Ciclistas e peões continuam a sentir-se uns “corpos estranhos” da mobilidade lisboeta

por • 20 Outubro, 2016 • Reportagem, SlideshowComentários (17)1002

Numa altura em que as bicicletas se tornaram elementos cada vez mais presentes nas ruas da capital, o Corvo foi tentar compreender como é ser ciclista em Lisboa e de que forma os automobilistas se têm adaptado à mudança de paradigma. A verdade é que os perigos espreitam ao virar de cada esquina e, na “equação” da mobilidade urbana, tanto peões como ciclistas continuam a sentir na pele agressões diárias, fruto da sua condição frágil na via pública. Haverá soluções à vista?

 

Texto: Pedro Arede          Fotografias: razia.net

 

“Um peão ou um ciclista são empecilhos para quem não abdica do carro em nenhuma circunstância, e não deveriam ser”. As palavras são de Laura Alves, jornalista freelancer e autora do livro “A Gloriosa Bicicleta – compêndio de costumes, emoções e desvarios em duas rodas”, que tem feito algum trabalho criativo e documental relacionado com o uso da bicicleta nos últimos anos.

 

O conflito é já um incontornável dado adquirido. O atrito existente nas ruas e estradas de Lisboa entre ciclistas, automobilistas e peões não é de agora e tem vindo a tornar-se mais iminente nos últimos anos. Mas como é a vida de quem tem de percorrer trajectos diários na capital, em cima de duas rodas ou a pé?

 

Se, por um lado, as ultrapassagens rasantes, os obstáculos constantes na via pública, a velocidade excessiva e as agressões verbais estão entre as queixas apresentadas pelos ciclistas que andam na estrada, por outro, também não faltam exemplos de condutores que apontam o dedo a ciclistas que não cumprem as regras de trânsito, nomeadamente, quando acontece passarem sinais vermelhos ou circularem em sentido contrário nalguns troços, por exemplo.

 

Durante décadas, o aumento do poder de compra conduziu à aquisição em massa de automóveis, levando a que muitas pessoas passassem a ver a bicicleta como um meio de transporte das classes mais baixas ou como um mero equipamento desportivo. Numa capital pensada, na sua génese, para servir a circulação automóvel, a verdade é que muitos são aqueles que têm optado por se deslocar a pé ou de bicicleta na cidade. Mesmo que, por vezes, essa decisão requeira algum jogo de cintura e uma boa dose de coragem.

 

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As razões apontadas para a presença cada vez mais assídua de bicicletas são diversas. Vão desde a necessidade de economizar mais alguns euros ao final do mês até à insuficiente oferta de transportes públicos nalgumas zonas da cidade, sem esquecer, claro, o facto de permitir a prática regular de exercício físico e as vantagens que este tipo de deslocação oferece a nível estacionamento e a nível ecológico.

 

Também ela peão e ciclista frequente, Laura Alves tem vivenciado e observado de perto o trânsito nas ruas de Lisboa, onde diz existir, tal como noutros meios urbanos, um “número demasiado grande de pessoas alienadas (…), que deixaram de pensar no outro como ser humano e se comportam na estrada como se esta fosse um campo de medição de forças”.

 

“Quem anda a pé e de bicicleta sofre, sobretudo, pela constatação de que a cidade foi desenvolvida nas últimas décadas numa lógica automóvel, e mesmo assim mal desenvolvida. Não é possível andar num passeio sem termos carros estacionados em cima”, conta Laura. “E depois, claro, a velocidade. E a falta de espaço para as pessoas nas grandes avenidas da cidade”, conclui.

 

Foi perante este “ponto de ruptura” que decidiu criar o projecto Razia, um espaço online com o foco apontado às relações entre ciclistas, automobilistas e peões que pretende, não só, relatar na primeira pessoa episódios do dia-a-dia de ciclistas e peões e estimular as boas práticas de segurança rodoviária, mas também, conta a própria, “falar de pessoas e das emoções que as levam a ter este ou aquele comportamento, e a reflectir sobre o espaço que ocupam – ou desejam ocupar na cidade”.

 

Rui Henrique, dinamizador do portal “Bicicleta Voadora”, pedala também há largos anos pelas ruas de Lisboa e é um desses testemunhos. Certo dia, conta ao Corvo, chegou mesmo a ser agredido “a soco e ao pontapé” por um automobilista irritado que não conseguiu ultrapassá-lo, quando abriu o sinal verde num semáforo. “Depois de várias tentativas e de eu lhe ter dito ironicamente, que tinha uma rica buzina, saiu do carro e começou a agredir-me”, conta.

