Boxe na Musgueira: cerrar os punhos para vencer na vida

por • 5 Abril, 2016 • Reportagem, SlideshowComentários (1)1936

Quer seja para subir ao ringue ou simplesmente manter a forma, o boxe é, cada vez mais, uma forma de fazer a diferença na vida dos atletas do Águias da Musgueira. Presente no bairro desde a década de 70, a prática da modalidade continua a promover o encontro entre gerações e assume-se como um porto de abrigo para muitos jovens do Lumiar. O Corvo foi conhecer este clube histórico da Alta de Lisboa.

 

Texto: Pedro Arede                    Fotografias: Paula Ferreira

 

“Então, esse relógio hoje não anda?” O protesto atravessa ofegante as bancadas vazias do Complexo Desportivo do Lumiar, enquanto se ouvem, ao fundo, passos de corrida a bater, ritmados, contra o cimento. Uns mais leves que outros, é certo. Mas ninguém pára para descansar.

 

“Continua lá! Já estamos quase a ir para dentro”, responde ao longe Carlos Morais, ex-atleta e treinador de Boxe do Águias da Musgueira. Ao todo, entre rapazes, raparigas, homens e mulheres, uns maiores, outros mais pequenos, são 15 os atletas reunidos numa das sessões de treino que tivemos a oportunidade de assistir.

 

Quer seja para preparar o calendário competitivo e sonhar um pouco mais alto com uma carreira profissional, crescer como atleta, aprender uma nova arte marcial, perder peso ou, simplesmente, descarregar energia e fugir à rotina do dia a dia, fomos encontrar na Musgueira um impressionante cocktail de idades, proveniências e motivações, que tem no boxe o principal denominador comum.

 

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“A Musgueira é um bairro problemático, mas não deixa de ser um bairro de Lisboa, como outro qualquer. Conheço toda a gente daqui e o meu principal objetivo é que todos se aprendam a respeitar”, conta ao Corvo o treinador de 38 anos. “A verdade é que tenho aqui todas as classes sociais, desde os miúdos, aos homens. Tenho aqui a treinar, ao mesmo tempo, polícias, advogados, pessoas que não trabalham e rapazes de bairro”, completa.

 

Fundado a 1 de Maio de 1963, o Águias da Musgueira é, atualmente, uma das principais associações desportivas da Alta de Lisboa, após ter sofrido uma profunda restruturação nas suas instalações e espaços de treino, mantendo-se activas modalidades como o futebol, o atletismo, a ginástica e, claro, o boxe, secção histórica do clube, tão antiga quanto a sua fundação.

 

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A entrada para a sala de treino leva-nos para debaixo das bancadas do estádio. Sem janelas para o exterior, a luz artificial revela-nos cartazes de competições passadas e imagens onde podemos cruzar-nos com o olhar compenetrado de vários campeões, que cerram punhos aos que passam. Há luvas guardadas em estantes e estações de treino em praticamente todos os cantos da sala.

 

Suspensos no tecto oblíquo, que acompanha a estrutura dos degraus no exterior da bancada, estão inúmero sacos de treino prontos para acolher golpes de todas as direcções. Vida dura a de um saco de boxe.

 

A música quer-se alta e ouve-se à distância. Os atletas calçam as luvas, dispõem-se a pares e vão executando, à vez, as coordenações e técnicas que o treinador vai pedindo. Aqui, como defende Carlos Morais, “o treino é igual para todos” e, por isso, é comum vermos os atletas da competição partilharem o treino com os da manutenção. “Tento acompanhar de outra maneira os que têm menos capacidades e técnica, mas juntá-los sempre com os da competição. É por isso que o Musgueira consegue levar tanta gente ao boxe”, conclui.

 

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Para o treinador, o mais importante é mesmo que todos os inscritos se sintam bem no espaço e treinem com gosto e vontade. “Sinto que se não faltam ao treino é porque se sentem bem e porque gostam. E isso faz a diferença na vida deles, pois passam os bons valores que transmitimos aqui, a outras pessoas”.

 

Miguel Marques, 37 anos, é disso exemplo. Praticante da classe de manutenção há cerca de um ano, veio para perder peso e já não passa sem vir ao clube. “O ambiente é o que me faz vir cá e o Carlos é uma pessoa fantástica. Quando cheguei, deparei-me com esta família que vocês podem ver. As pessoas pensam que o Boxe são dois indivíduos a bater um no outro, para ver quem dá mais socos, mas não é a realidade. Existe coordenação, existe parte psicológica e muitos outros factores”, referiu.

 

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Catarina Pereira compete pelo Águias da Musgueira e partilha da mesma opinião. “O boxe tem uma componente técnica e estratégica que não passa para as pessoas, que acabam por não experimentar a modalidade”, refere a atleta de 18 anos. “O boxe até nos ajuda a não sermos tão violentos lá fora. Podemos vir aqui, bater num saco e descarregar toda a energia negativa que temos. Quando saio daqui, saio satisfeita e muito melhor, tanto a nível físico, como emocional”, acrescenta.

