Documentário sobre o Capitólio pronto desde 2010, mas ainda ninguém o viu

por • 5 Dezembro, 2014 • Actualidade, SlideshowComentários (1)1743

Tal como as obras de reabilitação do Teatro Capitólio, também o documentário sobre a história da mítica sala de espectáculos situada no Parque Mayer, encomendado pela Câmara Municipal de Lisboa ao cineasta Fernando Matos Silva, parece enguiçado. O filme foi adjudicado em regime de ajuste directo, em Julho de 2009, por um valor de 60.500 euros, e terá sido finalizado e entregue à autarquia, segundo o realizador, em 2010. Mas continua também ele à espera do desfecho do imbróglio em que se encontram os trabalhos de recuperação.

 

“Fiz um filme com uma abordagem histórica sobre aquele sala, que ficou muito bonito e tem imagens e histórias inéditas ou muito pouco conhecidas. E depois entreguei-o à Câmara. A ideia inicial era fazê-lo para que fosse visto aquando da reabertura da sala, mas aquilo está como se sabe”, diz Fernando Matos Silva ao Corvo, ao qual se disponibilizou para mostrar o filme, afastando assim qualquer suspeita da não realização do mesmo. “Posso propor à câmara fazer uma exibição, nem que seja só para os jornalistas, e resolve-se o problema. Mas eles é que decidem”, comenta.

 

“Percebo que será muito mais interessante ver o documentário no momento em que o Capitólio abrir já renovado, mas a situação é a que se conhece e o dono da obra que fiz é a Câmara de Lisboa”, afirma o realizador, que vê o destino da sua obra tornar-se refém da resolução do problema da suspensão dos trabalhos de recuperação do cine-teatro inaugurado em 1931, obedecendo a um projecto do arquitecto Luís Cristino da Silva, e encerrada desde o início da década de 1980. Os trabalhos estão suspensos desde o início do ano, devido às dificuldades financeiras do empreiteiro a quem haviam sido adjudicados, a Habitâmega.

 

As obras foram interrompidas, em Março deste ano, já numa fase bastante adiantada do projecto de recuperação da sala e já após terem sido retomadas em 2012, na sequência de uma suspensão inicial desde 2010. Os trabalhos haviam sido iniciados no ano anterior, dando seguimento à decisão pela autarquia, em 2007, de avançar com a sua concretização. O projecto arquitectónico da intervenção iniciada há já cinco anos é de Alberto de Sousa Oliveira, o qual repõe o traço original de Cristino da Silva, datado de 1925. Quando a obra foi lançada, previa-se a sua conclusão para o final de 2009. Mas o atrasos foram-se sucedendo.

 

O filme realizado por Fernando Matos Silva, e que deveria ser estreado no momento da reinauguração do Capitólio – que se irá chamar Teatro Raul Solnado -, tem uma duração de cerca de hora e meia e intitula-se “De novo o Capitólio”. De acordo com o realizador, é um trabalho documental que recorre sobretudo a materiais de arquivo e ao resgate de memórias de uma sala que conheceu momentos de glória no apogeu do Parque Mayer, em meados do século passado. “Fizemos a recuperação de uma série de materiais antigos, como uma maquete do teatro em madeira e lindíssima, que estava na Gulbenkian”, conta.

 

O filme começa, segundo revela o cineasta, com imagens captadas no momento em que se procedia ao desmantelamento dos velhos equipamentos de projecção cinematográfica. E, partindo dessa cena, faz toda uma evocação da memória daquela que foi uma referência central na vida cultural de Lisboa durante o Estado Novo, até ao seu encerramento e degradação. Matos Silva tem grandes lembranças do muito tempo que ali passou, sobretudo pela cinefilia – “Sou um puto do Capitólio”, admite, irónico -, mas não só. A vida social em seu torno marcou uma época.

 

Para além do cinema, teatro de revista e música, um aspecto devidamente assinalado no documentário que ainda ninguém viu – e que Matos Silva assume como “um filme de sombras, sons e fantasmas” – é o das suas singularidades arquitectónica e construtiva. “Foi a primeira sala de espectáculos em betão de Lisboa, assim como também teve a primeira passadeira rolante de Lisboa”, recorda. Tudo isso é contado no filme.

 

O Corvo questionou, há quase três semanas, a Câmara Municipal de Lisboa sobre as razões de o documentário pelo qual pagou 60.500 euros há já cinco anos nunca ter sido exibido, mas ainda não obteve resposta. Por seu lado, Fernando Matos Silva diz que respeita a decisão da autarquia de estrear o filme quando entender oportuno, mas admite que a demora poderá “pôr em causa” o seu “bom nome”.

 

Matos Silva (Vila Viçosa, 1940) iniciou-se na realização em 1968 e integrou aquela que ficou conhecida como a geração do Novo Cinema. As suas obras mais conhecidas são “O Mal Amado” (1973), o filme colectivo “As Armas e o Povo” (1975) e “Ao Sul” (1995). Em 2013, voltou a apoiar a reeleição de António Costa à presidência da Câmara Municipal de Lisboa.

 

Texto: Samuel Alemão

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