Irritado com o fumo, padre quer vendedora de castanhas longe da Basílica dos Mártires

por • 3 Novembro, 2017 • BAIRROS, Reportagem, Santa Maria Maior, Segunda Chamada, VIDA NA CIDADEComentários (9)5607

O padre Armando Duarte exige que a vendedora ambulante de castanhas, que se encontra em frente à Basílica dos Mártires, na Rua Garrett, mude o negócio sazonal para outro lado. Segundo o pároco, o fumo resultante da assadura do fruto da época entra na igreja e danifica as pinturas originais do século XVIII. A vendedora e alguns clientes não percebem a razão da queixa, pois já é o segundo ano que se vende ali castanhas e nunca, até ao mês passado, existiram reclamações. O padre está a tentar, junto da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, que a sua vontade prevaleça e garante que, se a autarquia não o ajudar, encaminhará o assunto para a Direcção-Geral do Património Cultural.

 

Texto: Sofia Cristino

 

Quando a vendedora ambulante de castanhas Filipa Gaspar mudou o seu negócio sazonal da saída do metropolitano do Chiado, na Rua do Crucifixo, para o adro da Basílica dos Mártires, na Rua Garrett, não imaginava que a alteração viesse a originar tantos problemas. O padre Armando Duarte, que celebra algumas eucaristias na igreja onde Fernando Pessoa foi baptizado, está incomodado com o fumo originário da assadura de castanhas, o qual, segundo o pároco, entra no monumento nacional, deteriorando pinturas originais do século XVIII, da autoria do pintor Pedro Alexandrino de Carvalho. “A venda de castanhas assadas no adro duma basílica põe em risco o espólio artístico nela contido, que não é meu, nem da senhora Filipa Gaspar, mas de Portugal”, explica.

 

 

Segundo Armando Duarte, esta situação incomoda-o desde Dezembro do ano passado, tendo só acalmado em Março, quando a venda de castanhas foi trocada pela venda de fruta. “O ano passado, estranhei, de facto, que um negócio que enche de fumo um monumento nacional revestido de originais de Pedro Alexandrino fosse feito em frente à igreja. Já nessa altura, reclamei. Como, entretanto, a venda das castanhas terminou, não voltei ao assunto”, esclarece, em depoimento escrito a O Corvo. Filipa Gaspar tem outra versão da história. “Ele só começou a reclamar no início do mês de Outubro deste ano, até aqui nunca me tinha criado problemas”, argumenta.

 

“Não tenho tido descanso. Todos os dias, o padre implica comigo e diz-me que vou ter de sair daqui. Diz que entra fumo na igreja, mas eu já estive lá e não senti fumo nenhum. Acho que isto tem a ver com um dia em que esteve nevoeiro e, de facto, entrou fumo, mas foi só um dia”, acrescenta, ainda.

 

 

Os funcionários da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, a pedido do padre, estiveram no local a verificar a situação. Segundo Filipa Gaspar, chegaram à conclusão que o fumo descia para a rua, não entrando no monumento histórico. “Quando o padre ligou, vieram cá os fiscais da Junta, tiraram fotos e inspecionaram tudo e disseram que não sentiram fumo nenhum dentro da igreja. Verificaram que o fumo desce pela rua. Até comentaram que não estiveram aqui a fazer nada. Eu tenho três filhos, estou sozinha e este é o meu sustento. Se tiver de sair, vou para onde? O negócio já está mau e aqui ainda vou vendendo. Duvido que na saída do metro, onde já estive, consiga vender da mesma forma”, lamenta.

 

Apesar da fiscalização dos fiscais da Junta não ter confirmado a crença do padre, segundo a vendedora de castanhas, Armando Duarte continuou a insistir nas queixas. “O presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, através de uma funcionária, tem feito pressão para eu sair daqui”, garante Filipa Gaspar.

 

Anamaria Teresa, voluntária há 32 anos na Basílica dos Mártires, confessa estar “estupefacta” com a atitude do pároco. Agora mora no Estoril, mas, em tempos, já viveu na baixa lisboeta e nunca se desvinculou da igreja. “Trabalho com o padre há muitos anos e nunca se queixou do fumo nem dos vendedores de castanhas. Esta situação é, no mínimo, estranha. Acho que só pode estar a ser influenciado por alguém”, acusa.

 

 

Filipa Gaspar concorda e diz mesmo que se passa algo de “esquisito”. “Isto é muito estranho. A primeira pessoa a reclamar foi um civil que ajuda o padre, talvez o tenha influenciado”, revela. E acrescenta: “Está tão preocupado com a aparência do monumento, que nem repara na sujidade das fachadas, que estão assim há anos. Ainda hoje, estive a limpar a pedra, porque a juntar a isso é um cheiro que não se pode”, conta, indignada.

 

Ana Rocha, 35 anos, funcionária da Livraria Bertrand, que passa ali todos os dias, também não vê problema na localização do carrinho de castanhas. “O fumo não causa impacto nenhum nas pinturas da igreja. E é bom manter as roulotes de castanhas, porque é tradicional e português”, afirma. Dália Castilho, 61 anos, funcionária da Pastelaria Benard, concorda. “Entro imensas vezes na igreja e não sinto fumo nenhum. Muitas clientes minhas também dizem que não percebem esta atitude do padre”, reforça.

