Mustafa, “águia” curda, quer voltar a casa e teme novo ataque ao Palácio do Kebab

por • 2 Maio, 2016 • Reportagem, Segunda ChamadaComentários (5)1346

 

Uma semana depois da violenta invasão ao Palácio do Kebab, que marcou a manhã do passado 25 de Abril, na Rua D. Luís I, no Cais do Sodré, o dono do estabelecimento, Mustafa Kartal, falou com O Corvo. Agora tenta recompor-se do sucedido e recusa alterar o que seja na sua rotina. O Palácio do Kebab abriu no dia depois da rixa e assim continuará, no mesmo horário. O proprietário espera agora não voltar a assistir a mais nenhum ataque. E quer reencontrar-se, custe o que custar, com a família, que não vê há quase um ano.

 

Texto: Pedro Arede

 

As marcas do episódio ainda são visíveis no rosto e nas mãos de Mustafa Kartal. O turco de origem curda, que ficou conhecido por defender o seu estabelecimento com uma faca de cortar kebab, no passado feriado do 25 de Abril, tem feridas nas mãos e dois arranhões profundos na cabeça e numa das bochechas. Fala com naturalidade e, passados alguns dias, ainda tem dificuldade em apontar razões para o sucedido.

 

Ao Corvo recorda como recorreu à faca de cortar kebab para lidar com a invasão registada em vídeo, dos mais de 20 jovens que irromperam pelo seu restaurante a exigir que lhe fosse servida comida. “Sinceramente, não tenho grande noção do que se passou nesse momento. Estou em branco, limitei-me a reagir”, conta ao Corvo, num português arrevesado. “Foi uma grande confusão. O restaurante estava cheio quando roubaram bebidas, o terminal multibanco, o telemóvel do meu empregado e os 150 euros que estavam na caixa registadora. Depois, foi o que viram no vídeo. Expulsei-os e defendi o meu restaurante”, acrescenta.

 

Mustafa conta ainda que não sabe de onde vieram os invasores e que, no momento em que os enfrentava sozinho, “havia muita gente na rua que não fez nada e ficou simplesmente a ver”. Conta o proprietário que a ajuda veio dos seguranças da Discoteca Place, situada do outro lado rua e de onde, alegadamente, terão vindo muitos dos jovens envolvidos após uma festa.

 

Os dias seguintes decorreram com relativa normalidade, apesar de ter sido notório o maior fluxo de clientes ao estabelecimento. As mensagens de apoio sucederam-se e, não raras vezes, conta Mustafa, aparecem pessoas para o felicitar pelo acto ou lojistas para conversar um pouco. “Ficaram todos muito preocupados, os alunos da escola aqui ao lado, vizinhos e pessoas que vêm cá comer. Estou muito agradecido aos portugueses”.

 

Mas, também na esfera digital, Mustafa e o seu Palácio têm sido bastante acarinhados. Por exemplo, na página de Facebook do Palácio do Kebab, muitos têm atribuído classificações de “5 estrelas” ao estabelecimento e deixado comentários de apoio ao proprietário. “O senhor é um verdadeiro herói. Muitos parabéns! Se, um dia, fôr a Lisboa, certamente lhe farei uma visita”, escreveu uma utilizadora.

 

Fumar para não chorar

 

Ao ver o vídeo do homem que defendeu impetuosamente o seu restaurante com uma faca de cortar kebab, é difícil imaginar o quão acessível e afável o curdo Mustafa consegue ser. O seu apelido “Kartal”, traduzido do turco, significa “águia”, faz questão de explicar ao Corvo. Voou da Turquia para a Hungria em 2004, onde vendia peças de vestuário, e depois para Lisboa em 2012, onde tinha uma loja na Mouraria, antes de abrir, já este ano, o Palácio do Kebab, no Cais do Sodré.

 

Há quatro anos a viver em Portugal, Mustafa nunca imaginou ver-se envolvido num episódio de violência deste tipo e, sobre o futuro, não esconde o receio de vir a passar por um novo ataque, depois de tudo o que aconteceu. “Tenho medo dos próximos tempos, mas, se Deus quiser, não vai acontecer nada”.

 

No entanto, o que realmente preocupa Mustafa nada tem a ver com o seu Palácio no Cais do Sodré, nem com questões de segurança. Para já, só quer mesmo voltar à Turquia, para estar com a mulher e os dois filhos, que não vê há quase um ano. “Agora só quero esquecer tudo isto e voltar a casa durante 15 dias. Tratar da cabeça e ver a família”, conta ao Corvo.

 

Não ver a família há quase um ano não é uma decisão voluntária, conta Mustafa. Por ser curdo, mas também por não lhe ter sido ainda atribuída a autorização de residência em Portugal, pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), enfrenta enormes problemas para regressar ao nosso país, sempre que vem da Turquia. “Aqui é tudo muito complicado. Trabalho em Lisboa há quatro anos, pago segurança social, impostos e uma renda de 800 euros e não tenho autorização de residência”, revela ao Corvo.

 

Por isso mesmo, explica, “esperar”, “falta” e “multa” foram as primeiras palavras que aprendeu a dizer em português. Mas, burocracia à parte, Mustafa Kartal diz-se apaixonado por Portugal e confessa que gostava de trazer a família consigo para Lisboa. “São todos muito simpáticos aqui, o oceano está sempre perto e há muito sol”, justifica.

 

Mustafa critica ainda duramente o governo do presidente turco, Recep Erdogan, apontando a falta de liberdade de expressão que se sente atualmente no país como um dos factores que o fazem querer vir de malas e bagagens com a família para Portugal.

 

Enquanto diz isto, tira o smartphone do bolso para mostrar algumas fotografias da mulher e dos filhos. “São bonitos não são?”, pergunta com um grande sorriso. “Para já, enquanto não vou vê-los, o melhor é fumar. Fumar para não chorar”, desabafa.

 

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5 Responses to Mustafa, “águia” curda, quer voltar a casa e teme novo ataque ao Palácio do Kebab

  1. Tuga News Tuga News diz:

    [O Corvo] Mustafa, “águia” curda, quer voltar a casa e teme novo ataque ao Palácio do Kebab https://t.co/oQBYDyTmdQ #lisboa

  2. Val Cesar Val Cesar diz:

    …como se pode ter um negócio em Portugal pagar impostos e não ter autorização de residência ! ?

  3. Nuno Raimundo diz:

    Será que queria dizer “português arrevesado”, em vez de “revezado”?
    “Recompor-se” também não leva acento circunflexo, com ou sem acordo ortográfico.

    • O Corvo diz:

      Obrigado. As correcções foram efectuadas. Pedimos desculpas aos nossos leitores pelos erros.

  4. Justice diz:

    Que se faça justiça para este grande Senhor! Deveria ser disponibilizado um polícia perto do local, enquanto o estabelicimento estivesse aberto. Estes jovens, além dos que estavam armados serem presos, deveriam todos cumprir trabalho comunitário a arranjar as ruas e casas de várias freguesias e pagar uma indemnização ao sr Mustapha e ao seu empregado…. Isto era se a nossa justiça fosse exemplar.

    http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT80875