Fazer pela vida em Lisboa

por • 12 Março, 2013 • ReportagemComentários fechados em Fazer pela vida em Lisboa769

Uma banda de funk algarvia – que, na verdade, se divide em duas – e os seus amigos decidiram partir em conjunto para Lisboa. Em busca de uma vida melhor. Cerca de dezena e meia de jovens, na casa dos vintes, deixaram para trás Portimão e rumaram à capital. Cheios de esperança. Apesar da crise e da depressão generalizada.

 Texto: Samuel Alemão * Fotografia: Max Klein * Vídeo: Sandra Isabel Oliveira

 

Uma melodia gravada num pequeno teclado eléctrico pode modificar-nos a vida. Uma simples melodia. A que Edgar Valente, 20 anos, ouvia com insistência na infância estava memorizada, entre um conjunto de outras, no instrumento que os pais lhe ofereceram, quando tinha seis anos. Longe de saber que “Superstition” de Stevie Wonder lhe moldaria parte do percurso, deixou-se infectar pelo groove, sem consciência da distância mental que um oceano impunha entre a Nova Iorque de 1972, onde o tema foi gravado, e a Portimão onde vivia. Um dia, pela adolescência, ao ouvi-lo numa das suas actuações algarvias, alguém disse da sua música que “tinha uma grande ligação ao funk”. “Eu nem sabia o que isso era, tive que ir pesquisar. E depois lembrei-me dessa melodia, que estava no teclado”, recorda agora, sentado na marquise das traseiras do apartamento, no bairro dos Anjos, que partilha com outros quatro amigos portimonenses.

 

Juntamente com eles, alguns também parte das bandas Compotas e Freakybeat nas quais ele participa como teclista e cantor, e outros companheiros, decidiu abandonar o maior núcleo urbano do Barlavento algarvio. E rumar à capital do país. Um grupo de jovens, que segundo as contas feitas pelos próprios “andará por volta das 15 pessoas ou mais”, partiu em bloco daquela cidade, no final do verão passado, em busca de melhor sorte em Lisboa. Trabalhar, estudar, qualquer coisa que os tirasse de um cenário de estagnação. A situação económica degradada e o desemprego – sobretudo, entre os mais novos – são moeda corrente no país, sem lugar a excepções. Mas o Algarve, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) referentes ao terceiro trimestre de 2012, até é ultrapassado em 3% pela região de Lisboa e Vale do Tejo no que se refere a população sem trabalho. A taxa de desemprego jovem, porém, era ali das mais altas a nível nacional, a rondar os 37%.

 

“Estava na altura de dar o salto. Não estava a acontecer muita coisa, lá em baixo”, diz Rui Andrade, 22, sentado à mesma mesa, de frente para Edgar, enquanto termina o almoço. “Em Portimão, no Inverno, o pessoal costuma arranjar trabalho em lojas ou nos supermercados, ou então espera pelo Verão”, afirma o estudante de técnicas de som, antes de explicar que até esses trabalhos começam agora a escassear. O turismo, principal motor da economia algarvia, tem sentido fortemente os efeitos da crise e a consequente diminuição do poder de compra, tanto dos portugueses como de muitos estrangeiros – em especial os irlandeses. “Os próprios turistas estão a mudar os seus comportamentos e, agora, já vão comprar comida ao supermercado, em vez de ir ao restaurante”, conta Tiago Vicente (22), percussionista dos Compotas e dos Freakybeat. A primeira banda dedica-se à interpretação de versões de canções do grande cancioneiro pop afro-americano, tal como o conhecemos através das suas declinações funk, soul, r&b e rock. A segunda banda corresponderá a um compromisso estético mais arrojado.

 

Os Freakybeat pegam nas raízes musicais evidentes no som dos Compotas e transmutam-nas através de uma leitura contemporânea, dominada pela electrónica e que se poderá considerar mais abstracta e experimentalista. “Esperamos que o nosso disco venha a ser bombástico”, lança Edgar, com entusiasmo, mas como quem diz a coisa mais natural do mundo. As horas passadas, no quarto, frente ao computador e ao teclado a experimentar soluções sonoras ou, numa sala de ensaios, a tocar, dão-lhe essa confiança. Espera ver o álbum publicado ainda este ano. Enquanto isso não sucede, dedica o tempo que lhe sobra ao estudo de artes performativas, na associação cultural SOU – Movimento e Arte, situada a pouco metros da casa que partilha com os amigos. Estudar e progredir, alargar horizontes num ambiente cultural e social mais diversificado, para além de trabalhar, são as grande motivações da generalidade para terem encetado a jornada lisboeta. Aumentaram também as responsabilidades.

 

Longe parecem agora os tempos em que, nos tépidos dias do estio de 2010, germinaram os Freakybeat. Tiago Vicente, que também planeia estudar artes do espectáculo, lembra um dia em que estava a tocar djambé, na Praia Grande, em Ferragudo, nos arredores de Portimão. “O gerente do bar Club Nau veio ter comigo e perguntou se eu tinha uma banda, para poder tocar lá. Disse que sim”, recorda, sorridente. Nascia um projecto musical assente na paixão de um grupo de amigos pela música negra norte-americana e que, em pouco tempo, se solidificou. As noites de terça-feira, sob a sua alçada, ganharam fama. “Tornou-se o melhor dia da semana”, garantem. O guitarrista, João Aguiar, 23, diz que o facto de se conhecerem muito bem musicalmente, e como amigos, é muito bom e ajuda-os na ambição que têm. João, que está à espera de entrar para um curso na Escola Técnica de Imagem e Comunicação (ETIC), agradece hoje à excelência da colecção de discos e cassetes dos anos 70 que os pais tinham em casa.

 

Ei-los agora, um grupo de amigos que ainda há poucos meses trocavam entre si confidências, influências musicais e aspirações, por entre as ruas de uma urbe situada numa língua de território, o Algarve, em que o mar oceânico se encontra com o mar de betão. À volta da mesa, na marquise dos bairro dos Anjos, recordam como aqui vieram parar. Lá fora, cai uma chuva miudinha. Paulo Lourenço, o baixista e o mais velho do grupo, com 27 anos, quatro dos quais passados em Cardiff a estudar música, está de costas voltadas para esse quadro cinzento. Ele, que vive das aulas de música que dá a crianças, sintetiza: “Com esta estória da crise, há muita gente que arrisca e se lança de cabeça”. O apelo de uma cidade maior impôs-se. A seu lado, Tiago Vicente está consciente de que este é um caminho que poderá ser de sentido único. E garante: “Aqui há tudo o que precisamos”. Os outros assentem com a cabeça. Apesar de todos reconhecerem a falta que lhes faz ver o mar a partir da costa algarvia. [vimeo id=”60175625″]

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