Impressões e lugares literários de Lisboa nas obras de dez autores portugueses

por • 22 Maio, 2017 • Slideshow, VIDA NA CIDADEComentários (1)275

O turista vê aquilo que está no guia ou o que encontra por acidente. O residente passa com pressa e, muitas vezes, nem repara. O escritor leva consigo os lugares que chamam por ele, intrigam e comovem. É por isso que um roteiro de Lisboa construído a partir de passagens e excertos dos livros não é somente uma visita aos postais icónicos como a Baixa, o Rossio ou o Tejo. Neste percurso que O Corvo traçou através de grandes obras de dez autores portugueses, as atracções não são apenas para turista ver. São pegadas deixadas por quem conhece a cidade de dentro para fora. E só as reconhecemos quando nas páginas nos cruzamos com os velhos dos jardins, os prédios abandonados ou os cheiros dos grelhados e descobrimos a intimidade que sempre tivemos com a cidade.

 

Selecção de textos: Kátia Catulo

 

JOSÉ CARDOSO PIRES

 

Os velhos de jardim

“Aparecem como os gatos quando há sol, mas em bando. De gatos sabemos nós, não há lugar onde eles estejam tão presentes sem se fazerem notar como em Lisboa, mas os velhos de jardim quem os adivinha na sua biografia? Fechados a sete chaves na reforma ou na viuvez enquanto o mau tempo os tem de sobreaviso, saltam para a rua assim que abre o sol e distribuem-se pelos jardins a jogar às cartas. Fazem grupo, nos bancos onde antes se sentavam os namorados, montam casino e conversa, e, cheios de convicção e de ferrugem, batem o ás e a manilha com a prudência que lhes ensinou a idade (…).”

Lisboa, Livro de Bordo – vozes, olhares, memorações (1997)

 

 

 

Cheiros

“Há vozes e cheiros a reconhecer — cheiros, pois então: o do peixe de sal e barrica nas lojas da Rua do Arsenal, não vamos mais longe; o da maresia a certas horas das docas do Tejo; o do Verão nocturno dos ajardinados da Lapa; o dos armazéns de aprestos marítimos entre Santos e o Cais do Sodré; o do peixe a grelhar em fogareiro à porta dos tascos de recanto ou de travessa, desde o Bairro Alto a Carnide; o cheiro fumegante das castanhas a assar nos fogareiros dos vendedores ambulantes.”

Lisboa, Livro de Bordo – vozes, olhares, memorações (1997)

 

 

 

 

Largo do Caldas

“Mas Elias não veio ao Largo do Caldas para reconstruir os passos de Mena na manhã que ela fez a primeira visita ao advogado. Dirige-se para lá, é certo, chegou a sua vez de apalpar a palavra do Ilustríssimo Gama e Sá, mas se passou por ali foi porque de casa para a Rua do Ouro o Caldas lhe fica em caminho de diligência, como se diz em serviço, está-lhe ao pé da porta, sabe esse largo de trás para diante e de diante para trás, o largo com a barbearia duma só cadeira e espelho de moscas, com os marceneiros de meia cancela que nunca se vêem, só se ouvem, e com o casarão das janelas trancadas onde à noite anda uma luzinha a passear lá dentro. Numa manhã de sol como esta o casarão tem fatalmente um frizo de pombas emproadas ao correr do telhado mas não vale a pena olhar, é sempre aquilo. Do outro lado é que sim, do outro lado, Rua da Madalena a descer, é a feira dos ortopédicos. Aí nunca falta que ver nem que meditar.”

Balada da Praia dos Cães (1982)

 

 

 

Táxis e dias de chuva

“Elias no Largo do Caldas: Neste largo apeou-se ela do táxi. Ela é Mena no Inverno, três meses atrás, e não numa manhã como esta perfilada de sol. Viajou de autocarro desde a Casa da Vereda até ao viaduto Duarte Pacheco, última paragem à boca da cidade, e aí meteu a Campo de Ourique à procura dum táxi. Impermeável escorrido, lenço colado à cabeleira falsa, a ver passar pára-brisas. Elias faz ideia do desespero que não deve ter sido para ela essa manhã: é mais fácil enfiar um autocarro pelo cu duma agulha do que entrar num táxi em dia de chuva.”

