Casa Raphael Baldaya, um lugar aberto ao mundo e à alquimia das palavras

por • 24 Novembro, 2014 • Reportagem, SlideshowComentários (2)1979

Junto da Calçada do Combro, escondida pela passagem constante do elétrico 28, a Casa Raphael Baldaya abre as portas aos amantes da arte e da poesia. Com uma atmosfera misteriosa e convivial, este espaço consagrado ao culto da palavra reúne lisboetas e estrangeiros para tertúlias e eventos de todo tipo.

 

Texto e Fotografias: Daniele Franco e Sofia Minetto

 

Numa cidade como Lisboa, às vezes, é suficiente ter um olhar um bocadinho mais atento e curioso para ter acesso a mundos inesperados. “Procuram-se poetas, músicos, actores”, assim dizia o anúncio pendurado à porta de um local não muito visível, ao fundo da Calçada do Combro, na Rua dos Poiais de São Bento. Abrimos então uma portinha, sem saber bem onde é que estávamos a entrar. E foi assim que tropeçámos com a Casa Raphael Baldaya.

Situada numa rua por onde, a cada dez minutos, passa o elétrico 28, sacudindo os vidros da porta, a Casa Raphael Baldaya é um mundo à parte. Então, o que tem de especial esta casa escondida no centro da cidade? “Em princípio, é uma casa de cultura”, explica ao Corvo a gestora Rita Pinto – ou Rita Baldaya, o pseudónimo pelo qual ela admite ser conhecida -, com a qual fomos conversar. “Mas, de facto, é bem mais”, assegura.

Não surpreende que muitos se perguntem quem é este Raphael Baldaya que dá o nome à casa. Trata-se de um dos menos conhecidos semi-heterónimos de Fernando Pessoa, ligado à astrologia e ao poder esotérico. Nada melhor do que isso para representar um lugar dedicado à palavra e às alquimias que ela é capaz de criar.

A Casa nasceu como um projecto – ou sonho – em comum entre Rita Pinto e Nuno Libório. Embora provenham de ambientes profissionais diferentes, os dois partilham a mesma paixão pela poesia e pela arte. Durante algum tempo, cultivaram a ideia de criar um pequeno espaço informal que pudesse ser um lugar de encontro e de tertúlias.

 

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Mas foi quando a Rita e o Nuno acharam uma antiga loja de molduras à venda que o intento inicial se transformou num projecto bem maior. Ocuparam-se das obras de restauro, dando relevo ao chão e às madeiras originais, e organizaram o espaço, criando um palco e duas salas. O Espaço Orpheu funciona como a sala de estar e a Abadia é um refúgio, algo mais íntimo.

Finalmente, animaram o local com objectos e decorações que revelam o espírito do lugar e dos seus fundadores, dando vida à Casa Raphael Baldaya. Abriu portas ao público em Setembro de 2013.

Os primeiros meses de actividade, como explica Rita, “serviram para estabilizar a organização, ajustar a logística e perceber que a Casa tem o seu ritmo”. Perguntámos-lhe, então, qual o balanço que faz à actividade da Casa Raphael Baldaya, sobretudo porque, como a própria relembra, se trata também de um negócio que tem de se sustentar. “O desafio agora é o de fidelizar o público e fazer com que se possa contar com um núcleo estável de pessoas. O objectivo é o de oferecer eventos diferentes cada dia em que a casa está aberta”.

 

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Embora a empresa ainda seja “um bebé que está a crescer”, basta espreitar a programação dos eventos oferecidos para se dar conta dos passos já percorridos. Em pouco mais de um ano, a Casa tornou-se num projecto colectivo, que abarca todo o tipo de artes e até alcança uma dimensão internacional.

A terça-feira é a noite do teatro, durante a qual os visitantes podem degustar um jantar típico português acompanhado por encenações de várias peças teatrais. Às quintas-feiras, há jazz, improvisações instrumentais e jam-session abertas a todos. Cada último sábado do mês, cantores, músicos e público reúnem-se para uma tradicional noite de fado vadio.

 

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O “Palco do Desassossego”, que, como evidencia Rita, é o evento-cara da casa, decorre às últimas sextas-feiras do mês: trata-se de uma tertúlia de poesia que permite às pessoas partilhar as próprias criações poéticas, de acordo com os princípios que inspiraram a fundação do local e permitiram o seu desenvolvimento.

Um processo de partilha semelhante anima o “Lisbon Stories”, uma verdadeira troca de narrações, curiosidades, episódios históricos ou do dia-a-dia entre contadores profissionais e hóspedes da Casa. Normalmente oferecido em inglês, dada a afluência de público estrangeiro, vai estrear neste mês na sua versão em língua portuguesa.

Neste lugar consagrado ao culto das palavras, as barreiras linguísticas não constituem uma limitação. Portugueses e estrangeiros – sejam de passagem, sejam residentes mais ou menos permanentes – têm convivido aqui e trazido as suas propostas para eventos ou colaborações, contribuindo assim para a evolução da ideia original da Rita e do Nuno.

 

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O segredo principal da casa, o seu ingrediente especial, é a espontaneidade. Já sabemos que as regras existem para ser transgredidas. Assim também a programação da casa pode mudar conforme o espírito das pessoas, como se cada noite contasse uma história sempre nova. Como nos diz a Rita, “antes de mais, são as pessoas que fazem a casa”.

Todos os que entram através da portinha de vidro que dá para este espaço misterioso trazem consigo o próprio mundo para partilhar, chegando a fazer parte de um universo que nem o próprio “senhor Baldaya” poderia ter imaginado.

 

Casa Raphael Baldaya

Rua dos Poiais de São Bento, 27

Aberto de quarta-feira a domingo

Tel: 21 396 1661

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2 Responses to Casa Raphael Baldaya, um lugar aberto ao mundo e à alquimia das palavras

  1. Tuga News Tuga News diz:

    [O Corvo] Casa Raphael Baldaya, um lugar aberto ao mundo e à alquimia das palavras http://t.co/0VvIEZqJpB

  2. RT @ocorvo_noticias: Casa Raphael Baldaya, um lugar aberto ao mundo e à alquimia das palavras – http://t.co/OsJga2kVQU