Na Escola EB 2/3 do Lumiar há alunos com mantas nas aulas para aguentarem o frio  

por • 13 Fevereiro, 2017 • Portfólio, SlideshowComentários (9)2985

Na escola EB 2/3 do Alto do Lumiar, em Lisboa, há 558 alunos sem acesso a aquecimento, água quente para tomar banho, um ginásio, um auditório ou um laboratório de Físico-Química. As janelas não abrem, os estores não funcionam e o mobiliário é o mesmo desde que a escola foi inaugurada, em 1986. A comunidade escolar já se reuniu várias vezes para algumas reparações, mas a escola exige uma intervenção de fundo. Há alunos a assistirem às aulas de gorro, luvas e até mantas, para poderem suportar o frio. O Corvo foi conhecer esta realidade, situada na mesma cidade onde foram gastos muitos milhões de euros na renovação de outros estabelecimentos. O Ministério da Educação promete uma reparação de fundo ainda em 2017.

 

Texto: Sofia Cristino

 

As aulas terminaram e as nuvens vão-se dissipando, marcando o fim de mais um dia. Adolescentes e crianças de mochila às costas dão vida à ventosa, e quase sempre deserta, Avenida Carlos Paredes, no Lumiar. Entre elas, mesmo à entrada da Escola Básica 2,3 do Alto do Lumiar, passam duas jovens, com cerca de 15 anos. “Já andaste nesta escola?”, questiona uma. “Eu, achas que andei nisto?”, responde a outra, com ar de desdém. Em frente à escola, erguem-se prédios relativamente novos, habitados por casais jovens, de um estrato social mais alto, que acabaram de comprar casa. Atrás da escola, encontra-se o Bairro da Cruz Vermelha, onde moram a maioria das crianças que frequenta o estabelecimento de ensino.

 

À primeira vista, poderá parecer uma escola abandonada, mas ali dentro há talentos nas mais variadas áreas do saber. Há crianças promissoras com bons resultados, muita vontade de aprender e construir um futuro melhor. Contudo, ao entrarmos, percebemos que as condições para trilharem um caminho de sucesso não estão reunidas. As irregularidades no pavimento, aos altos e baixos, sentem-se um pouco por todo o lado. Os telhados – ainda em fibrocimento (amianto) – e as janelas, encontram-se partidos. Há pavilhões onde já se vê o ferro das placas do telhado. Cá fora, o jardim, com as ervas daninhas a quererem aparecer por todo o lado, deixa transparecer a falta de zelo por um dos espaços comuns da escola que em tempos já foi um olival. As árvores, grandes e robustas, também dão sinais do tempo a passar.

 

A EB 2/3 do Lumiar, antiga escola D. José I, foi edificada como uma escola provisória. Na década de 80, o Ministério da Educação decidiu construir a que deveria servir apenas de “apoio” à já existente Escola do Lumiar nº1, que se encontrava sobrelotada e não tinha capacidade para integrar todos os alunos então existentes, provenientes dos bairros da Musgueira Norte, da Musgueira Sul e da Quinta Grande. Mas para José Almeida, presidente da Associação de Residentes do Alto do Lumiar (ARAL), que luta há vários anos pela renovação da escola, a questão foi sempre outra. “Houve sempre uma filosofia de segregação social, que existiu no Ministério da Educação durante alguns anos. Foi uma forma de evitar que os alunos das antigas escolas da Musgueira Norte e Sul fossem para a Escola do Lumiar nº1, despromovendo-se a integração social”, explica ao Corvo.

 

 

Os anos correram, a população aumentou e a escola transitória manteve-se fiel ao que era quando foi inaugurada em 1986. Por fora e por dentro. As mesas, as cadeiras, os armários, os quadros e todos os restantes materiais escolares são os mesmos de há 30 anos. Os quadros de ardósia estão encostados às paredes, por falta de parafusos. O sistema eléctrico, inteiramente degradado, faz-se notar pelos fios descarnados, candeeiros suspensos por fios e infiltrações no sistema.

 

Além disso, não existe qualquer equipamento de climatização, as janelas não abrem e os estores não funcionam, tornando os invernos mais frios e os verões mais quentes. Algumas janelas estão partidas e os telhados danificados, chovendo dentro das salas de aulas. No chão, há tacos de madeira soltos. “É a mesma coisa que termos a nossa casa e não tratarmos dela. A casa cai”, desabafa Irene Pinto, tesoureira da Associação de Pais e de Encarregados de Educação do Agrupamento de Escolas do Alto do Lumiar, que se debate com o problema há muitos anos.

