Cheira a castanhas em Lisboa mas o Verão prolongado está a prejudicar o negócio  

por • 31 Outubro, 2017 • Reportagem, Segunda Chamada, VIDA NA CIDADEComentários (0)763

O Outono começou há mais de um mês, mas o calor destes dias quase o faz esquecer. As temperaturas altas estão a afectar a agricultura e a produção de castanhas. E também o negócio dos vendedores ambulantes de Lisboa. Queixam-se das poucas que chegam, muitas delas estragadas. Os comerciantes garantem que, se não fossem os turistas, não vendiam nada. Ainda assim, sempre vai havendo um ou outro cliente habitual para este fruto sazonal. Os verdadeiros apreciadores não deixam de comprar, esteja frio ou calor. Mas a sensação estival afasta alguns, que apenas espreitam.

 

Texto: Sofia Cristino

 

É mais um final de tarde típico na baixa lisboeta. As pessoas atropelam-se umas às outras. Algumas para não perderem o autocarro, outras – que estão de visita – para tentarem apanhar o melhor ângulo para fotografar o eléctrico. Não faltam, também, os grupos de turistas, rua acima rua abaixo, com um guia a orientá-los. No meio da confusão, os vendedores de castanhas parecem passar despercebidos. Há quem pare para comprar um cartucho do fruto da época, mas ainda são poucos os que o fazem. Entramos no Outono há mais de um mês, no entanto, as elevadas temperaturas, que desacreditam o oficial fim da época balnear, estão a prejudicar o negócio das castanhas.

 

“Não dá para ter lucro com as castanhas, já se sabe, isto só dá para viver. Mas, este ano, vai ser muito pior. 70% da produção foi à vida, devido ao clima. A maioria das castanhas chega estragada, são poucas e de fraca qualidade. E, para ajudar à festa, tivemos os incêndios”, desabafa Nuno Pinto, 34 anos, que vende a iguaria sazonal desde os 14, na baixa lisboeta.

 

Quem começou por vender as castanhas, provenientes de Sernancelhe (Viseu), foi o seu avô, tendo o negócio passado de geração em geração. Agora, é o neto quem toma conta de tais afazeres, com a ajuda de um amigo, João Neves. O lugar escolhido para colocar o assador de castanhas, o Largo do Chiado, acaba por receber gente de todas as idades e estratos sociais. No dia em que O Corvo esteve lá, Assunção Cristas comprou uma dúzia de castanhas. Mas não foi uma aquisição pontual. Segundo Nuno Pinto, a líder do CDS-PP é uma cliente assídua. “A Assunção Cristas costuma vir muitas vezes, quase todos os dias”, comenta enquanto assa as castanhas e afasta o fumo.

 

 

 

Para já, ainda vai conseguindo vender e, apesar do cepticismo relativamente aos meses que se avizinham, o vendedor de castanhas mantém algum optimismo. “A castanha vai ficar caríssima, mas, para já, ainda temos muitas pessoas a comprar, principalmente jovens. Há quem considere as nossas castanhas as melhores. O turista compra mais por curiosidade”, explica. E, não basta estar lá muito tempo para perceber que a clientela é constituída, maioritariamente, por uma faixa etária jovem.

 

José Nuno, 48 anos, esteve dez anos fora de Portugal, em Amesterdão. De regresso ao país de origem, há quase quatro anos, diz que não perde uma oportunidade para comprar meia dúzia de castanhas. “É insólito estarem a vender castanhas num dia tão quente, mas eu adoro castanhas e apetece-me sempre”, diz a O Corvo. Mas há um motivo para comprar o fruto da época no Largo do Chiado.

 

“Eu só compro castanhas aqui por uma razão. Na altura da formação do Governo, o Cavaco Silva estava a ser entrevistado por um canal de televisão. Estava a dizer que queria constituir um Governo de Direita, quando tinha uma proposta da Esquerda que, depois, teve de aceitar. E, para minha surpresa, o senhor João Neves começou a dizer que um governo assim não era possível, deixando o jornalista meio atrapalhado. Achei um momento muito caricato. E volto aqui por ele, acho que as pessoas deviam dizer mais o que pensam e, neste caso, foi sob a pressão de um directo de um canal de televisão”, explica.

