Mesas cheias, filas à porta e grande azáfama atrás do balcão. O primeiro dia do Mezze correu tão bem que tiveram de fechar a cozinha à tarde para poderem preparar o jantar. O “restaurante dos refugiados sírios” abriu finalmente no Mercado de Arroios. Fomos conhecê-lo(s).

 

Texto: Margarita Cardoso de Meneses

 

O Mercado de Arroios acorda para mais um dia, ao ritmo cadente e tranquilo de uma manhã de terça-feira. Mas, no novo Mezze, um dos restaurantes que se encontram à sua volta, vive-se a emoção do primeiro dia de trabalho.

 

Apesar da decoração simples e cuidada, este podia ser um restaurante como outro qualquer, mais um dos que são inaugurados diariamente na capital. Porém, este é muito particular, já que abriu para dar trabalho a dez dos cerca de mil refugiados sírios que Portugal acolheu através do programa da ACNUR (Agencia das Nações Unidas para os Refugiados). Muitos rumaram já para outros países, mas os que ficaram trazem-nos agora lembranças do seu país e partilham-nas através da linguagem mais transversal do mundo: a gastronomia.

 

A grande mesa corrida no centro da sala faz jus ao nome: Mezze, que em árabe e em quase todos os países do Mediterrâneo significa uma selecção de aperitivos com sabores e cores variados, tradicional dos dias de festa, mas que não faltará em boa mesa mediterrânea.

 

A manhã corre depressa e o almoço transforma-se num vê-se-te-avias, com gente à porta, as mesas cheias e a cozinha a todo o vapor. Pratos de hummus, fathoush, kibbehstabbouleh vão sendo servidos com khubz, muito khubz, não fosse este o pão nosso de cada dia e a base de qualquer refeição na Síria e países vizinhos.

 

 

A comida é toda feita no próprio dia, “com produtos frescos aqui do mercado, só a carne, que é Halal, vem de um talho especializado”, explica Francisca Gorjão Henriques, uma das promotoras da Associação Pão-a-Pão. “Quisemos trabalhar com elas – as cozinheiras são todas mulheres – e na equipa são todos sírios, excepto o Yasser que é iraquiano”, conta.

 

Como o menu foi feito em parceria com a equipa, é normal que a comida seja sobretudo síria. Não quer dizer que, se um dia aparecer uma cozinheira do Iraque, não se introduza um prato iraquiano”. No fim de contas, a ideia da associação e deste projecto é “dar formação e emprego a refugiados do Médio Oriente”.

 

 

 

“Nós fazemos a gestão do restaurante e eles são funcionários da associação”, especifica Francisca. E se vierem mais refugiados? “Para já a equipa esta fechada”, esclarece, “mas temos frequentemente propostas de pessoas que gostariam de trabalhar aqui”.

 

A ideia é começar com este restaurante e depois “replicar a experiência em vários pontos do país”. Nessa altura, diz Francisca, “claro que se terá de alargar a equipa”. E com o serviço de catering que oferecem “mais tarde ou mais cedo vai surgir mais gente”, conclui.

 

Do zero ao Mezze no país de Ronaldo

 

Rafat Dabah, 21 anos e natural de Damasco, chegou cá há quase dois anos. Antes de lhe ter sido oferecida a oportunidade de vir, de Portugal só conhecia “o Ronaldo e o Nani”, conta, entre risos.

 

Veio com a mãe, o irmão mais novo, as irmãs e maridos delas. Para trás só ficou o pai, morto na guerra, e o irmão mais velho que ainda está na Turquia: “Fomos primeiro ao Egipto, estive lá três anos e depois viemos para cá”.

 

Rafat é um dos refugiados envolvidos nesta ideia desde o início. Foi a professora de Português que lhe deu a dica para falar com “uma menina chamada Alaa” – que ainda está na Associação Pão a Pão. “Ela estava a fazer um projecto de integração de refugiados, então conversei com ela e inscrevi-me, com a minha família”, recorda.

 

 

A mãe de Rafat é que deu o conselho mais certeiro, quando lhe perguntaram o que podiam fazer: “O caminho mais curto para integrar os portugueses com a Síria é a comida, claro!”

