Cafés Negrita: uma das últimas torrefacções de Lisboa funciona nos Anjos

por • 23 Janeiro, 2017 • Reportagem, SlideshowComentários (38)1892

É quase como um segredo bem guardado atrás de uma casa, situada nos Anjos. E com muito charme. O logótipo icónico e exótico da Negrita, fundada em 1924, convida-nos a conhecer um dos derradeiros sítios onde se torra café em Lisboa. Uma fábrica que tanto fornece os estabelecimentos ao fundo da rua, como muitos cafés espalhados pelo país. A reconhecida qualidade dos seus lotes tem muitos apreciadores.

 

Texto: Rui Lagartinho             Fotografias: Luísa Ferreira

 

Não deixa de ser irónico que a sede dos Cafés Negrita esteja a dois passos do conjunto de quarteirões, situado nos Anjos, ainda por muitos conhecido como Bairro das Colónias – apesar de o seu nome oficial ser, há muitos anos, Bairro das Novas Nações. Aliás, a Negrita, fundada em 1924, é até mais antiga, pois o bairro só começou a ser plenamente habitado em meados dos anos trinta do século passado.

 

Em dias de torrefacção, como aquele em que O Corvo visitou as instalações da marca, quase se pode lá chegar pelo cheiro. Carlos Pina, 90 anos, tem o aprumo de um cavalheiro, com o seu casaco cardigan, as calças bem vincadas, o cabelo branco bem penteado, a delicadeza do trato e a naturalidade afável com que nos recebe. A sua vida confunde-se com este espaço que, nos primeiros tempos, para além da torrefacção de café, foi também armazém de mercearias.

 

Torrefação Cafés Negrita, fundada em 1924, Carlos Pina, Lisboa 19.1.2017 © Luisa Ferreira

Carlos Pina, a continuar uma tradição iniciada em 1924.

 

“Lembro-me de, no tempo da Guerra Civil de Espanha, ver sair daqui o café destinado a Espanha. Na altura, ainda usava calções”, recorda o ainda hoje sócio-gerente da Negrita. Foi com ele, herdeiro da quota do seu pai, que o negócio se tornou familiar, quando Carlos Pina comprou aos outros sócios todo o restante capital, na década de 1960. A empresa atingia então o seu auge, era um negócio em expansão.

 

Em Lisboa, coexistiam várias dezenas de torrefacções que abasteciam as muitas pequenas lojas espalhadas pela cidade. Uma realidade que, entretanto, se extinguiu. Mesmo assim, no perímetro da Rua Andrade, ainda são muitos os cafés que se abastecem ao fundo da rua. E pelo país ainda há também quem seja fiel aos lote Rubi, a estrela da companhia. Os outros lotes chamam-se Ébano, Marfim e Chávena.

 

“A nossa qualidade sente-se na boca”, garante-nos o empresário, enquanto nos prepara um café Rubi. “Convém que cada chávena seja preparada com cerca de cinco a seis gramas de café”, diz.

 

Torrefação Cafés Negrita, fundada em 1924, Carlos Pina, Lisboa 19.1.2017 © Luisa Ferreira

 

O café que vimos torrar é um robusta Amboim, proveniente do porto angolano com o mesmo nome. “É um café caro, nem sempre fácil de encontrar e importar, mas fazemos questão de o ter, porque é essencial aos nossos blends”. Um blend, explique-se, é uma mistura variada de cafés puros das duas grandes famílias de grãos: Arábicas e Robustas.

 

Torrefação Cafés Negrita, fundada em 1924, Carlos Pina, Lisboa 9.1.2017 © Luisa Ferreira

 

“Os portugueses são muito fiéis aos grãos robusta, gostam de um café mais forte, encorpado. Acho que a justificação é termos estado tantos anos em África”, conta-nos, enquanto nos dirigimos ao armazém, com o sabor do Rubi ainda no palato. Pendurados na balaustrada estão alguns sacos vazios que, juntos, fazem a geografia do café no mundo: Colômbia, Timor, Brasil.

 

“Para além dos nossos blends, a casa e a torra funcionam também por encomendas. Qualquer pessoa que importe grão de café verde pode pedir-nos para torrar. É como fazer um fato à medida. Pedem-nos e nós fazemos”, explica. Num canto do armazém, cheira a erva-doce. Estamos no canto das especiarias, outro sector de negócio com o selo Negrita.