 

Já Sónia Oliveira, de 28 anos, come castanhas em qualquer lado e, quando questionada pelo O Corvo se já tem vontade de comer o fruto típico do Outono é rápida na resposta. “Apetece, pois. Apesar do calor, está na altura delas. Estarmos a ser bombardeados de decorações natalícias por todo o lado, não nos deixa esquecer que estamos a chegar ao Inverno”, diz, entusiasmada.

 

Um pouco mais abaixo, na Rua Garret, mesmo ao lado da Livraria Bertrand, Filipa Gaspar, 39 anos, não está tão confiante. “Já há pouca castanha e, agora, vai ficar mais cara. Na verdade, dizem que vai ficar cara todos os anos, mas, este ano, vai ser pior”. A vendedora de castanhas há 14 anos admite, ainda, que tem tido prejuízo nos últimos anos. E este Outono, assegura, a situação vai piorar.

 

São muitos os que passam por ali, mesmo em frente à Basílica dos Mártires. Mas são mais os que entram para a eucaristia do que os que páram para comprar a iguaria típica da estação do ano que, agora, se confunde com o Verão. Vai passando um ou outro turista. “Os turistas dizem que é um contrassenso comer castanhas com este calor, mas que querem experimentar porque são giras”, explica Filipa Gaspar. A confirmá-lo, uma turista passa e comenta: “São tão amorosas”.

 

 

Mais abaixo, quase a chegar ao Rossio, no final da Rua do Carmo, encontramos outro carrinho de castanhas. O dono é Pedro Gaspar. Trabalha neste oficio há 24 anos, na altura em que conciliava o trabalho com o estudo. Hoje tem 39 anos e já não se imagina a fazer outra coisa. Reconhece, todavia, que, se não fossem os turistas, o negócio acabava. “Se houver cruzeiros, vende-se bem e vamos tendo lucro. Os clientes são turistas, essencialmente”, explica, enquanto enrola folhas de papel brancas próprias para impressora que, rapidamente, se transformam em cartuchos. Antes, utilizava listas telefónicas, mas foram proibidas em 2008, pela ASAE. É com os turistas que vai, também, passando por situações caricatas.

 

“Há muitos turistas que pensam que colocamos farinha ou iogurte nas castanhas, para ficarem brancas. Eu explico que é o fumo e o sal que dão a cor”, conta, entre risos. Quanto aos próximos meses, diz que só com o tempo poderá fazer um balanço da época sazonal. No entanto, concorda com os outros vendedores de castanhas. “Este ano, a produção foi muito afectada, a castanha vem seca e, por isso, apodrece mais rápido. O preço também vai subir. Se, este ano, vai correr bem, só o tempo o dirá. Nós vendemos a dois euros e meio, mas quem vende a dois euros vai ter muito prejuízo”, considera.

 

Na Rua Augusta, José Tavares, com 61 anos, a vender castanhas há 37 anos, já viu o negócio a passar pelas melhores e pelas piores fases. Como este ano, admite, nunca viu igual. “Só passam aqui três ou quatro portugueses por dia. Se não fossem os estrangeiros, não vendia”, diz. “E o que fazia se o negócio acabasse?”, questiona O Corvo. “Arranjava outro emprego, que remédio”, diz, bem-disposto.

 

 

“Aumentando o preço do quilo, temos prejuízo e ninguém compra. As castanhas chegam muito podres e bichosas. Arderam muitas árvores”, lamenta. Há quem passe só para experimentar. Uma turista pergunta se pode provar uma e José Tavares concede o desejo. “Leve lá”, diz, encolhendo os ombros. “Agora, deixei-a provar, mas e se deixasse todos experimentarem? Seria um grande prejuízo. Mas eles não têm noção”, complementa. Um turista compra uma dúzia. “Sou da Suíça, para mim está sempre bom tempo para comer castanhas”, comenta, divertido.

 

Vítor Martins faz parte da meia dúzia de clientes habituais. “Já sabe bem, já está na altura e apetece. Venho cá muitas vezes, apesar da calçada não ser nada prática para vir até aqui, mas eu gosto”, comenta o lisboeta, que se desloca em cadeira de rodas. Daniel Fonseca, de 30 anos, espreita para as castanhas, mas recua. “Está muito calor e as castanhas sabem bem quando está frio, quentinhas, para combater o clima gélido”, comenta.

 

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