 

E assim começaram, há cerca de um ano, nos eventos do mercado de Santa Clara, onde preparavam “jantares e comida para as pessoas”, lembra. Correu tão bem e as pessoas gostaram tanto, que tiveram vontade de continuar neste caminho. Definitivamente, como eles também dizem na Síria, foram conquistando os portugueses pela barriga.

 

Rafat trabalhou como costureiro no Egipto e, antes disso, na Síria, como cozinheiro, com o pai. No Mezze é “o único empregado de mesa que fala português” (por enquanto), mas também parte da alma e coração deste projecto que lhe permitiu, a ele e aos outros nove refugiados, “levantar mais um andar do prédio”. A metáfora aqui não é casual, representa a vida que já conseguiu contruir em Portugal. Voltar para a Síria ou seguir para outro país agora seria “começar outra vez do zero” e, desabafa, hesitante: “não sei, teria de pensar mesmo muito bem”.

 

Horário

O Mezze serve refeições das 12h às 24h. Na primeira semana, enquanto afinam a cozinha, vão fechar a seguir ao almoço e reabrir às 19h. Depois terão serviço o dia todo, sem interrupções.

 

Associação Pão a Pão

https://www.facebook.com/pg/paoapao.associacao

associacaopaoapao@gmail.com

 

 

  • Manuela Brandao
    Responder

    “O caminho mais curto para integrar os portugueses com a Síria é a comida, claro!” os Portugueses estao a “integrar” com a Siria? Não entendo?

  • Mario Fernandes
    Responder

    Com o calor do verão e da cozinha, e as mulheres estão todas tapadas. Lamento, mas não apoiarei.

    • Rui
      Responder

      Que tens que apoiar tu? As “mulheres” a que te referes já são maiorzinhas, vestem-se como querem e com o que lhes apetece. Tal como o fazes tu, ou pelo menos deverias! Arranja outro truque, porque xenofobia e intolerância religiosa disfarçada de pena, já não cola!

      • Maia Elbling
        Responder

        o ignorante chama ignorante ao outro… não é xenofobia… ao contrario deles ninguém desejai a morte de ninguém é islamofobia que se diz….e não é pena é pior é triste…e falta de integração…

    • Joaquim
      Responder

      Uma hora e nove minutos para a primeira acusação de “xenofobia”. Os pides da nova censura levantam-se tarde.

    • André Cardoso
      Responder

      E essa acção vai ajudar as mulheres? Quer-me parecer que primeiro vem a situação económica delas, e depois vem a revolução social, ou integração, ou aculteração, seja o que for que as destape para o verão.

      • Carla Roque
        Responder

        A integração delas depende dessa ordem porquê? Não vejo como. O adaptarem-se pode ser feito de forma imediata (no que respeita às vestes). Portugal não pode permitir tradições ou valores que por base reflictam a secundarização da mulher (seja de que cultura for ou em que grau for). Em caso de conflito de valores e tradições, e que claramente os há, os que vêm de fora é que se tem de adaptar, não o contrário, e que o façam antes de entrar, ninguém as obriga a vir para cá, da mesma forma que elas não devem obrigar a aceitar esses valores e cultura no meio da cultura acolhedora.

    • Luís Soares
      Responder

      Estávamos a contar com o teu apoio. E agora???

    • Mario Fernandes
      Responder

      Luís Soares, agora olha, ficam com menos um cliente.

    • João Silva
      Responder

      Mario Fernandes quer que andem nuas na cozinha? Olhe isso é lá na sua casa, isto é um restaurante de gente séria homem!

    • Jupiter Leo
      Responder
    • Jupiter Leo
      Responder

      Um belo mural de mulheres tapadas

    • Mario Fernandes
      Responder

      Jupiter Leo, conhece a falácia da falsa equivalência?

    • Mario Fernandes
      Responder

      Jupiter Leo, o que é que estas imagens a preto e branco, do princípio e meados do século XX, têm a ver com 2017? Está a querer demonstrar como a mulher já evoluiu em Portugal e como qualquer mulher, independentemente de onde vem, deve ter o direito a sentir-se confortável numa cozinha num dia de verão, sem sentir-se pressionada a ter de estar quase completamente coberta com mangas compridas? Concordamos! Tem toda a razão! Mulheres cobertas é algo que não devemos apoiar em 2017! Ainda bem que concorda comigo.