Balada da Praia dos Cães (1982)

 

 

JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS

Avenida Almirante Reis

“Ponho-me a olhar a Avenida cá de cima, da minha água furtada e meu refúgio, e digo-lhe, seu Apolinário: tudo isto levou uma grande volta. Antigamente vivia-se aqui como num céu aberto. Nem faz ideia onde isso vai, parece que não, os dias passam devagar, mas olhe que os anos vão-se depressa. A gente só dá por isso quando já não tem remédio.

(…)

Noite morta, pelas dez, passava o varino dos jornais, descalço, anelante da maratona em que vinha desde a Baixa, apregoando A Capital, e a voz dele tinha um tal desgarramento de mundo perdido, que eu, na minha cama fria de impúbere, a seguir-lhe em mente os passos, sentia um apêrto na garganta e uma irresistível vontade de chorar. Pela meia-noite podia-se ouvir cair um alfinete nas pedrinhas da calçada — às vezes era um morto que tombava, a tiro… Altas horas, trambolhavam rua abaixo as carroças de bois carregadas de hortaliças, a caminho dos mercados. Os carroceiros, de gabão, dormiam sentados nos varais. Passavam tipóias derreadas de boêmios e fêmeas que iam madrugar para as hortas. A Júlia Mendes morreu por esse tempo!”

Saudades para a Dona Genciana, in Léah e Outras Histórias (1959)

 

 

Lisboa Paraíso

“Por extraordinário que possa parecer, o Paraíso existe e está ao nosso alcance: ao cimo da Calçada, quase no encontro de três ruas, mas recolhido e ausente. Desde a Sé, lá em baixo, o labirinto das ruas, a meia-laranja, a íngreme ladeira com os gradeamentos polidos como bronze, os telhados sobrepostos, a capela sempre fechada – tudo isto forma um presépio erguido sobre muros e socalcos de jardins donde se debruçam velhas pimenteiras, trepadeiras e flores mal cuidadas, e se enxergam painéis de antigos azulejos”.

A Escola do Paraíso (1960)

 

 

 

Descendo até ao rio

“Faltou pela primeira vez à missa. Vagueou todo o dia de olhos bem abertos, por bairros antigos e ao longo dos cais, e admirou as barcas, as fragatas e os vapores no espelho fulgurante do Tejo. Respirava os cheiros da nova cidade, aromas de mercadorias exóticas e emanações fétidas de marés baixa e dos boqueirões, sem medo de nada, a tudo estranho e por tudo atraído.”

O Milagre segundo Salomé (1974)

 

 

 

EÇA DE QUEIROZ

Rossio

“Do Rossio, o ruído das carroças, os gritos errantes de pregões, o rolar dos americanos, subiam, numa vibração mais clara, por aquele ar fino de Novembro: uma luz macia escorregando docemente do azul ferrete, vinha dourar as fachadas enxovalhadas, as copas mesquinhas das árvores de município, a gente vadiando pelos bancos: e essa sussurração lenta de cidade preguiçosa, esse ar aveludado de clima rico, pareciam ir penetrando pouco a pouco naquele abafado gabinete e revelando pelos veludos pesados, pelo verniz dos móveis, envolver Carlos numa indolência e numa dormência.”

Os Maias (1888)

 

 

Varandas

“O sol desaparecera; na rua estreita havia uma sombra igual, de tarde sem vento; pelas casas, de uma edificação velha, escuras estavam abertas as varandas onde em vasos vermelhos se mirrava alguma velha planta miserável, manjericão ou cravo; ouvia-se, no teclado melancólico de um piano, a Oração de uma virgem, tocada por alguma menina, no sentimentalismo vadio do domingo; e na sua janela, em frente, as quatro filhas do Teixeira Azevedo, magrinhas, com os cabelos muito riçados, as olheiras pisadas, passavam a sua tarde de dia santo, olhando para a rua, para o ar, para as janelas vizinhas, cochichando se viam passar um homem — ou debruçadas, com uma atenção idiota, faziam pingar saliva sobre as pedras da calçada.”

O Primo Basílio (1878)

 

Praça de Camões

“Entraram na Praça de Camões. Gente passeava devagar; sobre a sombra mais escura que faziam as árvores cochichava-se pelos bancos; bebia-se água fresca; claridades cruas de vidraças, de portas de lojas destacavam em redor no tom escuro da noite; e no rumor lento das ruas em redor, sobressaíam as vozes agudas dos vendedores de jornais”.

