Exposição fotográfica resgata a “alma” de Alfama, contra “expulsão dos moradores”

por • 8 Dezembro, 2017 • Actualidade, Alfama, BAIRROS, CULTURA, Santa Maria Maior, Slideshow, URBANISMO, VIDA NA CIDADEComentários (7)2555

Os retratos impressos em pedra da fotógrafa inglesa Camilla Watson são já bem conhecidos de quem frequenta as ruas e becos de Alfama e da Mouraria. São dela as caras dos velhos moradores deste dois arquetípicos bairros de uma certa imagem de Lisboa. Há uma década a viver na capital portuguesa, a britânica conseguiu cunhar um estilo pessoal reconhecível e ao mesmo tempo alcançar uma aceitação quase geral por parte da comunidade onde se integra.

 

Tanto que o seu trabalho “Alma de Alfama”, cuja primeira versão foi revelada em setembro de 2016, através de uma parceria com a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, regressa agora numa segunda série de retratos dos seus moradores mais antigos, patentes numa nova exposição a céu aberto nas paredes daquele bairro, inaugurada na tarde desta quinta-feira (7 de dezembro). O percurso urbano pelas imagens tem início no Largo Chafariz de Dentro, junto ao Museu do Fado.

 

A mostra, patrocinada por uma junta de freguesia cujo executivo é do mesmo partido que o que tutela a Câmara Municipal de Lisboa (CML), assume-se como um protesto contra a gentrificação. É a própria autarquia liderada por Miguel Coelho (PS) quem o assume em comunicado, recordando a notoriedade da exposição realizada no ano passado, já sob a sua tutela, e na qual era possível observar “retratos de algumas das pessoas mais carismáticas que ali viveram e que tanto contribuíram para o bairro que hoje conhecemos”.

 

 

O texto distribuído pela autarquia expressa essa vontade em “homenagear mais duas dezenas de residentes históricos do bairro, que ali se mantêm, contrariando a tendência de ‘expulsão’ de residentes a que se tem assistido e contribuindo para que Alfama se mantenha autêntica, genuína, aquilo que sempre foi”.

 

Em declaração a O Corvo, Miguel Coelho salienta que a insistência na exposição se justifica porque a mostra do ano passado “não foi suficiente para prestar a devida homenagem às gentes que habitam Alfama”. “Ainda por cima, neste momento em que os nossos bairros estão a ser assaltados em nome do investimento no alojamento local, assaltados das pessoas que os habitam, faz cada vez mais sentido homenagear essas pessoas, que aqui persistem e mantêm as suas características”, diz o autarca.

 

 

 

Miguel Coelho salienta ainda que outro dos objectivos da iniciativa é “alertar para o grande problema da má exploração desta actividade, que tem vantagens e efeitos positivos, mas que pode ser nefasta”. O presidente da Junta de Maria Maior, onde se incluem bairros como Alfama, Mouraria, Castelo e Baixa, tem feito com insistência alertas relacionados com os excessos do turismo e da pressão imobiliária.

 

Também Camilla Watson explica a O Corvo que repetir este projecto é, além de um prazer pessoal muito grande, uma forma de poder “guardar na memória de todos que estas pessoas viveram em Alfama”. “Nesta altura que Alfama, e também a Mouraria, sofrem tantas mudanças, é muito importante fazer iniciativas que lembrem quem mora aqui e contribui diariamente para a alma do centro da cidade”, afirma.

 

Texto: Samuel Alemão

 

