Grupo de cidadãos pede à Câmara de Lisboa para acabar com as marquises

por • 10 Fevereiro, 2017 • Actualidade, SlideshowComentários (45)1647

O problema é antigo e atinge uma dimensão difícil de quantificar. Em Lisboa, como no resto do país, existe um número não contabilizado de apartamentos cujas varadas foram, à margem dos regulamentos urbanísticos, convertidas em marquises. O impacto estético de tal solução, adoptada por muitas famílias durante décadas, está à altura da sua generalização.

 

O grupo cívico Vizinhos do Areeiro vem agora propor à Câmara Municipal de Lisboa (CML) a escolha da freguesia como território para a aplicação de um projecto-piloto visando alterar este cenário. O mesmo, a ser aceite, passaria pela aplicação de um plano de sensibilização dos senhorios, mas também de financiamento da desmontagem das estruturas ilegais.

 

A proposta do colectivo de residentes passa por estabelecer uma ponte de diálogo com os donos das casas, encontrando uma alternativa à punição legal por violação do projecto de arquitectura original – que, de qualquer forma, não é aplicada tanto pela Câmara de Lisboa, como pelas outras edilidades.

 

O primeiro passo, de acordo com a proposta, seria o “levantamento de todas as marquises e varandas fechadas que colidam com o projecto autorizado”. Fase a que se seguiria o contacto com os proprietários das marquises, alertando-os para a questão, ao mesmo tempo que se lhes indicam alternativas para os seus problemas de isolamento térmico e sonoro. O terceiro passo seria “criar, com os proprietários, um plano de remoção de marquises”.

 

É a partir desse ponto que, advoga o movimento, a autarquia da capital poderia ter um papel determinante. O mesmo seria assumido, defendem, não pela aplicação de uma política punitiva – com a aplicação das coimas previstas -, mas “através da criação de mecanismos de remoção voluntária de marquises para os residentes que comprovem não terem condições económicas para financiarem essa remoção”.

 

 

Nesses casos, a CML poderia “disponibilizar, a custos de aquisição, soluções de isolamento térmico e sonoro de janelas” adquiridas em grande quantidades (com economia de escala) pela câmara e revendidas, a preço de custo, a estes munícipes. O que, em simultâneo, permitiria “realizar, sem custos, a desmontagem destas instalações”.

 

Por último, o grupo Vizinhos do Areeiro defende ainda que, “em casos extremos, de manifesta insuficiência económica”, a Câmara Municipal de Lisboa deveria “financiar na íntegra essa remoção e a instalação de um isolamento térmico e sonoro nas janelas que ficam expostas com a remoção dessa marquise”.

 

“A situação actual é de caos, de Norte a Sul do país, fazendo com que muitas áreas das nossas cidades, Lisboa incluída, se assemelhem a cidades do terceiro mundo”, diz ao Corvo Rui Martins, um dos fundadores do movimento Vizinhos do Areeiro, lamentando que um número muito grande de fachadas de prédios “esteja estragado, resultado da inércia de fiscalização por parte das autarquias, durante décadas”.

 

Algo que o membro deste colectivo atribui a uma “falta de vontade política, tal como acontece com a persistência dos cabos nas fachadas dos edifícios”, outro problema perene nas cidades portuguesas, com particular incidência em Lisboa. “Se no caso dos cabos, as câmaras não querem enfrentar os operadores de comunicações, no caso das marquises, têm medo da impopularidade de uma acção de fiscalização e punição”, diz.

 

Confrontado por O Corvo com o facto de, mais do que as questões térmicas e acústicas, ter sido a falta de espaço no seu apartamento a levar a esmagadora maioria das famílias a cobrirem as suas varandas, Rui Martins admite o facto. “É verdade, é um problema real. Mas um T1 não se transforma num T2, porque se fechou a varanda. Continua a ser um T1, mas com uma marquise”, afirma.

