Uma necrópole de grande dimensão, com centenas de esqueletos humanos em bom estado de conservação, na sua maioria indiciando serem resultantes de enterramentos feitos durante a Idade Média, tem estado a ser revelada por um complexo trabalho de campo arqueológico a decorrer na Mouraria. “Trata-se de uma descoberta de grande dimensão e muito importante”, disse ao Corvo uma fonte conhecedora do processo de exploração em curso, já considerada nos meios da arqueologia nacional como sendo de “enorme importância para o conhecimento da história de Lisboa”.

 

Até ao momento, terão sido contabilizados vestígios correspondentes a cerca de quatro centenas de corpos, em vários pontos de exploração, numa vasta área compreendida entre o Largo das Olarias e a Rua dos Lagares. “Estamos a falar de sepulturas com corpos que indicam terem sido ali colocados até aos séculos XV ou XVI, mas ainda não é certo quando este cemitério tenha começado a ser usado. Eventualmente, poderá ser contemporâneo dos visigodos, mas tal ainda precisa de ser clarificado”, explica ao Corvo a mesma fonte, salientando que havia referências à existência desta necrópole desde o final da Idade Média. Algo confirmado pelas actuais escavações.

 

Esta é uma zona em que decorrem, em simultâneo, diversas obras de grande envergadura, sobretudo as de dois importantes empreendimentos imobiliários do grupo Libertas: os Terraços das Olarias e os Jardins dos Lagares. Mas há também ali trabalhos de saneamento a ser realizados pela Câmara Municipal de Lisboa (CML). Conta-se, por isso, um conjunto alargado de arqueólogos a trabalharem no terreno, em diversas frentes. Mas o núcleo mais relevante será aquele onde está a ser erguido o empreendimento imobiliário Jardim dos Lagares, cuja parte central aproveita o espaço do antigo jardim de um palacete erguido no século XIX, na Rua dos Lagares.

 

O edifício está a ser integralmente remodelado e, no lugar onde até há pouco tempo existia do jardim romântico, nascerá uma piscina que servirá o novo condomínio. E é aí, nesse lugar imediatamente abaixo do Jardim da Cerca da Graça, que se concentra muita da exploração arqueológica em curso, embora haja trabalhos de prospecção relacionados com o cemitério em causa em vários pontos daquela zona da Mouraria. No empreendimento situado do outro lado do Largo das Olarias, os Terraços das Olarias, foram ainda encontrados vestígios de um conjunto de fornos de olarias, construídos sobre o cemitério.

 

Os primeiros vestígios dos esqueletos dessa necrópole agora revelada terão sido descobertos há sensivelmente três anos, num pequeno terreno que é propriedade municipal, junto ao edifício que agora é ocupado pelo Centro de Inovação da Mouraria (CIM) – e junto do qual deverá começar a ser construído o funicular que ligará a Mouraria ao Miradouro da Graça. De lá para cá, os desenterramentos têm-se sucedido. “Há um núcleo onde foram descobertos 250 esqueletos, noutro foram 120 e ainda há outros”, salienta a mesma fonte, notando a grande riqueza dos vestígios encontrados, entre os quais se conta a existência de sepulturas islâmicas.

 

Ainda estará por apurar se essas sepulturas muçulmanas – uma parte do vasto conjunto descoberto – serão apenas referentes ao período de ocupação moura ou também de indivíduos dessas comunidades que acabaram por viver integrados entre a restante população, já após a conquista cristã da cidade. Certo é que este cemitério era, desde há muitos séculos, referenciado em documentos, sabendo-se, por exemplo, que uma parte das lajes das campas terá sido utilizada como material de construção do antigo Hospital de Todos-os-Santos – edificado no reinado de Dom João II, no sítio onde hoje fica a Praça da Figueira, e destruído pelo terramoto de 1755.

 

A descoberta do cemitério foi confirmada ao Corvo, há cerca de duas semanas, por um responsável técnico da obra em curso no empreendimento do Jardim dos Lagares – o qual garantiu que a empresa dona da obra se prepara para anunciar publicamente, em Julho, os resultados das descobertas. Os resultados das prospecções arqueológicas são, no entanto, conhecidos e comentados pela população daquela zona da Mouraria, há largas semanas. O Corvo pediu informações sobre o assunto à empresa Era Arqueologia, responsável pelos trabalhos de investigação, mas esta escusou-se a fazer qualquer comentário.

 

Questionada sobre estes achados, a Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) confirmou, por escrito, que “encontra-se a acompanhar as diferentes intervenções em curso na área das Olarias na Mouraria, porquanto estas decorrem condicionantes arqueológicas determinadas pela tutela no âmbito do licenciamento de obras públicas e privadas”. O organismo estatal salienta que “foram identificados vários contextos de necrópole que se encontram a ser estudados pelas direções científicas dos trabalhos arqueológicos, referindo-se todavia a identificação de um grande conjunto de sepulturas pertencente a uma extensa área de necrópole atribuível à ocupação medieval desta zona da cidade de Lisboa”.

 

“Para além disso, foram registados contextos habitacionais, nomeadamente alguns fornos de olarias, que estarão na origem do topónimo local. Tem, igualmente, vindo a ser recolhida grande quantidade de espólio arqueológico, sobretudo cerâmico”, diz a mesma nota escrita – que confirma “estarem em curso simultaneamente quatro intervenções arqueológicas, em contexto de arqueologia preventiva, três de índole privada (Largo das Olarias -2 e Rua dos Lagares -1) e uma quarta de carácter público”. “Até ao momento, não obstante o elevado interesse científico e patrimonial conferido aos contextos arqueológicos identificados, não deu entrada nesta Direção-Geral qualquer pedido de abertura de procedimento de classificação dos mesmos”, acrescente a DGPC, depois de questionada sobre o assunto pelo Corvo.

 

Na tarde desta quarta-feira (15 de junho), O Corvo solicitou também esclarecimentos sobre a matéria à empresa Libertas, dona dos empreendimentos imobiliários em causa, mas não os obteve até à publicação deste artigo.

 

Nota: texto editado às 15h45, de 16 de junho. Acrescentada informação fornecida pela DGPC.

 

Texto: Samuel Alemão

 

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