 

O Corvo visitou a escola numa manhã de inverno rigoroso. Os mais de 500 alunos da Escola EB 2,3 do Alto do Lumiar começam as aulas às 8h00, fazendo-se acompanhar por vários casacos, gorros, luvas, cachecóis e até mantas para combaterem o frio. Alguns, nos dias mais frios, já começam a faltar. “Começamos a perceber que alguns dos alunos, nestes dias, não aparecem nas aulas, ficam em casa. Eles nem conseguem escrever bem assim, porque as salas são mesmo um autêntico frigorífico! Não é possível estar atento, concentrado e estudar nestas condições”, vai contando, com revolta notória, Irene Pinto.

 

E acrescenta: “Ainda não aconteceu nada que colocasse a segurança e a saúde das crianças em risco, porque não calhou. Não houve nenhum acidente drástico porque não caiu nenhum tecto nem parede, mas há muitas constipações devido à falta de aquecimento e aos buracos que existem no telhado, porque há imensas infiltrações”.

 

 

Como consequência da degradação do edifício, a escola também não acompanhou a evolução dos programas curriculares e das normas de segurança. Na cozinha, onde são confeccionadas as refeições diárias das crianças e dos jovens do 2º e 3º ciclo, as arcas frigoríficas, os fogões e o restante mobiliário também são os mesmos de há 30 anos, não se seguindo, assim, os critérios de qualidade e segurança exigidos pela ASAE. A autoridade administrativa nacional especializada no âmbito da segurança alimentar e da fiscalização económica até já foi chamada à escola, em setembro do ano passado.

 

Mas, até agora, a ASAE não deu qualquer tipo de resposta aos principais protagonistas desta luta. “Ainda não tivemos uma intoxicação alimentar no refeitório muito pelo cuidado que as pessoas que lá trabalham têm, porque o equipamento, apesar de funcional, está cheio de ferrugem e o chão está esburacado”, revela Irene Pinto. Na cozinha, só o exaustor foi alvo de intervenção recentemente porque estava em risco de cair. O bar da escola, um dos poucos espaços comuns dos estudantes, é uma sala vazia, não dando espaço à interacção social que se quer em qualquer ambiente escolar.

 

 

Volvidas três décadas, o estabelecimento de ensino continua sem pavilhão gimnodesportivo coberto – uma obra que nunca chegou a ser realizada. As crianças são, por isso, obrigadas a praticar as actividades desportivas debaixo de um telheiro ou numa pequena sala – que não tem capacidade para as turmas de cerca de 30 estudantes -, quando as chuvas torrenciais e os invernos mais rigorosos não deixam alternativa.

 

E como se faz Educação Física dentro de quatro paredes? “Nesses dias, têm aulas teóricas, fazem uns desenhos, outras actividades. Ou seja, acabam por não ter educação física metade do ano, não se cumpre o programa e a disciplina é dada a 50%”, explica-nos Irene Pinto, que também é membro da Plataforma de Defesa da EB 2,3 do Alto do Lumiar, que junta a Associação de Pais do Agrupamento de Escolas do Lumiar e a Associação de Residentes do Alto do Lumiar.

 

Mas há outra razão para que o programa curricular de Educação Física não seja cumprido. A acrescentar a estas lacunas, os balneários não têm água quente, porque a caldeira está avariada. Mas, mesmo que houvesse água quente, os balneários não poderiam ser utilizados devido à situação de degradação em que os mesmos se encontram. “Não se vai estar a gastar dinheiro numa caldeira, quando não existe um ginásio e quando os balneários também precisam de obras”, reforça Filomena Pinto, presidente da Associação de Pais do Agrupamento de Escolas do Alto do Lumiar.

 

 

Mas há mais disciplinas afetadas, como são os casos das unidades curriculares de Físico-Química e de Ciências. As salas de aulas de Físico-Química, por exemplo, não têm material de laboratório atual e as torneiras que lá se encontram têm de estar fechadas, porque ao lado destas torneiras há uma tomada de eletricidade. A sala de ciências constituí outro problema. “A nossa sala de ciências é um fóssil. Quando houver escola nova, até queremos aquela sala para museu porque há coisas que existem aqui que já não existem em lado nenhum. Nós temos cá material para ter um espólio!”, ironiza Irene Pinto. A escola também não dispõe de um auditório, onde os alunos se possam reunir para realizarem atividades de caráter artístico ou simplesmente apresentações de trabalhos à comunidade escolar.