 

Texto: Samuel Alemão           Fotografias: Paula Ferreira

 

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45 Responses to Grupo de cidadãos pede à Câmara de Lisboa para acabar com as marquises

  1. No meu prédio, com 6 andares, existiam umas 3 varandas fechadas. Quando pintámos e reparámos o exterior do prédio, essas pessoas aceitaram tirar as marquises para que a estética ganhasse. A educação e a cultura fazem milagres 🙂

    • Que comentário idiota, irritante e elitista,então quem tem marquise não tem Cultura? Preocupem-se em formar arquitetos pois vê-se com cada aberração urbanística!

    • Não, quem coloca marquises não tem cultura nem bom senso.

    • Não foi isso que eu disse. Até porque as mesmas pessoas tinham marquises antes. Mas, numa remodelação do prēdio, sacrificaram essa marquise em função da estética e da qualidade urbanistica. O que denota educação e cultura. Escusa de se abespinhar, porque ninguém o visou.

  2. Acabar, para o futuro, é possível. Retroactivamente é impossível.

  3. Para não se ter marquises os apartamentos teriam de ter sido pensados de forma a melhor comportar máquinas/electrodomésticos, roupa suja, onde secar roupa, etc. O lado estético e urbanístico é importante para mim mas ao mesmo tempo sou uma pessoa que preza a praticabilidade no dia a dia. (sem falar nas arcas congeladoras que a maioria dos apartamentos é, situação que também fica melhorada usando a, admito feia, marquise)

    • Por outras palavras, vivemos no terceiro mundo.

    • Mario 🙂 não iria tão longe não. Acho que temos muito mesmo pelo qual devemos ser gratos, neste pequeno pormenor acho que a maioria dos apartamentos/prédios pelas cidades cá foram/alguns ainda são feitos sem pensar muito nessas tarefas de dia-a-dia e também feitos a pensar que é Primavera e Verão o ano inteiro. Queria mesmo que não existissem marquises, mas para isso tem de haver soluções/alternativas para as pessoas (analogia: queria mesmo que não houvesse carros estacionados em todo o lado e todas as ruas, também mata o urbanismo da cidade, mas como não há alternativas — prédios com estacionamento, silos de estacionamento, etc — não dá para agora achar que deviamos tirar estacionamento de rua A, B ou C).

    • Mariana Mi Mariana Mi diz:

      Desculpe lá, mas conheço bastantes pessoas que vivem em apartamentos pequenos e que não fecharam varandas para colocar electrodomésticos.
      E as que têm fazem da marquise arrecadações de lixo que acumulam. Tanto que há casas grandes com espaço para tudo, mas em que os moradores fecharam as varandas.

      As pessoas têm é de ser organizadas e aprender a viver no espaço que têm.

    • Mariana Mi ’tá desculpada.

    • Fechar varandas é ilegal. Como tal a câmara deveria notificar todos os proprietários a repor de acordo com o licenciado.

      As marquises sai uma ocupação de um espaço exterior não considerado como área útil nem na permilagem. Além de ocupadas ilegalmente, são as razões das condenações que tantos proprietários se queixam, acusando o condomínio de infiltrações ou o construtor de na execução

  4. Até o ex-Presidente da República tem uma, por isso esta parece-me uma missão impossível, infelizmente. Lisboa é mais Luanda que Paris.

    • racdoso.s diz:

      Paris? mas alguéem quer que Lisboa seja como essa cidade cinzenta?
      As marquises foram feitas para passar a roupa a ferro. LOL

  5. Com a situação que se vive em Lisboa, presentemente, rendas obscenas e expulsão dos moradores para transformar os edifícios em apartamentos de luxo, para os mais abastados, maioritariamente estrangeiros (que depois arrendam por preços absurdos) acho que esta “preocupação” estética apenas demonstra insensibilidade para com a outra situação muito mais preocupante.

  6. Sugiro a esse grupo de cidadãos que se ocupem de coisas realmente importantes para a cidade. Não há pachorra.

    • Não há pachorra para esse discurso de “há outras prioridades”, como se não fosse possível tratar de vários assuntos ao mesmo tempo. E sim, a questão das marquises é uma questão importante. O aspecto terceiro-mundista da cidade é uma questão importantíssima até.

