A Lisboa que pisamos  

por • 24 Abril, 2017 • CULTURA, Reportagem, SlideshowComentários (1)97

Uma exposição organizada pelo Museu de Lisboa conta a história da capital através dos seus pavimentos. No Torreão Poente da Praça do Comércio, há surpresas a descobrir sobre a cidade que todos os dias pisamos e na qual, muitas vezes, não reparamos. Como era de prever, a calçada portuguesa está em destaque nesta exposição, que pode ser vista até 24 de setembro.

 

Texto: Rui Lagartinho      Fotografias: Paula Ferreira

 

Imagens vídeo: Líbia Florentino      Edição: Álvaro Filho

 

Dificilmente se pode imaginar um sítio mais adequado para a exposição “Debaixo dos nossos pés”. Do Torreão Poente da Praça do Comércio, a partir de quase todas as salas, pode-se espreitar o bulício da praça que também é terreiro. Em frente, está a estrada mais natural e continuação da cidade, o próprio Tejo.

 

A ligação com a antiga praça pode ser feita, por exemplo, com um quadro que representa o Paço Real antes do terramoto de 1755. O seixo rolado era, na altura, a regra na pavimentação – sobretudo na zona nobre em redor da Rua Nova dos Mercadores, então o centro comercial e financeiro da cidade. A pedra que a cobre veio do norte do país.

 

O olhar de quem visita as salas desta exposição pode ser histórico ou geológico, porque as duas camadas deram as mãos desde a Pré-História. Uma condiciona a outra. E o engenho faz a ponte ente as duas.

 

 

São muitas as pedras com que se fez Lisboa. Há 100 milhões anos, geraram-se formações geológicas que podem agrupar-se em cinco grandes grupos. O mais antigo deu origem aos característicos liozes, ricos em fósseis, com que se construiu o Aqueduto das Águas Livres, se reergueu a Baixa da cidade, depois do terramoto de 1755, ou se terminaram as obras de Santa Engrácia.

 

 

A herança geológica de Lisboa é, porém, mais vasta. Inclui basaltos de há 80 milhões de anos, cujas pedreiras foram exploradas para pavimentar ruas a partir da segunda metade do século XIX e biocalcarenitos amarelados, com 20 milhões de anos e com os quais se construíram o Teatro Romano, a Cerca Velha ou a Sé Catedral. Mas também densas camadas de argilas que, exploradas intensamente, contribuíram para o estatuto de Lisboa como centro de produção cerâmica durante parte considerável da sua história.

 

 

Quem é quem, em termos de materiais de revestimento, pode logo ser compreendido à entrada da exposição, quando se analisa à lupa a Rosa dos Ventos do Mosteiro dos Jerónimos. Apostamos que a experiência vai ser diferente, da próxima vez que a pisar num passeio por Belém.

 

Como era de prever, a calçada portuguesa está em destaque nesta exposição. Talvez muitos não saibam que a tradição é menos antiga que aquilo que o senso comum imagina. Corria o ano de 1842, quando o governador do Castelo de São Jorge, Eusébio Pinheiro Furtado, mandou construir uma calçada-mosaico que haveria de revolucionar o chão de Lisboa.

 

 

Recorrendo a um grupo de presidiários (por isso chamados grilhetas), concebeu um pavimento com blocos irregulares de calcário e basalto que formavam um padrão em ziguezague. O sucesso da obra levou a que o modelo fosse rapidamente aplicado nas principais ruas e praças de Lisboa e que a Câmara Municipal o adotasse na generalidade dos passeios, a partir de 1895.

 

 

A exposição homenageia também o labor dos calceteiros, imagem de marcada cidade. No Rossio, calcetado a partir de 1848, ensaiou-se, pela primeira vez, o desenho de mar ondulado, que foi depois utilizado no Calçadão do Rio de Janeiro, no Brasil. O consenso sobre a utilização de tal técnica na central praça lisboeta não foi imediato, como recorda ao Corvo Lídia Fernandes, uma das comissárias da exposição: “Durante grande parte do século, o Rossio perdeu o mar a favor dos carros. E a ondulação só voltou no início do século XXI”.

 

 

Debaixo dos nossos pés” foi imaginada há dez anos e preparada nos últimos dois. Um ápice em contas de arqueólogo. O tempo é o que fazemos com ele e, se pensarmos nos milhares de anos que separam o mosaico romano “Vénus descalçando a sandália”, encontrado em Santa Apolónia, e a Amália reinventada pelo artista plástico Vhils no chão do Largo de São Tomé, concluímos que a história usa a geologia para, no fim, tudo ligar como um ontem e um hoje não interrompido.

Uma coerência cronológica que esta exposição demonstra, ensinando e divertindo.

 

 

“Debaixo dos nossos pés”

Torreão Poente da Praça do Comércio

Até 24 de setembro, de terça a domingo, das 10h00 às 18h00

 

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One Response to A Lisboa que pisamos  

  1. Agora visita-se a cimpor pela quantidade de cimento que existe

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