 

Contactado pelo O Corvo, o presidente da Junta da Freguesia de Santa Maria Maior, Miguel Coelho (PS), disse que, para já, não tem novidades quanto ao desfecho desta situação. “Trata-se de um assunto que está a ser analisado pelos serviços competentes da Junta, pelo que não tenho informação adicional sobre o mesmo”, disse em depoimento escrito.

 

Tenha sinal verde da Junta ou não para impedir a venda de castanhas, em frente à Basílica dos Mártires, o padre Armando Duarte garante que vai continuar a debater-se pela saída da vendedora ambulante. “Nada me move contra a senhora Filipa Gaspar, mas é meu dever defender este ‘tesouro de arte‘ que me foi confiado. Foi isso que fiz junto do presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior e farei, caso o assunto não se resolva, junto da Direcção Geral dos Monumentos Nacionais*”, ameaça.

 

* Direcção-Geral do Património Cultural

 

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9 Responses to Irritado com o fumo, padre quer vendedora de castanhas longe da Basílica dos Mártires

  1. Joana diz:

    Sra jornalista por favor emende isto!
    Acho que isto tem a haver com um dia em que esteve nevoeiro e, de facto, entrou fumo, mas foi só um dia”, acrescenta, ainda.

    * tem a ver – e não tem a haver

  2. Ana GONÇALVES diz:

    Que estranho!

    • M...JSP diz:

      Bom dia!Conheço o local,visito esta igreja frequentemente…..estou incrédula!!!!!Toda a conversa do fumo é pura anedota….o que muito incomoda á porta da igreja é sujidade e muitos pobres a quem o sr Padre poderia dar uma mãozinha….Jesus ficar lhe ia muito grato , e aqueles que para lá vão teriam um espaço para viver e uma refeição e assim a sua vida seria menos difícil.Ajude os a vivere com um mínimo de dignidade.Padre esse seria uma prova do Amor em Cristo….pense nisso e deixe a senhora trabalhar para seu sustento e dos seus filhos.Ajude Padre….não dificulte,não crie problemas onde não existem.Reflita!!!!!

    • Bruno Pinto diz:

      Boa noite!Estranho é como é que naquela rua nunca foi permitido qualquer tipo de venda ambulante, derivado a ser uma zona estruturante da C.M.L vários vendedores já tentaram pedir licenças para venderem diversos artigos ex: artesanato,pintura,estátuas vivas,músicos,pipocas,gelados,etc…
      E a todos lhes foi recusado alegando não sendo permitido na zona e de repente veio a senhora das castanhas e as regras mudaram de um dia para o outro isso é que é estranho passou por cima de todos os outros vendedores que também têm filhos,porque é que ela tem direito e os outros não tiveram, se não há para uns também não deveria haver para ela,os filhos dos outros também precisão de comer mas ninguém pensou nisso quando lhes deram com o NÃO redondo na cara,mas a senhora das castanhas conseguiu como?Porquê?É especial é diferente dos outros?
      Eu acho uma tremenda falta de respeito e humanidade para com os outros vendedores ambulantes e artistas de rua que não tem direito a trabalhar a “comer” com esta História do quero,posso e mando a senhora das castanhas não é mais que os outros só tem é que sair dali! É justo ou então autorizem os outros também, montem ali a “feira do relógio”se calhar até ficava gira a Rua Garrett,pensem nisso!
      Essa senhora das castanhas julga-se muito esperta ,atropela tudo e todos para conseguir os seus interesses, devia ter mais respeito pelos os outros ela e quem lhe deu a licença é uma vergonha por favor senhora jornalista tente saber como lhe deram a licença para os outros vendedores fazerem o mesmo pode ser que tenham a mesma sorte é uma injustiça!
      Boa noite.

  3. Nuno Silva diz:

    Quando se acendiam dezenas de velas por dia dentro da igreja, o padre não se chateava !

  4. Mário Mesquita diz:

    O bastardo do padreca incomoda-se com o fumo da assadura das castanhas que lhe danificam o “tesouro de arte” do templo e causa mau estar dentro do mesmo, mas, e cita-se por mero exemplo, muito provavelmente esse pedaço de asno não contesta o verdadeiro escândalo que é o “forno crematório” do santuário de Fátima, anexo à capela da Senhora, onde são queimadas diariamente toneladas de ceras, largando na atmosfera fumos negros acentuadamente tóxicos e dimanando-se dessa queima um cheiro nauseabundo, contrariando, aliás, o que se acha legislado sobre as questões ambientais. Pelo que é dado entender, este homenzinho de triste figura é apenas mais um infeliz frustrado que quer protagonismo saloio sem olhar a meios para alcançar um fim! O mentecapto, vá-se lá saber porque manhas, o quer, no caso, é implicar, de forma ostensiva e abjecta, com um carrinho onde se assam uns quilos meramente insignificantes de castanha. Esta gentalha eclesiástica anda a precisar duma purga à Sebastião José de Carvalho, anda, anda…

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