  • Paulo Magalhães
    Responder

    Pudera, com a publicidade que teve na tv

  • Paulo Ramos
    Responder

    Pena não fazer a mesma publicidade e ajudarem os milhares de portugueses que por aí andam mas como é habitual outros são mais que os nossos.
    Tenham a coragem de fazer um inquérito em directo e terão surpresa.
    Já agora eu é que me tenho de me intregrar?
    Como?
    Eu que estou no Meu país?
    A arrogância desta gente é inacreditável

  • Ricardo Serrao
    Responder

    No meu dia-a-dia em Lisboa, por opcao, trabalho e socializo com mais estrangeiros que portugueses. E todos sao bem-vindos.
    Mas a sua larga maioria, quer conhecer Portugal e a nossa cultura, e aprender o portugues. E fazerem parte desta mescla de nacionalidades e culturas.

    Estas senhoras deixaram claro que apenas queriam manter a sua cultura, sem aprender a lingua e sem se integrarem – foi dito pela sua boca no video a uns meses atras.

    Nada tenho contra as mesmas, mas nao posso apoiar quem teima em se excluir.

    • Rui
      Responder

      E porque razão deviam renunciar à sua cultura para adoptar a tua? Queres dizer que a tua é melhor que a sua?

      • Carla Roque
        Responder

        Fugiram de uma situação social e politica que está associada à respectiva cultura, escolhendo um local que, devido à respectiva cultura, elegerem como melhor no entanto, ironicamente, trazem a respectiva cultura que é responsável pelo que fogem. Essas pessoas tem opção de irem para muitos outros países mussulmanos que estão em paz, optem por esses. O pais de acolhimento, Portugal, tem a opção de rejeitar essa cultura na qual, em concreto, a mulher é secundarizada, e isso deverá ser inadmissível em qualquer circunstancia, seja que cultura for.

      • sam
        Responder

        Afirmativo

    • João Silva
      Responder

      Coloque esse video.

    • Ricardo Serrao
      Responder

      nao era inicialmente este, porque este é apenas um excerto… e parece que retiraram online o video original… e deixaram novas versoes mais curtas

      mas diz claramente que chegaram em 2012, e que ainda nao falam portugues… 5 anos depois…
      https://www.facebook.com/aljazeera/videos/10155488540618690/

  • Nelma Mariano
    Responder

    Muito sucesso para o Mezze – Cozinha do Médio Oriente

  • Dora Pinto
    Responder

    Que bom que em Portugal há opção de escolha! Eu tenho a maior curiosidade em conhecer a gastronomia síria, confeccionada por sírios! Fartinha de restaurantes japoneses/chineses ou pior, luso/chino/japonês e todas as demais fusões…

  • André Cardoso
    Responder

    Tapadas ou não, primeiro vem a situação económica delas, e depois, com tempo, elas tratam da sua integração, elas!

  • Luís Soares
    Responder

    Claro elas é que são “tapadas”

  • Carlos Lopes
    Responder

    Mulheres destapadas é no Sampayo.
    Nas cozinhas é obrigatório ter protecção contra a queda de cabelos.

  • Mario Fernandes
    Responder

    Luís Soares, não é “são”, é “estão”. E não estão?

  • Flávio Marques
    Responder

    Nuno Ferro wins !

  • São Pinto Da Costa
    Responder

    Os sírios querem voltar para a terra deles, deixem-se hipocrisia

    • Inês C. Paulo
      Responder

      Há imensas pessias que emigraram e que igualmente querem voltar para Portugal um dia. Naturalmente que se as pessoas fogem de uma guerra esperam um dia que as coisas no seu país natal melhorem para que possam pensar em voltar. Até lá é ótimo que consigam viver e adaptar-se noutro país.

