, dando lugar ao novo espaço de lazer e convívio. A requalificação da Alameda Manuel Ricardo Espírito Santo, integrada no programa municipal Uma Praça em Cada Bairro, está a atrair mais jovens e famílias, que ali encontram um lugar para andar de bicicleta e de skate, ler um livro e, no caso dos mais novos, até tomar banho nos repuxos. As gerações mais antigas, que já fazem parte da história do Fonte Nova, em vez de se sentarem dentro do centro comercial, podem agora conviver ao ar livre. Mas também há quem não veja nenhuma mais-valia na intervenção, criticando o surgimento de mais uma praça de “pedra e cimento”. “Isto está muito cinzento”, queixam-se alguns. E não faltam também os reparos à constante falta de limpeza do espaço público.

 

Texto e fotografias: Sofia Cristino

 

Chegaram os quatro de bicicleta, mas já lá vão umas horas desde que o meio de transporte deixou de ser o principal motivo de diversão da família. Agora, os dois filhos de Ricardo Silva, de 8 e 11 anos, correm e atiram água um ao outro nos repuxos localizados na nova praça surgida na Alameda Manuel Ricardo Espírito Santo, junto à fachada nascente do Centro Comercial Fonte Nova. “Moramos em Sete Rios e estávamos só de passagem, mas acabámos por ficar duas horas. Ainda bem que parámos, é um bom sítio para estar com os miúdos e, como é um espaço aberto e amplo, consigo-os ver de longe. Não há muitos na freguesia assim”, diz o habitante da freguesia de Benfica, de 44 anos.

 

A zona envolvente Fonte Nova, pela qual passa a fronteira entre as freguesias de Benfica e de São Domingos de Benfica, já foi palco de alguns desacatos entre sem-abrigo e toxicodependentes e, por isso, durante anos, associada à falta de segurança e a um mau ambiente. Mas esta realidade parece estar a mudar, com a requalificação do espaço exterior de um dos espaços comerciais mais icónicos da cidade de Lisboa. Prova disso é que, durante o dia, por lá andam muitas crianças, jovens das mais variadas faixas etárias e, claro, os que já fazem parte da “casa”, os idosos, num encontro geracional.

 

Duarte Mourão e o amigo Afonso Salgado, de 16 anos, conheceram-se mesmo ali. Em comum, têm a paixão por andar de skate. “Eu moro aqui. Antes, tinha de ir para o skatepark em São Sebastião, era mais longe. Agora, venho para cá logo no fim das aulas. O pavimento é espetacular para andar”, explica, enquanto vai fazendo umas manobras. Afonso Salgado partilha a mesma opinião do novo amigo, mas critica a falta de limpeza. “O piso é muito bom e foi o que mais me motivou a vir para aqui, contudo, há muitos ramos das árvores e paus no chão, que nos dificultam um pouco. Devia haver mais limpeza”, defende.

 

 

Há, ainda, quem se queixe do material escolhido para a construção do largo e quem o considere “muito cinzento”, como é o caso de Ana Fernandes, a dona do quiosque situado entre o parque de estacionamento e a nova praça. “Isto é só pedra e cimento, não vejo nada de bom nisto. Até perdi clientes, que agora se queixam que a praça roubou muito espaço de estacionamento”, diz. Um cliente, o septuagenário Manuel, que compra o jornal habitual, também comenta: “Isto é só cimento. Gastaram milhares de euros, deitaram muitas árvores abaixo e agora vão plantar duas”. Ana Fernandes aponta ainda outro problema. “Quando chove, que este Outono aconteceu poucas vezes ainda, há inundações. Este mês, já vieram aqui os bombeiros porque a água começou a galgar o passeio. Antes, havia uma sarjeta para onde ia a água, mas taparam-na com estas obras. Quero ver como vai ser o Inverno”, critica.

 

No novo largo, há uma ciclovia, uma zona pedonal e uma extensão de blocos de cimento que, no seu conjunto, formam uma linha circular de bancos. Está prevista, ainda, a construção de um quiosque com esplanada. Aqui, há muitos que aproveitam para pôr a leitura em dia, como é o caso de José Morais, com 54 anos, residente em Odivelas. “Antes, ia para o carro ler, agora venho para aqui, é muito mais agradável”, afirma.

 

 

Maria Faustino, de 31 anos, acredita que a modernização deste espaço será benéfica para a freguesia de Benfica, onde vive há sete anos. “Espero que estas requalificações potenciem a mobilidade pedonal e que justifiquem o período de algum transtorno causado na zona. Espero, sobretudo, que contribuam para melhorar a zona de estacionamento contígua ao centro comercial, debaixo do viaduto, que nem sempre foi a mais segura”, explica.

 

A jovem lamenta, contudo, o fecho do Cinema Medeia Fonte Nova. “A perda do cinema representou um desinvestimento cultural”, considera, referindo-se à requalificação realizada no interior do centro comercial, no ano passado, da responsabilidade do Fonte Nova, que, entre outras intervenções, transformou as três salas de cinema num ginásio.

 

 

Maria Gomes, 60 anos, mora em Alfragide, mas vai há muitos anos ao Fonte Nova e concorda com Maria Faustino. “O cinema era muito acolhedor, gostava muito e foi uma pena fechar”, diz. “Muitos de nós encontram aqui o que não têm em casa. Alguns vêm aqui só para conviver. Até há quem brinque e diga que o Fonte Nova é um centro de dia”, acrescenta, reforçando o papel social do centro comercial.