 

Também a impossibilidade de abertura de uma sala UAM (Unidade de Apoio à Multideficiência) obriga a que os alunos portadores de deficiência tenham de se deslocar para a EB1 Padre José Manuel Rocha e Melo, em função das condições de acessibilidade. “Estas crianças nunca podem ser avaliadas em contexto de sala de aula, o que, em termos de integração e inclusão, também é muito prejudicial”, assegura Irene Pinto.

 

Na EB 2,3 do Alto do Lumiar, um estudante que se desloque em cadeira de rodas não consegue aceder à biblioteca, nem à sala de informática, porque são no primeiro piso. Também as casas de banho para deficientes estão muito longe de serem funcionais: são um corredor pequeno e a largura delas é de uma porta, que abre para fora. “Mesmo se partirmos um pé e tivermos de andar de muletas não temos uma rampa de acesso e o próprio piso das escadas não facilita. A minha filha vem de muletas para a escola amanhã e ainda quero ver como vai ser”, conta-nos Filomena Pinto, que também tem os filhos nesta escola.

 

 

Todas estas adversidades levam a Associação de Pais do Agrupamento de Escolas do Alto do Lumiar a afirmar que o que acontece na EB 2,3 do Alto do Lumiar todos os dias é “um autêntico milagre”. “Nós costumamos dizer que, quando se entra no portão às 8h da manhã, acontece aqui um milagre todos os dias. Cada aluno que passa de ano é um milagre que acontece, tanto um milagre da aprendizagem do aluno como da tarefa de ensino do professor”, sublinha Irene Pinto.

 

A beneficiação do estabelecimento de ensino, que se encontra numa zona de confluência de vários bairros e de expansão da cidade de Lisboa, chegou a estar previsto na 4.ª fase de intervenções em escolas da rede pública da Parque Escolar. No entanto, segundo o presidente da Junta da Freguesia do Lumiar, Pedro Delgado Alves (PS), o anterior Governo suspendeu essas intervenções em 2011 e, durante quatro anos, “o agrupamento nem verba conseguia mobilizar para pedir orçamentos para reparações urgentes”.

 

São políticas e decisões como estas que têm levado José Almeida a questionar quais têm sido as prioridades dos sucessivos Governos. “Quando a Parque Escolar fez obras em Lisboa, a esperança que muitas pessoas tinham aqui era de que esta escola fosse uma das contempladas. De facto, foi colocada num grupo de escolas prioritárias a sofrer obras. Mas não sofreu. E quando há escolas que não são prioritárias, como a da Rainha Dona Leonor, que sofrem obras avultadas, entendemos que há aqui um critério duvidoso”, acusa.

 

Quando a escola não acompanha o aumento da população

 

Numa freguesia que, após a recente reforma administrativa de Lisboa, se tornou na mais populosa das 24 freguesias da capital, com 45 mil habitantes – e que continua a crescer -, a urgência em zelar pelos espaços de ensino deste território torna-se ainda mais evidente. Segundo dados da Junta de Freguesia do Lumiar, no séc. XX, assistiu-se ali a um forte aumento populacional, de 2.840 habitantes em 1900 para mais de 30.000 em 2000. A construção de diversos parques habitacionais a acompanharem os novos projectos de urbanização para a cidade de Lisboa também contribuíram para o aumento da população.

 

Dado que, para José Almeida, só veio reforçar a necessidade de se investir nas escolas públicas nesta zona. “Temos um índice de natalidade que está a crescer, ao contrário de outras zonas da cidade. E até é um dos melhores índices das freguesias de Lisboa. São, essencialmente, casais jovens que compram aqui casa e têm filhos ou vão ter filhos, que já entraram ou vão entrar para a escola. O que faria aqui sentido era que existisse um investimento nas escolas públicas nesta zona, de forma a também haver uma resposta para as pessoas que vivem aqui. Nem isso existe”, lamenta o membro da Plataforma de Defesa da EB 2,3 do Alto do Lumiar.

 

“Se existe aqui alguma lógica escondida de que, esvaziando a escola, resolvem o problema, que é uma forma de alguns políticos resolverem estas situações, podem ter a certeza que não vão resolver nada. Porque, depois, haverá uma pressão demográfica para existirem mais escolas”, realça ainda.