 

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Vincando que “a maioria dos condutores até respeita os ciclistas”, Rui Henrique diz ser urgente perder a ideia de que a estrada é só para os carros e de que os ciclistas não respeitam as regras. “Pedalar no passeio não é solução e circular encostado à direita da via traz muitos problemas”, explica ao Corvo. “A estrada é em si um sítio irritante e, por isso, é necessário adoptar sempre um comportamento preventivo, porque nós somos o elo mais fraco e sentimos, pelo menos eu sinto, muita pressão sempre que tenho de andar na estrada”, conclui.

 

Para alterar o resultado desta “equação” da mobilidade lisboeta e tornar mais equilibrado o convívio nas estradas, Rui defende que é preciso motivar cada vez mais pessoas a circular de bicicleta na cidade e que é essencial que a educação esteja no centro da questão para que a mudança de comportamentos na via pública seja uma realidade. “Os automobilistas não têm noção, por exemplo, de que quantos mais ciclistas existirem na estrada, menos trânsito vai haver”, explica.

 

Do ponto de vista de quem conduz na cidade, apesar de persistir a ideia de que a actual planificação urbana contribui pouco para a convivência pacífica com peões e ciclistas, existe também a convicção generalizada de que, muitas vezes, os que não andam de bicicleta não cumprem as regras de trânsito.

 

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Miguel Silva, taxista de profissão, tem 35 anos e acredita que, aliada a alguma falta de civismo, existem inúmeros ciclistas que não sabem circular de bicicleta nas ruas da capital, acabando por provocar situações embaraçosas no trânsito. “Algumas vezes, dá a sensação que, por não terem motor, não se sentem na obrigação de cumprir as regras”, conta ao Corvo. “Muitos andam no meio da estrada e passam sinais vermelhos. Não falo daqueles ciclistas que dá para ver que pegam na bicicleta todos os dias para ir trabalhar, mas dos outros. Dos turistas e de quem só anda de bicicleta ao fim-de-semana”, conclui.

 

Frisando ainda que a classe a que pertence “é mais tolerante com este tipo de situações” por passar muitas horas por dia na estrada, Miguel Silva aponta como potenciais soluções um melhor planeamento urbano e ainda a criação de mais zonas exclusivas, tanto para ciclistas, como para peões.

 

O que falta para mais ciclistas pedalarem na capital das sete colinas?

 

O mito de que a cidade de Lisboa é impossível de percorrer em bicicleta, por causa das suas colinas, do trânsito e “mais não sei quantas ideias feitas” não passa, para Laura Alves, disso mesmo, já que a autora do projecto Razia não acredita que a cidade seja pouco convidativa para pedalar.

 

“Claro que não podemos comparar Lisboa com cidades onde a morfologia geográfica tem condições ideais para pedalar, como Londres, Berlim, Copenhaga, Amesterdão”, conta, contrapondo que em Lisboa existe toda uma frente ribeirinha, “onde os percursos são praticamente planos – simplesmente, por vezes, temos de fazer umas subidas para lá chegar. E, com mais um ou dois quilómetros, podemos chegar ao nosso destino, evitando subidas muito íngremes. Pensemos em toda a zona das Avenidas Novas, na zona do Saldanha e do Campo Pequeno, entre tantas outras. Basta haver vontade de pedalar”, explica ao Corvo.

 

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Paralelamente, apesar das alterações introduzidas em 2014 no código da estrada e de outras medidas anunciadas – como a criação de um projecto de bicicletas partilháveis em 2017 e a construção de várias vias cicláveis nos próximos dois anos, em seis grandes eixos da capital – serem vistas com bons olhos pela grande maioria dos ciclistas, existem muitos outros investimentos, possivelmente até menos comprometedores a nível financeiro, que, na opinião de Laura, deveriam estar a ser implementados e que ainda não estão a ser feitos.

 

São disso exemplo a criação de mais parqueamentos que ofereçam segurança e design eficazes e a construção de ciclovias junto à estrada e não em cima dos passeios, para evitar não só o confronto com peões, mas também de obstáculos no caminho, como paragens de autocarro.

 

Além disso, conta Laura, importa também que “os projectos e infra-estruturas desenvolvidas sejam planeados com conhecimento, para servir quem usa a bicicleta como meio de transporte e não apenas para lazer ao fim-de-semana”.

 

Ciente de que, mesmo havendo alguma vontade política em alterar a situação, a mudança de comportamentos ainda levará o seu tempo, Laura Alves acredita que os ciclistas de Lisboa terão de aprender a conviver com os automóveis ao seu lado na estrada. De que forma? “Fazendo uma condução defensiva e zelando sempre pela sua segurança, mostrando confiança e não se deixando intimidar. O grande desafio é tornar a bicicleta mais visível, no sentido de que faz parte da fluidez normal da cidade e não é um elemento estranho”.