O Primo Basílio (1878)

 

São Pedro de Alcântara

“Foi então descendo ao acaso o Moinho de Vento, e ao passar por S. Pedro de Alcântara, penetrou sob as árvores e foi encostar-se às grades. A cidade cavava-se em baixo, no vale escuro, picado dos pontos de luz das janelas iluminadas, e, na escuridão, os telhados, os edifícios, faziam um empastamento de sombras mais densas. Aquelas luzes, debaixo daqueles tectos, que fermentação de vida! Quantos amores, quantos mistérios, crimes talvez! Ali, jornalistas compunham artigos, oradores preparavam discursos, estadistas conferenciavam, mulheres aristocráticas, nas suas salas, falavam de amores, e, nos pianos ricos, gemiam as cavatinas apaixonadas. Que grande, Lisboa!”

A Capital (1825)

 

 

Um eléctrico na Baixa

“À beira do assento, com as mãos nos joelhos, Artur, através dos vidros embaciados, ia olhando avidamente as fachadas das casas, os cartazes nas esquinas, a prolongação das ruas. Galegos curvados sob o barril chapinhavam na lama, gente passava encolhida sob os guarda-chuvas. Teve um espanto ao ver de repente os arcos do Terreiro do Paço, o rio, mastreações de esquadras! Pela Rua da Prata, ia lendo avidamente as tabuletas. Quem viveria naquelas altas casas, cerradas ainda? Àquela hora, decerto, os jornalistas, as duquesas, dormiam, depois das agitações intelectuais e amorosas da noite…

— E uma felicidade exuberante encheu-lhe subitamente o peito.”

A Capital (1825)

 

 

 

JOSÉ SARAMAGO

Bairrismos

“Para descansar e recompor-se do museu, o viajante foi ao Bairro Alto. Quem não tem mais que fazer alimenta rivalidades populares entre este bairro e Alfama. É tempo perdido. Mesmo pecando pelo exagero que sempre contêm as afirmações peremptórias, o viajante dirá que são radicalmente diferentes os dois. Não é o caso de sugerir que é melhor este ou aquele, supondo que viria a concluir-se que significa ser melhor em comparações destas; é sim que Alfama e Bairro Alto são antípodas um do outro, no jeito, na linguagem, no modo de passar na rua ou estar à janela, numa certa altivez que em Alfama há e que o Bairro Alto trocou por desaforo. Com perdão de quem lá viva e de desaforado nada tiver”.

Viagem a Portugal (1981)

 

 

 

Bairro Alto

“Este bairro é castiço, alto de nome e situação, baixo de costumes, alternam os ramos de louro às portas das tabernas com mulheres de meiaporta, ainda que, por ser a hora matinal e estarem lavadas as ruas pelas grandes chuvas destes dias, se reconheça na atmosfera uma espécie de frescura inocente, um assopro virginal, quem tal diria em lugar de tanta perdição, dizem-no, pelo seu próprio canto, os canários postos às varandas ou na entrada das tabernas, chilreando como loucos, é preciso aproveitar o bom tempo, sobretudo quando se conta que dure pouco, se outra vez começa a chover esmorece a canção, arrepiam-se as penas, e uma avezinha mais sensível mete a cabeça debaixo da asa e faz que dorme, veio recolhê-la para dentro a dona, agora só a chuva se ouve, está também por aí a tanger uma guitarra, onde seja não o sabe”.

O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984)

 

 

 

Praça da Figueira

“Agora, sai, urbanamente deu as boas-tardes, e agradecendo saiu pela porta da Rua dos Correeiros, esta que dá para a grande babilónia de ferro e vidro que é a Praça da Figueira, ainda agitada, porém nada que se possa comparar com as horas da manhã, ruidosas de gritos e pregões até ao paroxismo. Respira-se uma atmosfera composta de mil cheiros intensos, a couve esmagada e murcha, a excrementos de coelho, a penas de galinha escaldadas, a sangue, a pele esfolada. Andam a lavar as bancadas, as ruas interiores, com baldes e agulheta, e ásperos piaçabas, ouve-se de vez em quando um arrastar metálico, depois um estrondo, foi uma porta ondulada que se fechou”.

