Corpos encontrados na antiga igreja de São Julião revelam novos segredos de Lisboa

por • 10 Novembro, 2017 • Actualidade, CULTURA, Slideshow, VIDA NA CIDADEComentários (3)2830

A antiga igreja de São Julião, onde hoje está instalado o Museu do Dinheiro, do Banco de Portugal, acaba de revelar mais segredos sobre a cidade de Lisboa, que podem agora ser vistos na exposição “Tempus Fugit – Vida, morte e memória na igreja de São Julião”, visitável desde esta sexta-feira (10 novembro) até 27 de janeiro. A mostra é construída a partir dos “testemunhos” da população da primeira metade do século XIX, sepultada na necrópole ali existente. E conta-nos um pouco mais sobre a vida dos lisboetas noutra época, os seus costumes e tradições, mas também fala dos progressos na área da medicina e, consequentemente, na qualidade de vida das pessoas.

 

“Quando falamos do século XIX, falamos de um século de guerra e de crise tremenda para Portugal, de doenças e de epidemias. A nossa própria perspectiva sobre a história pode ser moldada pelas diferenças que estabelecemos com os nossos antecedentes. Conseguimos identificar muitas patologias das pessoas e isso diz-nos muito sobre a forma como viviam”, explica a O Corvo Artur Rocha, arqueólogo responsável pelas escavações realizadas na igreja, entre 2010 e 2011. Os livros de assentos de óbitos paroquiais ajudam à interpretação da planta da necrópole esquematizada à escala real. Um dos livros retrata um período de tempo de grande mortandade: Lisboa foi vítima de uma crise de tifo, em dezembro de 1810.

 

Logo à entrada da exposição, no chão da antiga paróquia da baixa pombalina, onde antigamente os mortos eram enterrados, podemos encontrar uma representação de 310 sepulturas individuais e 30 ossários de meados do século XIX. As sepulturas sobrepõe-se umas às outras, na diagonal, fazendo lembrar um puzzle por montar. E contam uma história. “As sepulturas cruzam-se e há uma justificação para isso. Houve uma fase de epidemias muito forte e havia necessidade de enterrar rapidamente as pessoas e, por isso, é que estão assim. O facto de serem sepulturas e ossários mostra-nos, também, que existem duas camadas de tempo nesta imagem”, esclarece o arqueólogo.

 

 

Os pequenos objectos, que acompanhavam os defuntos, espelham as suas crenças, hábitos e ideais, que encontrarão algumas semelhanças com os dias de hoje. “Estes simples adereços que eles transportavam diziam muito, não só dos nossos costumes, mas também da história da pessoa. Cem anos depois, continuamos com algumas tradições parecidas, como utilizar medalhões ao pescoço. Também estamos a falar de uma sociedade profundamente religiosa. Uma religiosidade que também é vincada pelos objectos que transportavam com eles para o Além”, explica o arqueólogo.

 

Entre os adereços, podemos encontrar crucifixos, medalhas, rosários, botões de punho, anéis, moedas, pendentes e santos, nomeadamente a Imaculada Conceição, que, segundo Artur Rocha, pode indiciar que o povo tinha uma devoção vincada a essa imagem. “É o último objecto que nós levamos, é o momento final, em que tomamos uma ação consciente de sermos acompanhamos com algo que nos diz muito”, adianta.

 

Durante as escavações encontraram, ainda, uma criança sepultada com uma medalha de Santa Brígida e outra de Santa Catarina, o que também parece ter uma explicação. “Pomos a possibilidade de essas medalhas representarem o amor entre a mãe e o filho. Não é um dado científico, estamos a falar de uma coincidência relativamente incomum, que pode ter uma história por trás e apontamos essa”, indica. Entre os artefactos tambéms se encontra a medalha de São Bento, que, tal como a de Santo Anastácio, exibe uma oração de esconjuro, uma evidência de que Satanás era ainda uma ameaça a ter em conta nesses tempos.

 

A análise antropológica dos corpos encontrados revela, ainda, que havia pessoas com actividades físicas muito desgastantes. “Estamos junto à frente ribeirinha e acreditamos que essas actividades estarão relacionadas com as patologias que identificámos, como ‘bicos de papagaios’ e fracturas nos pés do esqueleto feminino que temos aqui exposto”, explica o arqueólogo.

 

 

“Os dados que nos deram foram aterradores para a nossa sensibilidade, vivemos realmente com muito mais conforto. A escavação que foi aqui feita permitiu-nos conhecer melhor as pessoas que viveram aqui, os seus ofícios e todo o avanço da ciência e tecnologia nos últimos 200 anos, além de perceber que a saúde desenvolveu imenso e a qualidade de vida das pessoas também”, afirma. O arqueólogo conclui: “Um povo sem história não é um povo, é um amontoado de pessoas. O que nos distingue no século XXI, o facto de termos uma matriz cultural e podermos perceber quem somos, quais são os nossos antecedentes, pode ajudar-nos a evoluir como pessoas”.

 

Tempus Fugit: Vida, morte e memória na igreja de São Julião

De 10 de novembro a 27 de janeiro de 2018

De quarta a sábado, das 10h00 às 18h00

 

Texto: Sofia Cristino            Fotografias: Museu do Dinheiro

 

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3 Responses to Corpos encontrados na antiga igreja de São Julião revelam novos segredos de Lisboa

  1. Miguel Keßler diz:

    Interessante também o facto de se tratar da igreja de S. Julião. Alguém terá uma ideia do motivo pelo qual foi desafectada do culto católico?

  2. Foi vendida ao Banco de “Portugal”

  3. Miguel Jorge diz:

    Foi vendida ao Banco de Portugal para este fazer uma nova e monumental sede (que nunca foi para a frente) . Com o dinheiro pago, a fábrica da igreja de São Julião, mudou-se para a avenida de Berna, tendo mandado construir a igreja de Nossa Senhora de Fátima.

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