 

 

Insatisfeitos, e a verem os anos passarem e a escola a deteriorar-se, a Associação de Pais e de Encarregados de Educação do Agrupamento de Escolas do Lumiar e a Associação de Residentes do Alto do Lumiar juntaram-se. Formaram a Plataforma de Defesa da EB 2,3 do Alto do Lumiar, nascida a 4 de outubro de 2015 para dar uma cara à luta e torná-la mais sólida. A organização de carácter voluntário, que podemos encontrar na rede social Facebook, tem um objectivo muito claro: conseguir uma intervenção de fundo na EB 2,3 do Alto do Lumiar ou mesmo a construção de uma nova escola. “Neste momento, já lutamos mais por uma escola nova, por uma obra de fundo”, constata José Almeida. “Se quiserem remodelar tudo, não nos importamos, mas nós queremos uma escola nova, não queremos remendos”, completa Irene Pinto.

 

Desde a criação da plataforma, já receberam vários partidos políticos e, mais recentemente, a secretária de Estado Adjunta e da Educação, que constataram o que se passa na EB 2,3 do Alto do Lumiar. As necessidades urgentes foram identificadas, assim como a premência de uma intervenção de fundo. A escola foi colocada na lista de escolas a intervencionar em 2017. No entanto, ainda nada foi feito.

 

Nas assembleias municipais, nos últimos três anos, foram votadas várias moções por unanimidade para a construção de uma nova escola. Recentemente, o PSD apresentou uma recomendação na Assembleia Municipal de Lisboa, relativa ao ponto de situação das diligências feitas sobre necessidades de obras na escola. Neste momento, também há três forças partidárias que estão a preparar-se para apresentarem um projeto de resolução na Assembleia da República.

 

O presidente da Junta de Freguesia do Lumiar garante que, desde 2013, quando iniciou funções neste órgão local, tem pressionado “por todos os meios e em todos os locais”, os órgãos competentes do Ministério da Educação. Já a Associação de Pais não é da mesma opinião: “O presidente da Junta de Freguesia do Lumiar está na Comissão de Educação e Ciência da Assembleia da República e não se aliou a 100%, porque, se se tivesse aliado, já poderíamos ver os resultados”, acusa Irene Pinto, que também não descarta a Junta de Freguesia de Santa Clara de responsabilidades.

 

“A escola não está inserida na freguesia de Santa Clara e, por isso, a Junta de Freguesia de Santa Clara diz que não tem responsabilidades nesta temática. O que nós respondemos é que a escola não está na freguesia, mas serve os fregueses e, por isso, têm responsabilidade”, afirma.

 

Questionada por O Corvo, Maria da Graça Pinto Ferreira (PS), presidente da Junta de Freguesia de Santa Clara, reconhece que a Escola EB2/3 se encontra em acentuado estado de degradação, por prolongada falta de manutenção. A autarca esclarece que acompanhou uma visita às instalações, conjuntamente com a Associação de Pais e outras representações, tendo nessa altura sido inventariadas as múltiplas situações deficientes.

 

 

Os pais dizem que se cansaram de ser “diplomatas”. “Fomos diplomatas no início e agora vamos deixar a diplomacia um bocadinho de lado. Não há resposta, temos de avançar”, explica-nos Irene Pinto. O tema só ainda não foi levado à Assembleia da República pela Plataforma de Defesa porque a petição pela requalificação da EB 2,3 do Alto do Lumiar– que, entretanto, o Grupo Comunitário da Alta de Lisboa (GCAL) fez e colocou online – ainda só tem mil assinaturas. Precisam de mais quatro mil.

 

A Associação de Pais queixa-se que os professores, “uma das classes profissionais mais afectadas com esta situação”, não se alia a esta causa. “Ainda não há um único professor que tenha assinado o abaixo-assinado na recolha de assinaturas, porque acham que há um trabalho que tem de ser dos pais. Não é, é um trabalho que tem de ser conjunto, porque, ao melhorarmos as condições para os alunos, também melhoramos as condições para os professores e isto ainda não foi entendido”, explica-nos Irene Pinto.

 

José Almeida acredita que há “receio” por parte dos professores em relação à tutela. “Eles são funcionários de uma entidade que lhes dá estas condições de trabalho. Nós vivemos num mundo onde é muito fácil analisar informação e têm medo que possam ser identificados como pessoas que subscreveram um abaixo-assinado”, defende. “Também há organizações como os sindicatos que ainda nem perguntaram se precisamos de ajuda. É lamentável que não se cheguem à frente e não estejam na primeira linha de obras de uma escola como esta. Eu até sou capaz de compreender que organizem manifestações em defesa da escola pública, mas isso não resolve o nosso problema de fundo, que é continuarmos com a escola no estado miserável que está”, acrescenta. O Corvo tentou contactar os docentes da escola mas, até agora, nenhum dos contactados se prestou a dar declarações.

