Uma nova mostra no núcleo de Santo António do Museu de Lisboa, situado junto à Sé, olha para o modo como, ao longo das últimas décadas, os ilustradores portugueses se inspiraram no santo popular de Lisboa. Juntos, os trabalhos escolhidos para a exposição “Santo António na Banda Desenhada” acabam por propor, de forma acidental, um percurso pela história desta forma de expressão artística em Portugal.

 

Texto: Rui Lagartinho    Fotografias: Paula Ferreira

Vídeo. Imagens: Líbia Florentino   Edição: Álvaro Filho

 

Entramos pela primeira vez no “Museu de Santo António”, a partir de 2014 um dos núcleos do Museu de Lisboa, tomando e ampliando o local onde, desde 1962, se encontrava o Museu Antoniano, e temos a sensação de estar a visitar um museu muito lá de casa, tanta é a familiaridade com que nos movemos através da vida e das lendas à volta do santo mais popular de Lisboa.

 

A primeira sala do museu serve para isso mesmo: rever a matéria dada e aprender um pouco mais. Pode-se seguir o fio da história e percorrer a errância do franciscano ou arrumar ideias feitas, espreitando tudo o que é lenda ou milagre. Quase um Santo António a la carte, onde cada um faz o seu percurso. Há tempo para admirar, por exemplo, as pagelas – pequenos cartões de oração – pertencentes a Fernando Pessoa, ele que nasceu também a 13 de Junho, mas também para estranharmos o facto de, na República Dominicana, o Santo ser representado louro, um facto normal para quem olha para o santo de um ponto de vista latino-americano. Ou ainda relembrar as tão populares notas de vinte escudos e a marca de um pão de ló de Figueiró dos Vinhos que leva o nome do popular santo.

 

 

No centro do espaço expositivo está agora “Santo António na Banda Desenhada”. “Aproveitámos a ocasião da apresentação das pranchas originais do livro de ‘Santo António’, de José Garcês, que fazem agora parte integrante do acervo do Museu de Lisboa, para desafiar a Bedeteca de Lisboa a nos mostrar como vários ilustradores olharam e se inspiraram neste ícone da cidade”, explica a O Corvo o coordenador do museu, Pedro Teotónio Pereira.

 

 

O percurso pensado por Marcos Ferrajota, responsável da Bedeteca, começa logo por nos mostrar, com uma página do jornal satírico “António e Maria”, como Bordalo Pinheiro olhou para o Santo António, incapaz ele mesmo de pôr ordem no Partido Regenerador. E o tom satírico continua nas páginas dos “Ecos da Semana”, nos anos trinta do século XX, onde Carlos Botelho dá conta da incapacidade do Santo António de acudir a tantas solicitações.

 

 

Mais arrumadas e aprumadas são as ilustrações na “Lusitas”, a publicação da Mocidade Portuguesa Feminina ou no livro escolar “Lições de História Pátria”, de 1967. O Estado Novo ajustava o Santo António à sua narrativa. Uma capa da popular revista para jovens “Cavaleiro Andante” coloca o santo ao centro da página, sendo objecto de devoção e fervor até por super-heróis como Tintin ou Tarzan.

 

Já no século XXI, destaca-se o trabalho de Nuno Saraiva. Regressa o humor pícaro e a sátira aliada à tradição da devoção popular a Santo António, seja nos casamentos ou na tradição do muito celebrado tostãozinho, talismã da prosperidade.

 

A exposição apresenta-se aos lisboetas na época certa, Maio e Junho são os meses em que Santo António assume natural relevância e a igreja que leva o seu nome, o largo com o sua estátua-trono e o próprio museu de Santo António são mais visitados.

 

 

 

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