 

Torrefação Cafés Negrita, fundada em 1924, Carlos Pina, Lisboa 19.1.2017 © Luisa Ferreira

 

Este é um dos dias mais frios do ano. Por isso, para além do cheiro robusto e inebriante dos grãos Amborim recentemente torrados, e que estão agora a sair da máquina, o calor do equipamento aconchega-nos. A máquina é vetusta, mas tudo o que a rodeia tem uma precisa sofisticação. A partir de um ecrã electrónico, percebemos que os doze silos onde se pode armazenar o café estão cheios.

 

Num dia de laboração da torrefação, são preparados 2 400 quilos de grão. “São quarenta sacos de sessenta quilogramas”, contabiliza Pedro Jesus, hoje de serviço a esta tarefa. Trabalha aqui há quinze anos. É um dos vinte funcionários de uma empresa que faz questão em manter-se familiar. A filha do actual proprietário já trabalha com o pai, o que garante que a Casa Negrita celebrará o centenário daqui a sete anos. “Claro que há crise, as pessoas compram cada vez menos café, as cápsulas vieram agitar o sector do retalho, sobrevivem poucos” explicam-nos.

 

Torrefação Cafés Negrita, fundada em 1924, Carlos Pina, Lisboa 19.1.2017 © Luisa Ferreira

 

Há 25 anos, Carlos Pina meteu-se noutra aventura difícil, precisamente no campo do retalho. Comprou uma das lojas de café mais tradicionais da cidade: A Carioca. A pequena loja de chás e cafés do Chiado, situada no início da Rua da Misericórdia, mantém-se firme e resistente à especulação imobiliária que tomou conta da zona. Lá, vende os seus lotes Tavares – encomendado, em tempos, pelo luxuoso restaurante com o mesmo nome situado duas portas acima -, Presidente e Carioca, blends imaginados e testados na torrefacção Negrita.

 

Torrefação Cafés Negrita, fundada em 1924, Carlos Pina, Lisboa 9.1.2017 © Luisa Ferreira

 

“Temos menos empregados, mas vamos aguentando. Os anos levaram-nos a clientela fiel, é uma dor de cabeça, mas prosseguiremos”, garante ao Corvo Carlos Pina. Quando lhe perguntamos se está arrependido, é capaz de dizer imediatamente sim. Mas, depois, o brilho no olhar trai-o. E nem ele nem nós acreditamos. Um homem e um negócio talhados para resistir até ao fim.

 

Torrefação Cafés Negrita, fundada em 1924, Carlos Pina, Lisboa 19.1.2017 © Luisa Ferreira

 

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38 Responses to Cafés Negrita: uma das últimas torrefacções de Lisboa funciona nos Anjos

  1. É estranho isto ser permitido no centro de Lisboa. Faz uma fumarada brutal. O cheiro nauseabundo invade as casas e a mim provoca dores de cabeça e vómitos. Será que está dentro da lei?

    • Digo o mesmo desde 1982…

    • Já pensei em organizar um abaixo assinado, mas ainda não me mexi.

    • José Lopes diz:

      Deve estar, assim como os McDonalds e afins

      • Miguel Madeira diz:

        Nem tem comparação possivel.
        Posso desafiá-lo a um exercicio simples, para que possa comprovar com os seus próprios olhos.

        Vá para o miradouro do monte agudo um pouco antes das 14:00.
        Olhe para sul, quando vir uma grande nuvem de fumo a surgir no horizonte, escusa de se perguntar de onde vem, porque eu respondo-lhe já: vem desta fábrica de café.

    • Jorge diz:

      Que estranho, passo muitas vezes à porta e nunca notei nada que justifique vómitos e dores de cabeça…
      Aliás há um hostel a funcionar mesmo ao lado, mas é que é mesmo ao lado – o Go Hostel Lisbon, e se a situação fosse a que descreve há muito estaria fechado. Por curiosidade fui ver os comentários no TripAdvisor e não vi queixas relacionadas com a fábrica.
      Enfim…

    • Paulo Condeço diz:

      Diga só uma coisa, quando foi morar para essa casa já a fabrica existia, porque não foi para outro lado já que o incomoda tanto?
      Eu sou um grande apreciador desse café

    • Paulo Condeço diz:

      Diga só uma coisa, quando foi morar para essa casa já a fabrica existia, porque não foi para outro lado já que o incomoda tanto?
      Eu sou um grande apreciador desse café
      Se a fabrica o incomoda tanto mude de casa pois esta já lá exite á muitos anos, muito antes de voce nascer

  2. Miguel Madeira diz:

    Essa fábrica produz uma fumarada/poluição brutal.
    São frequentes as queixas dos vizinhos (ter em conta que o fumo chega bem longe) referentes ao cheiro nauseabundo e indisposição física provocada.
    Estou certo que essa empresa funciona à margem da lei.
    Não se compreende como se permite essa actividade no centro da cidade,
    colocando em causa a saúde de milhares de pessoas, especialmente as que têm problemas respiratórios.