    • João Fernandes diz:

      Não quero ser injusto mas será que o Vitor ocupa-se de alguma coisa importante ou menos importante para a cidade ? Se sim peço desculpa pela injustiça mas independentemente da importância … acha que as marquises são um aspecto positivo da nossa cidade? Se todos tomarmos iniciativa relativamente ao que achamos que está mal a cidade ganha … este grupo de cidadãos está a fazê-lo. Se tem algo em particular que acha que necessita de acção, caso não o esteja a fazer, sugiro que faça …. caso já o faça, desejo-lhe sorte pois todos temos a ganhar enquanto Lisboetas … tal como temos a ganhar com a iniciativa deste conjunto de cidadãos.

  7. Madalena C. diz:

    Marquises fora já, aliás porque são todas ilegais

  8. Marquises, caixotes de ar condicionado e outras excrescências
    ANTÓNIO SÉRGIO ROSA DE CARVALHO
    PÚBLICO / 06/09/2009 – 00:00
    https://www.publico.pt/local-lisboa/jornal/marquises-caixotes-de-ar-condicionado-e-outras-excrescencias-17734760

    O tema das marquises e da forma como estas excrescências têm invadido, como verrugas, a pele dos nossos edifícios, tem sido motivo de desespero para todos aqueles preocupados com o património de Lisboa.
    Com efeito, a varanda, espaço-plataforma que devia garantir o nosso contacto natural com os elementos; que devia ser terraço, jardim suspenso, espaço de lazer e transição térmica natural num clima com as nossas caracteristicas, foi transformada através da marquise, irracionalmente, em estufa asfixiante e excrescência desfiguradora.
    O desespero vem do sentimento que este fenómeno, tão terceiro-mundista, parece constituir uma fatalidade irreversivel e incontrolável, tal como os carros em cima dos passeios ou os “cachos” de caixotes de ar condicionado que invadiram tudo quanto é fachada.
    Tomámos conhecimento através do PÚBLICO, que alguém tomou a iniciativa louvável de desencadear uma campanha sensibilizadora, tendo como objectivo, se não acabar, pelo menos inverter progressivamente esta calamidade. Este texto tem como objectivo contribuir através de uma proposta concreta, “de facto” para o sucesso progressivo desta campanha. A única forma efectiva de desenvolver um exemplo estimulante e pedagógico, capaz de mudar mentalidades e estabelecer disciplina, é conseguir uma situação de conjunto, onde num conjunto arquitectónico significativo, a situação seja invertida e o desastre e o atentado sejam corrigidos.
    Na história do urbanismo português, a Baixa pombalina e o bairro de Alvalade constituem dois exemplos paradigmáticos.
    No entanto, além da diferença fundamental de discursos determinada pelas diferentes épocas, eles só são comparáveis não só na escala gigantesca dos projectos urbanisticos, mas também pelo facto de que foram executados na íntegra. Fora disso, enquanto um, o da Baixa, nasce da urgência de reconstrução do centro depois do cataclismo, e é portanto sistemático tanto na linguagem arquitectónica unificada e única, como nos métodos de produção, o outro apresenta características diferentes.
    O bairro de Alvalade é planeado por Faria da Costa, e conhece o início da sua execução coerente, na década do apogeu do Estado Novo, ou seja os anos 40. Ele é desenvolvido, em diversas fases e células, numa dialéctica simbiótica de diversas inspirações e modelos internacionais, e da “receita-síntese” tradicionalismo-modernismo.
    Dentro dele, o bairro das Estacas (1949) surge como uma peça única para a época, de pura influência CIAM – Carta de Atenas (1933) e de linguagem corbusiana, com todos os seus elementos de morfologia e detalhes arquitectónicos (pilotis, brise-soleils, etc). O estado de conservação e de alienação deste notável conjunto é lastimável.
    Ainda por cima, quando sabemos que o Icomosdispõe de um departamento dedicado aos monumentos do modernismo, o Docomomo, com trabalho internacional de restauro, ou mesmo de reconstruções integrais, de grande prestígio (Openlucht School Amsterdam, Zonnenstraal Sanatorium Hilversum, Café de Unie Roterdam, Pavilhão de Barcelona, etc., etc.,)
    Não teríamos aqui uma oportunidade de classificação de conjunto urbano, de restauro integral e de limpeza de todas as excrescências como marquises, caixotes de ar condicionado e cabos pendurados? Esta mensagem é dirigida à CML, ao Ministério da Cultura e acima de tudo ao Igespar, lembrando esta última instituição de que a forma de como “arrumou” o caso da Classificação do Bairro Social do Arco Cego, é simplesmente inaceitável!
    Historiador de Arquitectura