 

Apesar das várias diligências das direções que já exerceram funções no Agrupamento de Escolas do Alto do Lumiar, alertando para a degradação deste estabelecimento de ensino, a Plataforma sente que todos os esforços têm sido em vão. Fizeram-se apenas arranjos de força maior, como o caso de uma intervenção muito pontual num telhado de um dos pavilhões que, por causa da chuva, estava a colocar em risco a segurança de alunos, docentes e auxiliares. Ou ainda o arranjo do quadro elétrico, por não suportar a carga e não executar as funções para as quais foi instalado.

 

O presidente da Junta de Freguesia do Lumiar garante que também ofereceu apoio técnico em vários momentos. “No quadro das nossas competências de intervenção social e comunitária, fomos capazes de realizar apoio aos programas de desenvolvimento social e educativo da escola e, por vezes, ajudar a escola na substituição de material para atividades desportivas, intervindo no campo de jogos ou adquirindo material como tabelas de basquete, material didático, apoiando a biblioteca, entre outros remédios pontuais”, diz.

 

Um problema muito para além da degradação física da escola

Nos últimos cinco anos, a escola EB 2,3 do Alto do Lumiar, perdeu cerca de 25 alunos por ano, o que corresponde a uma turma. Quando perguntamos aos membros da Plataforma de Defesa da EB 2,3 do Alto do Lumiar que entrevistamos porque é que nunca nada foi feito até hoje, a resposta surge muito espontaneamente, quase como se fosse óbvia. Para eles, aqui há, sem sombra de dúvidas, uma “dualidade de critérios” por parte do poder local e nacional. E o Ministério da Educação tem uma grande responsabilidade no estado a que a escola chegou.

 

“Para nós, há uma clara e descarada discriminação de todos os executivos relativamente a estas crianças, seja do Ministério da Educação, seja da Câmara Municipal de Lisboa. O problema é mais vasto, estas crianças precisam de um acompanhamento permanente, de uma atenção redobrada, porque vêm de ambientes com outros problemas. Há uma falta de investimento e de alocação de recursos nesse sentido”, denuncia José Almeida.

 

“As crianças que frequentam esta escola são, essencialmente, de famílias realojadas. Há um misto cultural, mas não há um misto sócio-económico, o que alimenta uma visão de bolha. Quem vive nas bolhas acaba por ter uma visão da sociedade baseada em ideias pré-concebidas. Isto não ajuda em nada em termos de integração. O Presidente da República disse que precisamos de uma sociedade mais justa e, se queremos uma sociedade mais justa, temos de começar logo na escola”, refere.

 

Desde 2010 que o Agrupamento de Escolas do Alto do Lumiar faz parte do programa governamental TEIP (Território Educativo de Intervenção Prioritária), que abrange escolas que se localizam em territórios económica e socialmente desfavorecidos, marcados pela pobreza e exclusão social. O programa pretende dar resposta à necessidade de criação de projetos pedagógicos de combate e prevenção do abandono escolar precoce e do absentismo. Mas, na prática, poucos têm sido os avanços neste sentido, segundo a Associação de Pais do Agrupamento do Alto do Lumiar.

 

“O TEIP poderia ser mais proveitoso, se as respostas académicas pudessem ser mais adequadas à realidade da vivência dos alunos. Se o projeto responde a estas necessidades? Muito pouco…”, lamenta Irene Pinto. “Temos aqui miúdos muito bons em dança, música, pintura, entre outras áreas, mas não há atividades que os motivem a estudar mais. A escola não tem condições para levarmos a cabo projetos que valorizem o saber das crianças. A nível da taxa de sucesso, esta até tem vindo a aumentar e tem diminuído a taxa de absentismo”, adianta.

 

As respostas vão chegando, mas não convencem

No final do mês passado, o Ministério da Educação anunciou que vai utilizar 320 milhões de euros de financiamento europeu para requalificar várias escolas do país. Contatado pelo Corvo, o gabinete do Ministro da Educação garantiu que a Escola Básica 2, 3 do Alto do Lumiar vai ser intervencionada já este ano, tendo em conta “a necessidade urgente diagnosticada pelos serviços técnicos da Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEstE)”.