 

A verdade é que a fórmula de Carlos tem dado frutos e, dos 6 aos 60 anos, são já mais de 40 os atletas inscritos na secção de boxe do Águias da Musgueira. Segundo o treinador, de há dois anos para cá, tem havido um movimento crescente na divulgação e procura do boxe, a nível competitivo, mas também por parte daqueles que procuram simplesmente uma forma diferente de se manter em forma.

 

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De acordo com o treinador, para isso, muito tem ajudado também a ação da “Boxing Lisboa”. Criada em 2014, esta marca de promoção deste desporto em Portugal tem como objetivo “elevar a nobre arte do Boxe”, através da produção de eventos e promoção de atividades em conjunto com vários clubes da modalidade. Exemplo disso foi a Grande Gala de Boxe, realizada no dia 20 de Fevereiro de 2016, que juntou cerca de 500 espectadores na Voz do Operário para assistir a seis combates, que contaram, ao todo, com a participação de seis clubes lisboetas da modalidade.

 

Uma segunda casa com estantes de luvas

 

A música continua alta e a marcar a cadência dos movimentos. As gotas de suor caem mais intensamente agora que o treino já leva mais de 30 minutos, mas nem por isso o baque seco e ritmado provocado pelo impacto dos socos parece abrandar.

 

Carlos usa um apito e a voz para atravessar a sala com instruções de novos exercícios e correcções. Pelo meio, uma outra voz, a de uma menina, vai perguntando o que deve fazer a seguir. A voz é de Carolina Sousa. Tem seis anos e ainda precisa de subir ao topo de um pneu para chegar à speedball, onde deve acertar com os punhos para executar o exercício que lhe foi pedido. “Gosto muito de fazer boxe”, diz ao Corvo, ao mesmo tempo que aproveita para descansar um pouco.

 

Enquanto grande parte da classe se prepara para concluir o treino com exercícios de preparação física, os pugilistas de competição, Nelson Antunes e Leandro Sousa, entram no ringue para disputar alguns assaltos. Tanto Nelson como Leandro são moradores da Musgueira e, apesar de terem também os seus empregos, não prescindem de competir pelo clube do bairro. “Para mim, a competição é para que possa assumir um compromisso comigo mesmo, ao mesmo tempo que ajudo a dar vida aqui ao clube”, explica ao Corvo Leandro Sousa, praticante há mais de quatro anos.

 

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Protecções colocadas. Cada um no seu canto. Começa a dança. Os golpes sucedem-se e a música acompanha as movimentações dentro do ringue com baixos fortes. Os socos saem a bom ritmo e as esquivas impedem disparos rasantes, levando um e outro a mudar constantemente de direcção, simulando golpes e planeando cuidadosamente a próxima investida.

 

“Campeão não é para quem quer. É para quem luta para o ser”, lembra-nos Carlos Morais, enquanto partilha a sua experiência de atleta e a forma como divide a sua vida pessoal e profissional, com o boxe. “Isto precisa de muita dedicação. De muito tempo. Como fui atleta de competição, sei o que é estar em cima do ringue”.

 

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O treinador de boxe do Águias da Musgueira, campeão nacional por diversas vezes e vencedor da Taça de Portugal enquanto atleta, trabalha não muito longe dali, no Aeroporto de Lisboa. No entanto, apesar de confessar que abdica de muito tempo em família e que, se pudesse, viveria só do boxe, não hesita em referir que a paixão que tem pela modalidade e a relação que cultiva com os seus atletas fazem tudo valer a pena.

 

“Isto é a minha segunda casa e sinto que os meus atletas têm muita confiança em mim. Digo-lhes sempre: eu não sou só vosso treinador. Sou vosso amigo. Estou aqui para tudo, para o que precisarem, para vos ouvir e tentar resolver certos problemas”, explica.

 

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Claro que, como em qualquer lar, também há dias em que nem tudo corre como planeado e, admite o próprio, “grito muito com eles”. Mas, por vezes, acabam por ser essas derrotas que servem de vitórias, já que, segundo Carlos Morais, os atletas parecem vir com mais vontade e falam mais abertamente sobre as suas ambições depois de perderem. “Não tenho sempre razão! Estamos aqui para aprender uns com os outros e perceber ao máximo onde está o erro”, diz o treinador.

 

“Embora o boxe seja um desporto individual, nós somos todos uma equipa e, depois de uma equipa, somos uma família. É o que eu sinto todos os dias”, conclui.

 

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A música baixou de volume. O treino caminha já passos largos para o fim, quando um homem alto e fardado entra pela sala. Dirige-se ao treinador e cumprimenta-o fervorosamente. Trocam algumas palavras, um abraço e Carlos afasta-se para continuar a dar o treino. O homem fica mais um pouco a ver. Chama-se José Gonçalves, tem 52 anos, pratica boxe há seis meses na Musgueira e é motorista da Carris. “Não tenho conseguido vir treinar, mas hoje tinha de vir cá, nem que fosse para só para ver o pessoal antes de entrar ao serviço. Vou agora fazer a carreira”, explica ao Corvo.

 

Disse adeus e foi trabalhar, muito provavelmente a imaginar o regresso àquela sua casa, revivendo a sensação de calçar as luvas e de disparar os seus golpes preferidos, na companhia da sua família que usa luvas para dançar. Mas agora, tem de ir à sua vida. A música parou. Mais logo há mais.

 

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