 

Já para Susana Melin, lojista, o encerramento do cinema e a posterior abertura do ginásio, foi bastante benéfico para as lojas. “Ganhamos muito mais com o ginásio, temos muitos mais clientes”, comenta. Filipa Cândido, que já trabalha há 17 anos no centro de cópias do Fonte Nova, subscreve essa ideia. “A grande mais-valia das remodelações foi, de facto, a construção do ginásio, porque atraiu muitos mais jovens”, afirma. As obras de requalificação do interior do Fonte Nova incluíram, ainda, o alargamento da área da loja Pingo Doce e a entrada em funcionamento de uma nova zona de restauração, num investimento de dois milhões de euros.

 

 

José Correia, sócio gerente do café Talismã, um ponto de referência para os habitantes da freguesia de Benfica, viu o nascimento do Fonte Nova – ele que até chegou a ter uma horta na antiga quinta onde agora é o centro comercial, o qual deve o nome ao antigo fontanário ali existente em tempos. “Estas obras acabaram com muito estacionamento. Muitos moradores que não têm garagem estacionavam ali”, explica. Admite, ainda assim, que há aspectos positivos n intervenção realizada no centro. “Já estava a precisar de obras e, nesse aspecto, foi bom. O ginásio também veio trazer mais gente que o cinema, o que alargou o público que frequenta esta zona”, afirma.

 

Idalina Ferreira, proprietária da Euro Galeria, situada nas redondezas do Fonte Nova, considera que o espaço embeleza a zona, mas diz que o poder local tem de estar mais atento à questão da limpeza. “Há um grande descuido na preservação do espaço, não há manutenção e limpeza das ruas e há muito pó”, lamenta. Admite, no entanto, que, por vezes, substitui a esplanada onde costuma ir todos os dias pelos bancos da nova praça. “É um espaço amplo e fresco, é só mesmo pena nem sempre estar limpo”, comenta. Ana Fernandes, dona do quiosque, concorda. “Isto está tudo sujo, é uma vergonha”, diz, indignada.

 

 

Localizado no epicentro de Benfica, o Fonte Nova foi fundado em 1985 e, desde 1998, é detido pela Companhia Imobiliária e de Investimentos (CIMOBIN). É um dos espaços comerciais mais emblemático da cidade de Lisboa, sendo conhecido pelo seu cariz familiar e acolhedor. Agora, com novas valências e a reabilitação da área envolvente, começa a atrair pessoas de outras faixas etárias. Helda Silva, diretora do centro comercial Fonte Nova, acredita, por isso, que a praça exterior vai ser um pólo de encontro de diversas gerações.

 

“A zona envolvente do centro comercial vai funcionar como pólo de atracção a actividades e momentos de lazer, trazendo para junto do centro um público novo. É a dinâmica comercial e emocional associada à adaptação da oferta às novas gerações que mantém o Fonte Nova como referência para o público fidelizado e que o coloca na rota de novos públicos”, assegura a O Corvo, em depoimento escrito.

 

 

Maria Luísa Fernandes, trabalhadora do centro comercial desde a sua fundação, tem uma opinião similar. “O Fonte Nova estava a ficar com uma imagem muito envelhecida e com as obras de requalificação tornou-se um centro mais moderno e atractivo. Acredito que vai atrair mais clientes e é o que temos vindo a verificar, dia após dia”, comenta. E acrescenta: “Faço parte da equipa há 33 anos. O Fonte Nova não é apenas um centro comercial, é uma parte da minha própria história”.

 

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10 Responses to Novo largo junto ao Fonte Nova atrai várias gerações, mas piso “cinzento” é criticado 

  1. Vítor diz:

    Há muita falta de espaços verdes e árvores. E, sobretudo, ficou por resolver o maior problema de todos: o ruído que provém da 2ª circular.
    Há toda uma parte que poderia e deveria ter sido arranjada para minimizar os efeitos nefastos do ruído, pois não é nada agradável estar a gramar aquele ruído.
    Faltam barreiras acústicas: árvores grandes, arbustos, painéis e elevações de terreno(como foi feito em Carnide na avenida Condes de Carnide)

  2. Rui Franco Rui Franco diz:

    É mais um mar de pedra em Lisboa. Não há relva, não há canteiros com flores. Atapeta-se tudo com pedra ou cimento e poupa-se na manutenção.

  3. Deixem vir as enxurradas, e vão ver como o piso fica “cristalino”…

  4. Está bem melhor do que estava, hoje há até há mais umas árvores, sitos para se sentar e ler e não a porcalhota que aquilo era debaixo do viaduto.No entanto alguns reparos:1) há muito menos caixotes de lixo que anteriormente. 2) há uma zona de betão, de grandes dimensões, debaixo do viadutos completamente desaproveitada e cinzentona. 3) resolvam de vez a questão do parque para os cães! Uma excelente ideia, mas que teve um dia aberto, encerrou, abriu novamente e continua-se a espera da resolução da falta de água.

  5. Fatima Fernandes diz:

    É os lugares de estacionamento para pessoas com mobilidade reduzida??? Onde estão ? É certo que estavam muitas vezes indevidamente ocupados….mas existiam…. Deixei de lá ir porque não há estacionamento perto das entradas!

  6. Parece que tá param as sarjetas e já houve inundações. Upsss

  7. Catarina de Macedo diz:

    A CML anda a ver se faz com que a calçada portuguesa deixe de ser uma das imagens de marca da capital. Querem ver se tornam a cidade igual a todas as outras da Europa com pavimentos cinzentos, porque preservar a identidade da cidade. de facto não é com eles. Bastava deixar uma parte da praça com piso apropriado para os skaters e o resto devia ser calçada.

  8. Carlos Silva diz:

    Queixam-se e têm razão. A democracia de alguns é o desrespeito de outros.. O largo do fonte nova é a imagem de Lisboa, cimento e pronto. A limpeza, o policiamento a qualidade do ar não existem mas ficam bem para os votos. Penalizem quem não cumpre..

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