 

As obras, a cargo desta entidade, incluem “a substituição de coberturas, reparação de infiltrações, substituição de pavimentos na cozinha e no refeitório, remodelação e conservação da cobertura e mobiliário dos balneários e a vedação do campo de jogos”. A DGEstE está também a trabalhar no levantamento técnico e orçamental para realizar obras de fundo, numa segunda fase de intervenções, que possa dar resposta a uma requalificação profunda da escola. O orçamento da intervenção está avaliado em cerca de 120 mil euros.

 

Confrontada com a resposta do Governo, a Plataforma de Defesa da EB 2,3 do Alto do Lumiar não se mostra convencida e diz mesmo que esta resposta é apenas “uma estratégia para reduzir o ruído que está a ser feito”. “Esta resposta é uma tentativa de ganharem tempo e uma forma de nos calar porque não acreditemos que avancem. E, ao avançarem, estão apenas a fazer remendos. Em termos financeiros, estarem a gastar 120 mil euros é estarem a deitar dinheiro fora, não é muito racional, porque a escola vai depois precisar de intervenções de fundo. Executarem essas obras requer tempo e planeamento e ainda não veio ninguém ao terreno fazer uma avaliação, nem há datas concretas”, afirma José Almeida.

 

Por exemplo, relativamente à intervenção proposta para a cozinha e para o refeitório, de substituição de pavimentos, o presidente da Associação de Residentes do Lumiar reage incrédulo: “Mudarem o chão da cozinha não resolve o problema mais grave que é a degradação dos equipamentos, que põe em risco a segurança e qualidade das refeições”, esclarece.

 

Pedro Delgado Alves, presidente da Junta de Freguesia do Lumiar, concorda que “ainda falta realizar muito trabalho” para estarem garantidas as condições ideais para o funcionamento da escola, mas acredita no avanço das obras. “Pelo menos, tivemos este início de boas notícias que decorreram já da visita da Secretária de Estado ao local e da capacidade de mobilizar verbas para investir (a escola enfrenta as dificuldades da região de Lisboa em aceder a financiamento comunitário), invertendo, finalmente, um ciclo de desinvestimento e abandono a que escola tinha vindo a ser votada há muitos, muitos anos”, conclui.

 

O dia já vai longo e o frio que se faz sentir na EB 2/3 do Alto do Lumiar entranha-se pelo corpo e faz-nos pensar que esta é a realidade de todos os dias do período escolar para quase 600 crianças e adolescentes. Amanhã, alunos do segundo e do terceiro ciclo voltam, bem cedo, para mais um longo dia de aulas. Cobertos de mantas e casacos, não vão competir pelas melhores notas, como no colégio particular ao lado. Aqui a batalha é outra: uma luta para combater o frio das salas de aula, que arrefece o coração e não permite que a aprendizagem flua ao ritmo natural com que a vida acontece.

 

O Corvo tentou ouvir o director da escola, mas tal não foi possível até à publicação deste artigo.

 

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9 Responses to Na Escola EB 2/3 do Lumiar há alunos com mantas nas aulas para aguentarem o frio  

  1. Políticos que legislam, fiscalizam e governam: Tenham vergonha

  2. Maria Mendes diz:

    Andei nessa escola à 12anos atrás e a caldeira estava funcional. Mas o resto tudo muito degradado e de ano para ano senpre será pior! Se essa escola continuar um dia cai! Já devia ser um Museu D.José I .

  3. Andreia Sopa diz:

    Eu também andei nesta escola e realmente É triste ver a situação dela . Já à 12 ou 13 anos atrás ja consideramos uma escola velha a cair de podre .Agora coitados das crianças / adolescentes que tem de viver nesta realidade . Para estar nestas condições mais vale fechar a escola.

  4. Patrícia Domingos diz:

    Eu andei nesta escola à cerca de 26 anos, e nada era assim, é uma pena ver como ela ficou… Muito triste mesmo…

  5. Paulo Branco diz:

    Há. ” há cerca de 26 anos ”
    E pelos vistos não aprendeu tudo

  6. Paulo Branco diz:

    A quantidade de comentários com “ás” sem “agas” é impressionante … isto tbém é uma grande tristeza

  7. José Júlio da Costa-Pereira diz:

    Todos os anos e já de longa data,estas noticias são publicadas como se fossem uma circunstância de acção cultural…se bem que a tradição já não….é aceite como antanho.Vamos progredindo. Devagarinho,mas vamos..