 

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(foto: Nuno Antunes)

 

Contactado pelo Corvo para comentar o estado da utilização da bicicleta em meio urbano, o presidente da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados (ACA-M), Manuel João Ramos, refere ser urgente “aplicar medidas que defendam os interesses e a condição dos peões e transportes suaves como a bicicleta”. “A criação de mais zonas de velocidade 30, a melhoria do ensino da condução e, sobretudo, a introdução de medidas de acalmia de tráfego são fundamentais para a coexistência pacífica na via pública”, argumenta, vincando que, antes dos condutores reagirem em concordância com o Código da Estrada, vão reagir sempre, em primeiro lugar, às condições do ambiente rodoviário.

 

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17 Responses to Ciclistas e peões continuam a sentir-se uns “corpos estranhos” da mobilidade lisboeta

  1. Noir Noir Noir Noir diz:

    Rachel Schein Lisboa precisa de vc! <3

  2. Normal ! Esta cidade foi feita para albergar carros e não pessoas.

  3. Ainda NÃO entendi porque motivo NÃO proíbem os ciclistas de andarem em cima dos passeios, porque é extremamente perigoso, porque praticam a mesma velocidade que andam na estrada.

    • Duarte Nuno diz:

      Mas é proibido, a não ser para crianças com idade inferior a 10 anos.

    • Cara Paula, andar em cima do passeio de bicicleta é proibido por lei – apenas podem as crianças até aos 10 anos. É uma questão de tempo, uma “dor de crescimento”. Há pessoas que não se sentem seguras na estrada e por isso optam pelo passeio. Pelo exemplo irão mudar de comportamento.

    • José Lopes diz:

      Ora nem mais! O que tenho reparado é que, de um modo geral, os ciclistas comportam-se em relação aos peões como os automobilistas em relação ao ciclistas, com a agravante de acharem que têm mais direitos que todos os outros.
      Já não é a primeira vez que vejo ciclistas na Rua Augusta, nem é a primeira vez que os vejo a reclamar com os peões por estarem no seu caminho.
      Querem respeito têm de se dar ao respeito!

    • MigCha diz:

      é isso… e deixe-me dizer-lhe.. deviam multar também peões nas ciclovias por não sairem do caminho e ainda ameaçarem ciclistas, é preciso ter lata!

      • José Lopes diz:

        Já vi que pertence ao lobby dos ciclistas donos disto tudo. É preciso ter lata? Até parece que é mentira que os ciclistas andam por onde querem e os outros é que devem se desviar. Vocês são a nova praga da cidade, com mania que são ecológicos e que têm direito a tudo!

        • Rui Henrique diz:

          Caro José Lopes, se acha todas as pessoas que circulam de bicicleta uma praga, diga-me que cidade quer para si. Onde desejaria viver? Se quer uma cidade sem sem ciclistas, lute por isso de uma forma estruturada e demonstre que é o melhor para todos nós. Partilhar ideias diferentes e saber aceitar outras formas de pensar levou sempre a bons resultados. Boa sorte para as suas ideias.

          • José Lopes diz:

            Se acha que é normal um peão ter de ter cuidado ao andar num passeio por causa de ciclistas, sofrer razias em passadeiras, que um automobilista tenha de travar a fundo porque um ciclista não respeita um sinal vermelho, então parabéns à sua luta estruturada! Se cumprem as regras tudo bem caso contrário são de facto uma praga.

  4. Quando a mobilidade em Lisboa está entregue a uma empresa que se chama Emel, está tudo dito. O seu objectivo parece ser unicamente sacar dinheiro. Em zonas “cirúrgicas” exorbita as suas funções sem apelo nem agravo; noutras, é-lhe indiferente que os carros estejam estacionados em cima dos passeios ou em segunda fila, obrigando os peões a usarem a via (!). Muito honestamente, parece-me desequilibrado e sem rumo, o planeamento da mobilidade na cidade.

  5. filipe diz:

    Mas faz algum sentido que um ciclista que viva na damasceno monteiro tenha que subir a rua toda e dar a volta, se quiser ir para os anjos. É óbvio que não, e que a sinalização é que tem que se adaptar. Basta com colocar um sinal no início da rua a avisar os carros para terem mais cuidado porque pode vir um ciclista no sentido descendente. É tão simples quanto isto. Ruas mais seguras para todos, com toda a gente a prestar mais atenção.

    • Cecilia diz:

      Muito bom comentario! Chegar de Damasceno Monteiro para Almirante Reis es absurdo com essa sinalizaçao! Compreendo totalmente e se os carros estiveram parqueados so num lado da estrada ha todo espaço para bicicletas ir no sentido descendente. E’ so questao de querer mudar as coisas com objetivo de ter uma cidade mais segura para todos 😉