Surgiu em 1904, por decreto real de D. Carlos I, e propunha-se produzir e distribuir pão a preços acessíveis no bairro de Campo de Ourique. Cresceu com pendor popular e de acção política. Com mais de cem anos, a cooperativa Padaria do Povo tornou-se um local “cool”, onde se vem jantar ou, simplesmente, apreciar a fachada Art Déco. Agora, um grupo de novos cooperantes criou a Fermento, associação sem fins lucrativos com o objectivo de alargar a oferta cultural.

 

 

Texto: Rui Lagartinho              Fotografias: Paula Ferreira

 

 

Bem vindos todos ao salão de festas!

 

Soalho de madeira. Um pequeno palco no topo. Dezenas de cadeiras. Portas de vidro, janelões por onde entra a luz de Campo de Ourique. O filme “O baile”, de Ettore Scola, poderia ter sido filmado aqui. É a sala de visitas da cooperativa Padaria do Povo.

 

Como memória, na parede – em vez dos habituais senhores de bigode, imagem de marca dos presidentes de instituições centenárias, como esta – apenas está uma placa a relembrar que aqui funcionou, entre as décadas de vinte e quarenta do século passado, a Universidade Popular, dinamizada pelo matemático, professor universitário, resistente antifascista e militante comunista Bento de Jesus Caraça. Em termos de referência cívica e de cidadania, quem hoje aqui programa e cria orgulha-se desta herança.

 

A Fermento, que este mês inicia actividades, nasceu para fazer levedar a Padaria do Povo. Junta um grupo de quatro cooperantes, com idades entre os trinta e os quarenta anos, vindos das áreas da educação artística e da comunicação. Pretendem trazer uma nova dinâmica cultural à Padaria do Povo. E discutir temas apelativos, incluindo nas áreas do auto-conhecimento.

 

 

As conferências e os debates são a grande aposta destes primeiros dois meses. Fevereiro é dedicado ao tema Namorar. Em Março, estará em discussão a possibilidade de sermos felizes. “Formação, fruição e reflexão. É isto que pretendemos com cada conferência a agendar”, explica-nos Marta Fresco.

 

A agenda da Fermento propõe, ainda em Fevereiro, a conferência da psicóloga Ana Cardoso Oliveira, com o tema “O ciúme é verde.” Em Março, no dia 17, ouvir-se-á jazz de fusão, com o Hélix Trio. Nesse mesmo mês, acontecerão também as primeira aulas abertas dos ciclos “(Per)Curso de teatro” e “Ser Feliz todos os dias.

 

Estas actividades serão pagas. “É uma forma de valorizar a importância do evento, aos olhos de quem se inscreve, responsabilizando os participantes”, acrescenta Marta Fresco.

 

 

Para além da sua própria programação, a Fermento aceita ideias de actividades e a articulação com outras associações que aqui já desenvolveram actividades, como a CampOvivo, dinamizada por um grupo de moradores do bairro de Campo de Ourique.

 

 

“Quisemos centralizar, para depois descentralizar”, confessa-nos José Zaluar, o presidente da direcção da Padaria do Povo, visivelmente orgulhoso desta nova parceria. “Queremos estruturar as propostas que recebemos, dado que este é um espaço muito apetecível. Alargar o público. Esperemos que esta aproximação ajude a crescer vários pães. E, apesar de eu não ser maoista, não me importaria que aqui nascessem mil flores”, diz.

 

Duas gerações juntam-se para dar uma nova vida a um local emblemático de Campo de Ourique e da cidade de Lisboa.

 

 

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