O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984)

 

 

 

Cais do Sodré

“Os barcos, vistos do meio da praça, pousados sobre a água luminosa, parecem aquelas miniaturas que os comerciantes de brinquedos põem nas montras, em cima de um espelho, a fingir de esquadra e porto de mar. E, de mais perto, da beirinha do cais, pouco se consegue ver, dos nomes nenhum, apenas os marinheiros que vão de um lado para o outro no tombadilho, irreais a esta distância, se falam não os ouvimos, e é segredo o que pensam”.

O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984)

 

FERNANDO PESSOA

Estendais de roupa

“Depois que as últimas chuvas passaram para o sul, e só ficou o vento que as varreu, regressou aos montões da cidade a alegria do sol certo e apareceu muita roupa branca pendurada a saltar nas cordas esticadas por paus médios nas janelas altas dos prédios de todas as cores”.

Depois que as últimas chuvas passaram para o sul, Bernardo Soares, in Livro do Desassossego (1913)

 

 

 

Elevador de Santa Justa

“O que no Elevador de Santa Justa é universal é a mecânica facilitando o mundo.”

A renúncia é a libertação. Não querer é poder. Bernardo Soares, Livro do Desassossego (1913)

 

 

 

Janela com vista para a cidade

“Nada disso me interessa, nada disso desejo. Mas amo o Tejo porque há uma cidade grande à beira dele. Gozo o céu porque o vejo de um quarto andar de rua da Baixa. Nada o campo ou a natureza me pode dar que valha a majestade irregular da cidade tranquila, sob o luar, vista da Graça ou de São Pedro de Alcântara. Não há para mim flores como, sob o sol, o colorido variadíssimo de Lisboa”.

Fragmento 50 da edição Assírio & Alvim Bernardo Soares, Livro do Desassossego

 

Cais das Colunas

Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo -,

Transeunte inútil de ti e de mim,

Estrangeiro aqui como em toda a parte,

Casual na vida como na alma

(…)

Lisbon Revisited, in Contemporânea, nº 8. Lisboa: 1923.

 

 

 

Chiado

“O Chiado sabe-me a açorda. Corro ao fluir do Tejo lá em baixo. Mas nem ali há universo. E o tédio persiste como uma mão regando no escuro”. 

Álvaro de Campos, Livro de Versos (1944)

 

 

 

CESÁRIO VERDE

Noite na Baixa

(…)

A espaços, iluminam-se os andares,

E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos

Alastram em lençol os seus reflexos brancos;

E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

 

Duas igrejas, num saudoso largo,

Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:

Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,

Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

 

Na parte que abateu no terremoto,

Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas;

Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,

E os sinos dum tanger monástico e devoto.

(…)

Noite Fechada, in “O Sentimento dum Ocidental”. Cesário Verde – Poesia Completa, 1855-1866, Lisboa: Dom Quixote.

 

 

EUGÉNIO DE ANDRADE

Jacarandás

São eles que anunciam o Verão.

Não sei doutra glória, doutro

paraíso: à sua entrada os jacarandás

estão em flor, um de cada lado.

E um sorriso, tranquila morada,

à minha espera.

Aos jacarandás de Lisboa, in Os Sulcos da Sede (2001)

 

 

 

ADÍLIA LOPES

Abandono

(…)

Cidade desabitada

como um armazém

(…)

Cidade que se degrada

cidade que acaba.

Lisboa, in Poemas Novos (2006)

 

 

 

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Tejo

Aqui e além em Lisboa – quando vamos

Com pressa ou distraídos pelas ruas

Ao virar da esquina de súbito avistamos

Irisado o Tejo:

Então se tornam

Leve o nosso corpo e a alma alada

Tejo in Obra Poética (2011)

 

 

 

ANTÓNIO NOBRE

Ruas, becos travessas e toponímias

(…)

Ó Lisboa das ruas misteriosas!

Da Triste Feia, de João de Deus,

Beco da Índia, Rua das Fermosas,

Beco do Fala-Só (os versos meus…)

E outra rua que eu sei de duas Rosas,

Beco do Imaginário, dos Judeus,

Travessa (julgo eu) das Isabéis,

E outras mais que eu ignoro e vós sabeis.

(…)

À Lisboa das naus cheias de glória, in Despedidas: 1895-1899, 1902

 

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One Response to Impressões e lugares literários de Lisboa nas obras de dez autores portugueses

  1. eu poria também nuno bragança,mario de carvalho,irene lisboa,fialho de almeida….para não repetir e diversificar e lobo antunes…….obrigado gostei muito