Biblioteca de São Lázaro: um património com história e futuro no coração de Lisboa

por • 9 Janeiro, 2017 • Reportagem, SlideshowComentários (4)1131

Vale a pena insistir na ideia, até que se torne obsoleta: a Biblioteca de São Lázaro, a mais antiga biblioteca municipal de Lisboa, situada no centro de um triângulo que inclui o Martim Moniz, a Avenida Almirante Reis e o Campo dos Mártires da Pátria, ainda é desconhecida de muitos lisboetas. O Corvo foi visitá-la e recorda a sua importância – mas também a beleza da sala de leitura principal.

 

Texto: Rui Lagartinho      Fotografias: Paula Ferreira

 

É uma sala hexagonal forrada a madeiras nobres, cuja altura foi aproveitada para construir uma mezzanine – a que se tem acesso por um escada de caracol também em madeira, e também ela um ex-libris do espaço – por onde se circula, com uma vista panorâmica sobre a sala. Impõe respeito e silêncio. Faz-nos viajar no tempo e sentir-nos orgulhosos, vaidosos por nela podermos ler e estudar.

 

Em 11 de Abril de 1916, o Diário de Notícias elencava exaustivamente e com deleite o acervo desta biblioteca: “Nas estantes desta biblioteca, encontra-se um profuso de número de livros que tratam de ciências matemáticas, naturais, orgânicas, inorgânicas, sociais, história, filosofia, geografia, medicina, agricultura, direito, pedagogia, administração, belas artes, literatura, linguística, poesia, teatro, romance, revistas, jornais, dicionários”.

 

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Em plena I República, este espaço de conhecimento era motivo de orgulho para todos os republicanos, honrados e em dívida para com o espírito visionário de um deles, José Elias Garcia – homem que lutou pela mudança de regime, mas que, tendo morrido ainda durante a monarquia, em 1891, tomou a decisão de abrir esta biblioteca popular e pública em 1883.

 

Vereador da Câmara Municipal de Lisboa com o pelouro do ensino público, entre 1872 e 1890, Elias Garcia tomou a decisão de abrir a que agora conhecemos como Biblioteca de São Lázaro no espaço antes ocupado pela biblioteca escolar anexa à Escola Municipal número 1. Hoje, o seu retrato, onde o peso de um homem sério, ponderado e maduro é visível, preside à sala da literatura policial.

 

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As crianças da escola Número 1 eram, então, o público mais habitual da biblioteca que aqui vinham ter aulas muito especiais, olhar para livros preciosos que não podiam tocar, mas reverenciar. Impregnavam-se de uma atmosfera que, mais tarde, lhes seria útil quando tivessem o privilégio de ser leitores e de levar livros para casa. Uma estante no corredor da biblioteca está carregada de objectos de trabalho diário dos bibliotecários mais antigos com destaque para os “fantasmas”, cunhas em forma de livro que eram introduzidas nos espaços deixados vazios pelos livros emprestados.

 

Quando, em 1926, se dá a queda da Primeira República, esta vai ser a única Biblioteca Municipal de Lisboa a manter-se em funcionamento. Em 1938, ano em que ganha a actual designação de Biblioteca de São Lázaro, o seu acervo é inventariado, contabilizando-se então 8.335 volumes. Hoje, são mais de 20 mil títulos, entre os quais se incluem também suportes audiovisuais.

 

História em Movimento

 

Nos últimos quatro anos, a Biblioteca de São Lázaro – que, entretanto, passou para gestão directa da Junta de Freguesia de Arroios, no âmbito do processo de descentralização administrativa da cidade de Lisboa, implementado a partir de 2013 – ganhou uma dinâmica invejável, que é traduzida, por exemplo, pelo número de livros emprestados: de 4.500, em 2011, passou-se para quase 24.000, em 2016.

 

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A saída de um importante acervo de clássicos do livro infantil, para o arquivo histórico da rede de bibliotecas municipais, permitiu reorganizar o espaço. E, com isso, criar novas salas de leitura e multimédia, dispor o depósito local de uma forma mais funcional. A dinâmica de conquista de um público infantil mantém-se, com o desdobramento diário de actividades que incluem iniciação ao xadrez, uma hora dedicada ao conto ilustrado e um atelier de trabalhos manuais. Para os mais crescidos, o clube de leitura está de volta. Arranca a 12 de Janeiro, com “Vai onde te leva o coração” de Susana Tamaro.

 

O Corvo aproveitou a última visita guiada à biblioteca – que acontece todos os sábados, às 10 da manhã -, feita por Joaquina Pereira, uma da três funcionárias, para melhor conhecer a sua história. Durante o passeio, a biblioteca foi-se enchendo de estudantes e leitores, as tomadas para ligar os computadores, em profusão, ficaram preenchidas. Chegam crianças que correm à frente dos pais, direitinhas às suas estantes preferidas, há quem venha ler os jornais desportivos ou de informação geral, trocam-se e requisitam-se livros, muitos deles clássicos da literatura. Percebe-se que a dinâmica é de vizinhos.

 

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Rui Faustino, o responsável da biblioteca, vê aqui, aliás, uma tendência e uma vocação deste tipo de bibliotecas: “Disponibilizarem os clássicos da literatura que vão desaparecendo das livrarias, deixando de ser editados e que é difícil de encontrar. Isto, claro, sem deixar de ter as novidades que o público gosta.” Para que, em São Lázaro, se mantenha esta dinâmica de encontro marcado com a história e as estórias.

 

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Biblioteca Municipal de São Lázaro

Rua do Saco, 1

Contactos:

Tel.: 218 852 672

E-mail geral: bib.slazaro@jfarroios.pt

E-mail empréstimo: bib.slazaro.emp@jfarroios.pt

 

Horário de inverno | 16 setembro a 14 julho

> de segunda a sexta abre das 11H00 às 19H00

> aos sábados abre das 10H00 às 18H00

Encerra para almoço à segunda e ao sábado das 13H00 às 14H00

Encerra: domingos e feriados

 

Horário de verão | 15 julho a 15 setembro

> de segunda a sexta abre das 11H00 às 19H00

Encerra para almoço das 13H00 às 14H00

Encerra: sábados, domingos e feriados

 

Mais informações em : www.blx.cm-lisboa.pt

 

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4 Responses to Biblioteca de São Lázaro: um património com história e futuro no coração de Lisboa

  1. Biblioteca de São Lázaro: um património com história e futuro no coração de Lisboa https://t.co/seAnKUiqHV

  2. Essa que eu te falei, Marcelo Caldas!