Pin It

Textos Relacionados

7 Responses to Exposição fotográfica resgata a “alma” de Alfama, contra “expulsão dos moradores”

  1. Rui Paiva diz:

    Criticar o alojamento local já me parece demasido populista e sem sentido construtivo.
    Tive um alojamento local na Mouraria que empregava um trabalhador local a full time, fazia trocas comerciais com a lavandaria da zona, lojas várias, restaurantes, técnicos de manutenção, etc…
    Antes de comprar o apartamento, este tinha estado desocupado e a degradar-se durante 14 anos. Formei o condominio do predio, liderei o arranjo do telhado, pintura da fachada e arranjos extruturais e garanto que nada disto teria sido possivel sem o apoio financeiro e o tempo dedicado ao AL.
    Neste momento por motivos vários, onde se inclui o ataque de impostos e o enquandramento legal em perigo do AL, decidi vender o apartamento, e este passou para o mercado imobiliário, em que uma familia portuguesa oferece 200 mil euros pelo mesmo e um investidor estrangeiro oferece 300 mil euros.
    O apartamento em principio irá para um senhor Inglês que virá passar 4 meses por ano no mesmo e o alugará o resto do tempo através de publicidade feita em Inglaterra.
    Iremos perder todos impostos, eu e a minha família rendimentos a médio longo prazo, o funcionário o desemprego, o comércio local irá ter de se adaptar.

      • João Fernandes diz:

        Só algumas observações soltas em relação ao texto da petição:

        1. Não percebo tanto medo da questão da aprovação do condomínio, está a assumir-se erradamente à partida que todos os condomínios vão recusar AL no seu prédio. No caso particular do meu prédio em zona central de Lisboa ninguém recusaria a actividade a outro condómino. Depende sempre da boa relação de vizinhança entre moradores. O que é facto é que os moradores não têm poder para agir no caso do coexistência não pacífica com os hospedes e/ou com proprietários de AL que estão a agir de má fé. Da mesma maneira que há bons exemplos, conheço bastantes casos de coexistências problemáticas.

        2. Concordo que uma lei única para todo o território não vai considerar as especificidades e necessidades de vários locais.

        3. Falando especificamente de Lisboa, nada contra a actividade do AL mas estamos claramente num pico de actividade. Há muita gente sem qualquer competência ou capacidade empresarial/comercial e entrar neste ramo e assiste-se a uma potencial hiperespecialização da actividade económica de modo a que uma quebra no fluxo turístico poderá trazer consequências negativas. Concordo que haja alguma regulação do AL e deveria haver também políticas locais para tentar diversificar a actividade económica.

        5. Falar em “raras situações de pressão”, pelo menos para Lisboa, é assobiar para o lado e querer mostrar um retrato dourado que não existe. Sejam um pouco mais sérios. Concordo com algumas partes do que defendem mas não podem ignorar nem tentar mistificar as consequências negativas do fenómeno.

        • Paulo Matos diz:

          1. Todos os condomínios não, mas mesmo que fossem 20% ou 30%, será justo uns poderem exercer a actividade de AL e outros não, com base em temperamentos e critérios muitas vezes subjectivos dos outros condóminos?

          2. e 3. Políticas locais com base em critérios locais só tem dado confusão neste país. Definam-se critérios como deve ser, não arbitrários e diferentes em cada autarquia.

          5. Acusar-nos de falta de seriedade, quando os factos e números são indesmentíveis e nos dão razão, foi um comentário infeliz seu. Ninguém ignora as consequências negativas, mas exagerá-las e associá-las apenas ao AL é que tem sido uma mentira desatada.

  2. Ana GONÇALVES diz:

    É vergonhoso o que estão a fazer à identidade dos bairros e das pessoas em nome do dinheiro fácil.
    Prédios de moradores não deviam servir para AL. Comprem prédios devolutos e façam deles o negócio do AL.
    O Fisco que seja pesado com esta gente.

    • Paulo Matos diz:

      60% dos imóveis em Alojamento Local de Lisboa estavam antes desocupados, quer mais ainda? Porque carga de água o fisco tem que ser pesado se o AL até já paga mais impostos que outras actividades do mesmo género, tipo hotéis? E que história é essa do dinheiro fácil quando muitas familias não conseguem arranjar outro emprego que não o AL, não têm outra forma de sustento e, muitas vezes, isso nem sequer é suficiente? Os bairros e as pessoas devem ser protegidas, mas não é à custa das outras pessoas.

  3. Ana GONÇALVES diz:

    Parabéns e gratidão a Camilla Watson pela exposição.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *