No Beato espera-se uma vida nova com o Hub Criativo, mas ainda poucos a sentem

por • 6 Novembro, 2017 • BAIRROS, Beato, Reportagem, Slideshow, URBANISMO, VIDA NA CIDADEComentários (0)1472

A Web Summit começa esta segunda-feira (6 de novembro), no Parque das Nações. O acontecimento, que traz milhares à área oriental da cidade, assentará arraiais no Hub Criativo do Beato – o novo centro para inovadores e criadores, a surgir no antigo complexo da Manutenção Militar, no Beato. As obras ainda não começaram, mas o espaço já mexe com eventos esporádicos. O Corvo foi ouvir os vizinhos, para saber o que esperam do projeto e quais as necessidades mais prementes do bairro. Todos concordam que o Hub pode ser muito positivo para a área, mas também são unânimes numa queixa: o estacionamento é um problema que precisa de solução urgente.

 

Texto e fotografias: Margarita Cardoso de Meneses

 

 

No Beato as coisas estão a mudar, mas muito devagarinho. As obras do novo Hub Criativo ainda não começaram. Os vizinhos que conhecem o projeto concordam em que o desenvolvimento só pode ser positivo, que irá trazer mais pessoas e combater a desertificação. Basta andar pela Rua do Grilo e olhar para cima para perceber que o desenvolvimento é muito necessário. De um lado e do outro, há prédios devolutos ou entaipados, vilas operárias degradadas, armazéns abandonados, casas fantasma e lojas empoeiradas que já viram melhores dias.

 

Mas o bairro promete. O precedente foi aberto pela Fábrica do Braço de Prata, há mais de 10 anos, quando o edifício de uma antiga unidade fabril de armamento viu nascer um centro cultural experimental, com o aval da câmara municipal. Entretanto, começaram a ver-se alguns andaimes e telas, em prédios e palacetes, anunciando a sua reabilitação; artistas urbanos, como Bordallo II (com a sua primeira exposição a solo, “Attero”, a decorrer agora e até 26 de Novembro, num armazém na Rua de Xabregas), fizeram das paredes e muros da zona um museu a céu aberto. Na Rua da Manutenção, um prédio em obras está a caminho de transformar-se num bloco de escritórios de luxo. E não é preciso ter muita imaginação para perceber o potencial dos 35 mil metros quadrados do antigo complexo da Manutenção Militar, onde vai nascer o Hub Criativo do Beato (UCB).

 

Segundo explicam no site oficial, o projecto destina-se a “receber um conjunto de entidades nacionais e internacionais nas áreas da tecnologia, inovação e indústrias criativas que posicionam Lisboa como uma cidade aberta, empreendedora e de referência mundial”. A Câmara Municipal de Lisboa vai ceder e assegurar “as infraestruturas dos espaços comuns exteriores (rede de águas e esgotos, eletricidade, wi-fi, internet, arruamentos e arranjos exteriores, etc.); os promotores e entidades são responsáveis pelo desenvolvimento e execução do projeto de reabilitação dos edifícios; e a Startup Lisboa é a responsável pela dinamização, programação e gestão do HCB.” O início das obras está marcado para 2018. No edifício, esvoaçam lonas e bandeiras que identificam o projeto mas, para já, tudo está calmo e intocado.

 

Vai ser bom, mas começou mal

 

Carlos Gomes, dono do café Dois Irmãos, acha que será um bom projeto para a zona. O senão no entanto, vem rápido: “Está a começar muito mal. Diz que aqui é para recreativo e andam para lá só a fazer discotecas…Aqui há dias, fizeram uma discoteca até às cinco da manhã e a gente nem conseguiu dormir, porque eu moro lá mesmo em frente”, queixa-se. Não reclamou às pessoas, nem à entidade competente, porque espera que seja “uma vez sem exemplo”.

 

 

Carlos esteve, recentemente, numa reunião dos moradores e comerciantes com o primeiro ministro e com o presidente da Câmara Municipal de Lisboa. “Eles disseram que isto ia dar um desenvolvimento grande aqui à freguesia do Beato e dizem que isto ainda vai demorar um bocadinho, mas já vai mexendo”,comenta. “Vamos aguardar, mas, como lhe digo: começou muito mal, que houve lá muito barulhinho e toda a gente se queixou”, reitera.

 

No Hub Criativo do Beato, estão programadas várias iniciativas, festas e conversas. Esta semana, em paralelo com o Web Summit, vão decorrer o National Meeting of Incubators (só mediante convite) ou a “bea.to unconference”. E é aqui que se vai realizar a festa de despedida do Summit, na quarta-feira, dia 8 de Novembro (entrada gratuita com registo obrigatório até dia terça-feira, dia 7).

 

Lá se vai o descanso de Carlos Gomes às urtigas. O que é mau para o sono pode, todavia, ser bom para o negócio, já que, segundo o dono do café, aparece sempre muito do pessoal envolvido na montagem e desmontagem dos eventos. “As pessoas que estão a trabalhar é que dão movimento, porque, quando se dá o evento, há sempre comeres e beberes”. E, pelo que conta a O Corvo, “os clientes vindos do Hub já começaram a aparecer”.