  9. As fotografias são se Campo de Ourique ou de Alvalade.

  10. Gosto da ideia. Penso é que há outras prioridades mais importantes, tais como os bairros degradados naquela zona da cidade…ex: Olaias, Bairro do Alto do Pina . As marquises são um dos sinais da irresponsabilidade das autarquias a nível nacional, com a conivência das comissões de moradores e administrações de Condomínios . Quando este fenómeno se propagou desordenadamente por todo o país, as autarquias fecharam os olhos alegando falta de legislação.
    Foi o grande boom do alumínio (não laçado) em Portugal .( 1975-1990)

  11. …e se acabassem antes com os milhões de kilometros de cabo preto das televisões ? Ou isso já vos estorva ?

    • João Fernandes diz:

      Não vejo que uma coisa impeça a outra. Acho que se está tão incomodado com os km’s de cabo, podia talvez tomar uma iniciativa parecida, eu estou sempre disponível para participar em acções do género. Se cada um de nós agir ou tentar agir sobre as coisas que nos incomodam em vez de criticar ou dizer que “não é importante” a cidade ficava bem melhor. Este conjunto de cidadãos está a fazer a sua parte, eu também tenho feito a minha, acho que poderá fazer a sua também.

  12. Pasmo com a estupidez de tanta gente

  13. eu gosto da minha marquise…..estetica ? epa ah coisinhas tao mais importantes…..

  14. Luís Leite diz:

    O problema é cultural e prende-se com o individualismo dos portugueses.
    Esta ideia, naturalmente bem intencionada, não tem qualquer hipótese de ser bem sucedida.

  15. as marquises são uma aberração

  16. Ricardo Ferreira diz:

    Isto é tudo muito bonito!! E quem comprou as casas já com as belas das marquises?! O que faz? Vai ser obrigado a retira-las ? Ou a licenciá-las? Acho demais!! Acho bem que essa regulamentação seja feita sim mas sem efeitos retroativos !! Isto é fazer o levantamento das existentes e não se permitirem mais sem a licença!!

  17. José diz:

    É UMA VERGONHA O NOSSO PAIS, é só marquises.
    Compram as casas e não aproveitam as varandas, fecham logo para arrumar mais umas coisinhas.

  18. José diz:

    A CULPA TAMBEM É DOS ARQUITECTOS, DESENHAM PREDIOS COM VARANDAS.

  19. Paulo Branco diz:

    Prioridade para a reposição das fachadas dos edifícios classificados e com valor arquitectónico e obrigatoriedade para a sua manutenção.

  20. jorge ferreira diz:

    Tem que se começar algum dia… retirem-se as marquises… já!!!

  21. Realmente a estética cada vez menos é respeitada. Como morador, proprietário de apartamento em bairro de Lisboa bem no centro, e como administrador de condomínio, tb não gosto nada de ver fazer circos nos prédios, principalmente os de traça antiga que acabam por ficar muito feios. Defendo a originalidade. Defendo que se mantenha tudo como era… a solução sei que por vezes não e fácil devido às máquinas de lavar e outras semelhantes terem de ser colocadas em “exteriores” por causa das tábuas corridas de chão e tabicas, abanarem muito. No meu prédio felizmente temos varandas nas traseiras em betao e foi lá que essas maquinarias foram com o tempo colocadas. Varandas estas que foram construídas num projecto qualquer da recria quando eu ainda nem era morador… há muitos anos… é complicado, sim, mas realmente matar a estética vai dar nascimento a um inúmero inventar de barbaridades… o que é pena.

  22. Joaquim Santos diz:

    E então as cortinas de vidro? Essas são legais?!