    • A Luís diz:

      Estranho é a ignorância em que muita gente vive, com tanta informação útil na internet, canalizar os interesses a questionar o previlegio de conhecer uma das poucas fábricas tradicionais de café de Lisboa é por si só estupido.
      Adoro p dias de torrarem, sinto me em casa isto também é o bairro das colônias. Bem haja á Negrita cafés !

  3. É estranho este comentário. Sou residente hà 65 anos. Bem perto.Nunca me senti incomodada com cheiros ou fumos. Como é que uma empresa à beira de completar 100 anos poderia não estar dentro da lei ? Fora da lei estão os Alojamentos Locais que proliferam no Bairro, sem licenciamento, bem como assciações de encontro onde o ru o cheiro da droga esse sim provoca mal estar

    • Moro na Heliodoro Salgado desde 1978. Tenho relatos de várias pessoas a queixarem-se do fumo e cheiro nauseabundo, principalmente nos dias em que queimam especiarias. Acho muito estranho o seu comentário, talvez seja imune ou talvez tenha pouco olfacto.

      • Jorge diz:

        Ou talvez o Miguel Madeira/Michael Woods/Qualquer Coisa seja muito sensível ou tenha olfacto a mais.
        Experimente largar o facebook e as caixas de comentários por uns tempos, e sair mais à rua, e vai ver que melhora.

      • pedro diz:

        ve se mesmo que so falas por falar não percebes nada de cafés cala te

    • Tenho amigos que moram na Maria Andrade a poucos metros da chaminé. E realmente nota-se menos o cheiro do que em zonas um pouco mais afastadas, talvez por estar imediatamente abaixo da chaminé o cheiro não entra tanto como se estivesse mais afastada.

    • luis diz:

      Mas que raio tem o Alojamento local a ver com a fábrica de café? Pela mesma lógica posso dizer que “fora da lei estão todos os cidadãos dos Anjos que vêm filmes em streamings ilegais na internet”. Haja paciência.

    • Fernando Monteiro diz:

      Pois eu morei na Rua Maria da Fonte e deixei por causa desta torrefação. E, não se trata apenas de um único comentário, como escreve e diz estranhar, se vir com alguma atenção, são vários e de diversas pessoas. Deve ser a única pessoa que, como diz, mora perto e não se queixa, todos com quem falei, antes de me mudar se queixavam mas, mesmo todos havendo pessoas com problemas de saúde que se julgava serem causados pela grande quantidade de fumo desta torrefação.

    • Jorge diz:

      Na mouche Julia Rocha.

  4. onde o ruído constitui poluição sonora e onde o cheiro da droga. esse sim causa provoca mal estar.

  5. O meu preferido 🙂 , bebo-o no Café do Sr. Nuno no C. C. Colina do Sol, e que engraçado a minha mãe compra e sempre comprou o café na Carioca e os pacotes de bolacha Maria, Torrada e de Água e Sal a vulso (agora julgo que já não podem vender assim 🙁 )

  6. bebo do café da carioca e é bem bom

  7. Valter Tainha, sabias?

  8. Cafés Negrita: uma das últimas torrefacções de Lisboa funciona nos Anjos | O Corvo | sítio de Lisboa https://t.co/qDKuMVAyTC

  9. È DOS MELHORES CAFÉS NACIONAIS!

  10. Isabel Gaiolas diz:

    A propósito….vai um cafézinho?????

  11. delicia das delicias!!Que nunca morras!!! RT(Cafés Negrita: 1 das últimas torrefacções de Lisboa funciona nos Anjos https://t.co/3B1GDLk7jD

  12. Cafés Negrita: uma das últimas torrefacções de Lisboa funciona nos Anjos https://t.co/Vmot5YrlbA

  13. Tiago Dias Tiago Dias diz:

    RT @joaovillalobos: Cafés Negrita: uma das últimas torrefacções de Lisboa funciona nos Anjos https://t.co/Vmot5YrlbA

  14. RT @joaovillalobos: Cafés Negrita: uma das últimas torrefacções de Lisboa funciona nos Anjos https://t.co/Vmot5YrlbA

  15. Miguel diz:

    Cresci com o sabor maravilhoso deste café, o seu aroma idem. Desde 1996, quando sai de Lisboa nunca mais tinha conseguido beber um café tão bom. Agora que tenho um espaço nocturno, só podia ter cafés Negrita.
    Dificilmente se consegue agradar a gregos e troianos, mas pela história, qualidade e exemplo a seguir, sou um fã.