Futuro negro para as palmeiras de Lisboa

por • 4 Março, 2013 • Actualidade, SlideshowComentários fechados em Futuro negro para as palmeiras de Lisboa3107

Mais de seiscentas palmeiras de Lisboa estão a ser tratadas contra a praga de um escaravelho exótico que promete fazer muitos estragos. Foram já abatidas mais de 150  pela Câmara de Lisboa. A maioria dos casos ocorre em jardins particulares.

Texto: Francisco Neves * Ilustração: Sofia Morais

Se o Estado continuar a não fazer nada e se os municípios à volta de Lisboa não cooperarem, o ataque do escaravelho vermelho às palmeiras da capital terá proporções devastadoras. Das cerca de 3000 que crescem em espaço público poderão não sobrar mais que 300.

“O Estado tem que intervir porque o combate à praga é da sua competência”, avisa José Sá Fernandes, vereador dos Espaços Verdes da Câmara Municipal de Lisboa, cidade onde se contabilizavam em Fevereiro 642 árvores afectadas.

O vereador contactou o então secretário de Estado das Florestas e Desenvolvimento Rural, Daniel Campelo, pedindo uma intervenção urgente, mas o homem do queijo limiano, “embora prometesse que ia ver, manifestou-se mais preocupado com o combate a outras pragas que afectam espécies agrícolas – o pinheiro, o sobreiro e o trigo”. O carácter ornamental da árvore esbelta que pontua Lisboa está a prejudicá-la.

“Só o governo é que tem competência legal para intervir sobre árvores doentes de jardins privados, e são muitas, ou em recintos de instituições do Estado. E, que eu saiba, ainda não arrancaram nenhuma”, comentou. A Câmara intervém, basicamente, no espaço público.

Os últimos números mostram que, daquele total de árvores afectadas, 326 (das quais 73 já foram abatidas) se encontram em jardins privados, contra 159 (80 abatidas) em espaços públicos. A Câmara tem, aliás, ajudado alguns privados a abater palmeiras infectadas. “Informamos sistematicamente o Ministério da Agricultura de todos os casos detectados em jardins particulares”, sublinhou o vereador. Sá Fernandes acrescentou que a CML tem colaborado também com o Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, na Rua da Escola Politécnica. “Pensamos que o problema aqui está controlado” .

O Ministério da Agricultura diz não ter meios para intervir junto dos particulares e sugeriu às câmaras que definam um mínimo de árvores a proteger na sua área. Lisboa compromete-se a defender 300, entre as quais estão as da Av. da Liberdade e do Jardim da Estrela onde um olhar atento descobrirá, descendo dos seus troncos, as longas tubagens para o remédio protector.

Também a tentativa de envolver os municípios vizinhos de Lisboa numa actuação coordenada pouco promete. Fez-se um seminário para promover o recenseamento dos casos e um combate conjunto “mas sem grande resposta”, lamenta o vereador.  Setúbal é um dos concelhos bastante afectados, mas o escravelho anda também por Oeiras e Cascais.

Uma árvore devorada pelo “Rhynchophorus ferrugineus” tem que ser imediatamente abatida, removida do local (para os bichos não voarem para outras palmeiras) e incinerada. Como o resistente escaravelho vermelho tem uma grande mobilidade, conseguindo voar quase dez quilómetros, não faz sentido estar a proteger – com químicos e armadilhas – palmeiras que tenham perto outras cujos donos não as tratam.

“Quaisquer programas contra esta praga só funcionarão se forem actuações globais. E mesmo assim não poderemos salvar todas as palmeiras”, diz Carlos Gabirro, responsável de uma empresa especializada que tem participado na campanha contra o escravelho. Segundo ele, a preservação deapenas 300 palmeiras “não é suficiente”.

“A palmeira não é uma árvore de Lisboa, é um símbolo plantado sobretudo em quintais. Trezentas estão já protegidas, mas isto pode ser imparável. Agora, não iremos plantar palmeirais por Lisboa”, afirma Sá Fernandes.

“A situação é muito difícil de controlar”, corrobora Gabirro. A chegada do escaravelho a uma árvore – tem preferido as palmeira-das-canárias mas também se alimenta de outros tipos desta planta tropical – é difícil de detectar. Quando a palmeira dá sinais de não estar bem, ficando com a sua coroa semelhante a um chapéu de chuva e depois perdendo as folhas, é porque as larvas já a devoraram por dentro.

Queimá-la é o único remédio.  “Uma palmeira afectada chega a ter novecentos a mil indivíduos prontos a voar para outras árvores”, diz o técnico. Em Lisboa, refere, tem havido “uma propagação surpreendentemente mais rápida que o costume, devido a factores climáticos”. Nas árvores em pior estado registam-se dois a três ciclos anuais de vida entre os escaravelhos e em cada um deles uma fêmea põe duzentos a trezentos ovos. Quer dizer “agora temos duas a três pragas anuais”. O escaravelho ataca sobretudo as árvores mais altas, que são as mais antigas.

Para além disso o tratamento das palmeiras é caro e demorado, chegando a rondar os 500 euros anuais por unidade. O abate pode custar mais do dobro. Uma palmeira afectada e não tratada morre em cerca de dois anos.

Por agora, com o tempo frio, os bichos escudam-se no interior das palmeiras. Devorando-as, reproduzindo-se  e esperando, descreve Carlos Gabirro. “Ele só voa com temperaturas altas. No Verão é quando o insecto atinge o seu pico máximo, é então que ele sai da palmeira e retoma a contaminação. Esta é a altura mais perigosa. O perigo reside também no facto de no Verão ninguém ligar ao que se passa. Nessa altura o escaravelho está activo e os proprietários das palmeiras no descanso…. Vemos isso nos pedidos de intervenção que nos chegam”, diz.

Em Lisboa o ataque do ferrugineus começou nas imediações do aeroporto/S. João de Brito  e hoje  incide sobretudo no eixo central da cidade: até agora houve 127 ocorrências na chamada zona centro (Campo Grande, Anjos, N.S. Fátima, Campolide) e 188 no centro histórico (Baixa, Campo de Ourique, Lapa).

O escaravelho, oriundo da Indonésia, tem devastado a Europa mediterrânica, nomeadamente o sul da França e a Andaluzia espanhola. Terá chegado a Portugal em 2005 e foi primeiro detectado num campo de golfe do Algarve. Desde então tem subido para Norte fazendo estragos em zonas como Sines, Alcácer do Sal, Coruche, Coimbra, Espinho e Vila Nova de Gaia.

Palmeira entubada

A guia plástica que desce da árvore é sinal que está a ser tratada.

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