 

Estacionamento impossível

 

Sandra Santos, da loja Ultra-Ferragens, na Rua do Grilo, não sabe grande coisa sobre o futuro do bairro. Só mesmo que vai haver “o Hub”. São grossistas, portanto, nem sempre têm a porta aberta, nem vivem do movimento do arruamento. “No meu ramo, não sei se terá muita mais-valia, mas ainda não pensei nisso”, confessa. Sandra admite que, no bairro, já se sente a presença de alguma gente nova, mas não ainda ao ponto de transformar o quotidiano.

 

No trânsito e no estacionamento, porém, é que já se nota algo. Estão muito piores, considera. “Acho que têm de tomar precauções. Quando há eventos no Convento do Beato ou durante o último Web Summit, torna-se muito complicado, porque não há lugares e não asseguram os estacionamentos e os acessos das lojas”, critica, pedindo medidas correctivas.

 

 

Como no resto da cidade, os comerciantes não têm direito a lugares de estacionamento alocados no bairro onde trabalham. E o sinal que lhes reservava um lugar para cargas e descargas desapareceu tantas vezes, que já desistiram de pedir um novo.

 

“Quando fazem filmagens nesta zona, é positivo, mas têm de salvaguardar os interesses das outras pessoas. Senão, têm que indemnizá-las”, defende, somando a sua frustração à de todos os vizinhos e lojistas que se queixam do mesmo assunto. “Somos uma loja de ferragens, temos coisas pesadas e, quando há eventos, a polícia não deixa estacionar. Uma vez, parámos ali na passadeira, com os piscas ligados, e ele mandou-nos sair imediatamente, que nos ia multar. Mas nós andamos com paletes e com coisas de 70 ou 80 quilos…como é que descarregamos?”, questiona.

 

Pedro Batista, d’A Reparadora Vidreira – “única loja que faz vidros curvos de Lisboa” – aponta para o mesmo problema. “Trabalhamos com todo o tipo de clientes, entre os quais a RTP ou pessoas que vêm fazer a sua moldura, o seu vidrinho”, apresenta-se. Pedro acha que o Hub e o prometido desenvolvimento da zona serão muito positivos, mas o eco dos problemas de estacionamento faz-se ouvir: “Na verdade, não temos estacionamento, temos que pôr sempre o carro em segunda fila”.

 

 

Para este lojista, o bairro tem outras necessidades: “A desertificação é uma das piores coisas aqui, mas acho que, com tudo isto, vai melhorar e esse problema vai desaparecer”. Perante a possibilidade de as rendas aumentarem ou de os proprietários venderem o prédio, confessa também a sua preocupação. “Já pensei em comprar o prédio, já. Se calhar, tenho mesmo de pensar nisso a sério, antes que aconteça”, confessa.

 

O mundo que foi e o que pode vir a ser

 

Natália Trindade, moradora do bairro há mais de 50 anos, estava a beber um cafezinho com a filha e a neta recém-nascida, quando O Corvo a encontrou. Ela não sabe de nada do que vai acontecer no antigo espaço da Manutenção Militar. “Já vou fazer 80 anos e só quero é paz e sossego”. Quando há festas, nota “mais um bocadinho de alegria”, diz, reforçando que não lhe incomoda nada e que é muito bom aqui para o bairro. “A gente precisa é de movimento, que isto está tudo muito parado”, diz.

 

 

Com saudades, lembra-se do tempo em que veio para aqui viver. “Isto era um mundo, tínhamos tudo. Tínhamos farmácia, tínhamos padaria, correios…agora não há nada. Tenho de me deslocar a Xabregas para ir à farmácia, de táxi”, diz ,com voz apenada. Rapidamente, sorri e recupera a alegria. “Mas, a mim, nada me incomoda, vivo no meu palácio e estou bem”.

 

Há outros comerciantes que vêm o futuro com bons olhos, pensando já nas oportunidades que podem vir aí. Vítor Baeta é “o braço direito, o braço esquerdo, a cabeça, os pés” das Frutas Valério, um importador, exportador e grossista de fruta. Estão há 45 anos no mercado, há 17 anos nesta zona, num armazém que fica na Rua da Manutenção, por trás das instalações da antiga fábrica de Manutenção Militar onde vai ser o Hub Criativo.

 

Quando se lhe pergunta se sabe o que vai acontecer ali, diz que já ouviu falar, mas “não está a par”. Acha, porém, que vai ser positivo. “Com tanto espaço, com tantas fábricas que fecharam, se forem recuperar e se vierem empresas novas, com certeza que vai melhorar”, conclui. São donos daquelas instalações, portanto, se as rendas aumentarem, “é bom, é muito bom, que o imóvel passe a valer mais”, afirma sorridente.

 

 

Mas se há uma certeza é que o negócio é para se manter. “Há mais de 40 anos que as Frutas Valério vendem fruta e, com certeza, vamos continuar”, assegura, embora admita, logo a seguir, que “o dia de amanhã ninguém sabe”. Para já, só vendem por grosso e, como explica Vítor com orgulho, “são eles que fornecem à Bica do Sapato, o Fama d’Alfama, e muitos outros, daqui até Belém”.

 

Neste momento, abrem das 5 da manhã ao meio-dia. Se tiverem mais gente, já colocaram a possibilidade de ampliar o horário. Vítor Baeta não hesita: “podemos abrir até às 20h ou às 21, serão os clientes que determinem isso” e ampliar a rede de distribuição a novos negócios da zona “será uma prioridade”.

 

 

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