    • Inês C. Paulo
      Responder

      *pessoas

  • miguel
    Responder

    Com certeza vou lá comer um frango Hassad

  • Maia Elbling
    Responder

    já não bastava os kebabs mais um restaurante… não acredito que seja integração com tantos portugueses para ajudar de ser muçulmanos… preferia que ajudassem luso-venezuelanos católicos ou ate israelitas judeus ou até um norte coreano sem religião…considero horrível estarem tapada acho acho horrível tudo o que tem feito … só desejo que continuem saber muito pouco de nos e nunca se lembrem de atirar nenhuma bomba …agora podem me chamar de islamofobica porque sou e os que não tem medo da sharie deviam ter ou vão estudar o que é o Islão….

  • Inês C. Paulo
    Responder

    Estes comentários são de uma falta de noção que enfim.
    Muito boa iniciativa e ótimo para abrir horizontes e conhecer uma nova cozinha com sabores que não estamos certamente habituados a provar.
    Quanto ao resto…são comentários despropositados e desnecessários.

  • Karine Serre
    Responder

    Que pena ler estes comentários… Nao ha mais para dizer, que conversar se as mulheres Sirias devem estar tapadas ou destapadas. Estamos a falar so dum restaurante, talvez deveriamos pensar mais en termos de Mundo e nao so de “pais”. Pois. Eu vou experimentar em breve, e se a comida e boa, vou dar o meu apoio!

  • João Silva
    Responder

    Eu acho que a unica coisa aqui tapada é mesmo a sua cabeça, tem duas palas de cada lado e não vê mais além.

  • Constança Figueiredo
    Responder

    Catarina Silva

  • Francisco Santos Silva
    Responder

    Acho estes comentários espetaculares. A lógica é “estas senhoras estão tapadas porque são oprimidas, logo bora arrancar-lhes as roupas à força que devem ficar agradecidas.” Então e deixar que se vistam como bem entenderem? O chauvinismo de as obrigar a destapar é tão desrespeitoso dos seus direitos como de as obrigar a tapar. É uma questão de ninguém as obrigar a fazer nada e deixá-las estar como bem entenderem, não fere em nada a nossa liberdade a liberdade delas.

  • Figo Vieira
    Responder

    Ainda estamos longe do que se chama “integração” e “interculturalidade”. De facto também acho que qualquer pessoa que mude de país, tenha de começar por :
    1) aprender a lingua
    2) observar, compreender habitos sociais, religiosos e culturais desse mesmo país.

    a questão deles serem ou não serem refugiados, pertencerem ou não à uma certa religião ficaria afastada da polémica da “integração”. E digo isto porque quando vou para o sul de Portugal, muitas vezes tenho de falar inglês para pedir um café… Fico ainda mais consternada quando sei que estão em Portugal desde a década de 90.

  • José Ferrão
    Responder

    Nem consigo perceber como é que autorizam o véu integral em trabalhadores num espaço público. Atrás de um véu pode esconder-se o trabalho infantil que é proibido por lei. E se as autoridades não actuam, o melhor que temos a fazer é virar-lhes as costas.

  • Gláucia
    Responder

    Espero que pelo menos todas essas pessoas xenófobas e invejosas do sucesso alheio não vão lá experimentar a maravilhosa comida síria, que é uma coisa que realmente faltava em Portugal. Assim a fila fica menor. Parabéns aos promotores e à equipa toda.

  • Jupiter Leo
    Responder

    a mim nunca me ocorreu arrancar o lenço que a minha avó usava na cabeça

  • Jupiter Leo
    Responder

    já agora, a rainha Isabel II do Reino Unido aquela sra de London town, também usava

  • Jupiter Leo
    Responder
  • Mario Fernandes
    Responder

    Jupiter Leo, quem é que está a falar de lenços? Ainda bem que os usam na cozinha, para evitar que cabelos acabem nos pratos. Está-se a falar é de mangas compridas, de mulheres quase completamente cobertas, numa cozinha em dias de verão — tudo porque, caso contrário, podem provocar os homens, que não se responsabilizam se as atacarem por estas estarem a puxar-lhes pela testosterona. É que cabe às mulheres não provocarem os homens, que, como se sabe, não se conseguem controlar quando veem pele. Uma mulher é um objecto sexual e, especialmente se pertence a outro homem, deve estar coberta. É o que estas senhoras cobertas numa cozinha em dias de verão representam.

  • Jupiter Leo
    Responder

    o supra-sumo da elegância

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