Impresso na pele: exposição mostra a história da Lisboa boémia em tatuagens  

por • 14 Abril, 2017 • CULTURA, Reportagem, SlideshowComentários (9)151

Na exibição patente no Palácio Pombal, até 25 de junho, a tela é feita de pele verdadeira, humana. E o que nela está tatuado conta também, à sua maneira, a história e as estórias de uma certa Lisboa da primeira metade do século passado. Prostitutas, ladrões, rufias, marinheiros e outros personagens da cidade, com a sua vida impressa em tatuagens. Uma exposição destas merecia mais visitantes, mas também uma melhor promoção, acha O Corvo, que a foi ver.

 

Texto: Rui Lagartinho    Fotografias: Paula Ferreira      Vídeo: Álvaro Filho

 

É uma viagem a uma Lisboa muito mais canalha que a actual. Cheia de rufias, marinheiros, fadistas, guitarristas, prostitutas, vendedores ambulantes, ladrões, assassinos ocasionais ou a soldo. Arquétipos de quem habitava Mouraria, Alfama, Bairro Alto ou Cais do Sodré. Um boémia perigosa, que gostava de se distinguir e para quem a tatuagem era uma forma de assumir a pertença a uma comunidade.

 

Para muitos homens e algumas destas mulheres, a vida era sofrida e a morte trágica – implicava autópsia. São dezenas de pedaços de pele destas pessoas, guardados e conservados pelo Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (INMLCF), num período que abarca três décadas (1910-1940), que podem agora ser observados em “O mais profundo é a pele”, exposição patente até 25 de junho, no Palácio Pombal, e organizada pelo Museu do Design e da Moda (MUDE), em parceria com o referido instituto.

 

Cinco minutos depois de entrarmos no espaço da exposição, a ironia invade-nos. Estamos na Rua do Século, no coração do Bairro Alto, no edifício onde nasceu, em 1699, Sebastião de Carvalho e Mello, futuro Marquês de Pombal – que, se fosse contemporâneo dos possuidores das peles que aqui se expõem, teria tido para com eles mão pesada e nunca os deixaria entrar nestas salas. Divisões que, curiosamente, hoje se encontram com a sua “pele”, a parede, num estado de decomposição acelerado.

 

 

A exposição é uma babel de símbolos: corações, facas, serpentes, corpos nus, bandeiras, a imagem da República, a estrela de David, Fátima, futebolistas, Cristo na cruz, guitarras, o símbolo do Benfica, mulheres chinesas, lágrimas, bocas, a Beatriz Costa, marinheiros, âncoras, barcos, e até duas bandeiras que, juntas, celebram a aliança luso- britânica. Alguns símbolos estão gravados nos pedaços de pele expostos, outros foram desenhados em cadernos por alguns técnicos forenses, que reproduziam esses desenhos para memória futura.

 

 

A ciência médica e as ainda insípidas ciências sociais encontraram aqui uma fonte importante de estudo. Tudo junto, não deixa de ser uma reunião fortuita de símbolos que são a nossa identidade. Foi esse o objectivo do MUDE, ao organizar a mostra: “encontrar os traços portugueses, reflectindo sobre uma prática social mais vasta”, escreve-se nos textos que acompanham a exposição.

 

 

Algures no percurso, cita-se uma frase de Mia Couto, que comprova esta identidade nacional. “A saudade é uma tatuagem na alma: só nos livramos dela perdendo um pedaço de nós.” As dezenas de fragmentos de pele expostas agrupam-se em dois núcleos: num, simula-se um pequeno altar, capela que junta tatuagens de carácter pio ou religioso, enquanto o outro, dentro de uma caixa negra, toma a forma de um panóptico.

 

De facto, estes eram homens vigiados por todos os lados. E que se enquadravam na categoria dos “Homens infames”, uma classificação pensada pelo filósofo Michel Foucault, também aqui citado.

 

 

O Fado”, de José Malhoa, o mais famoso quadro da boémia portuguesa, também aqui está reproduzido. Sabe-se que o rei Dom Manuel II quis mitigar o realismo do traço de Malhoa, tendo pedido ao pintor que cobrisse as tatuagens de Adelaide da Facada, a fadista imortalizada com este quadro. Ficou apenas uma tatuagem no pulso, quase invisível.

 

Mais de cem anos depois, a tatuagem ganhou outro estatuto. E foi por isso que os organizadores da exposição convidaram cinco dos mais famosos ateliers de tatuagem portugueses a traduzirem em imagens esta exposição. Um núcleo onde se junta um vestido de Jean Paul Gaultier, em que um corpo está estampado no tecido.

 

 

Uma exposição original e ambiciosa, em que, curiosamente, o MUDE não parece acreditar. A sinalização na fachada do edifício, numa artéria movimentada, é inexistente. Com os museus de Lisboa a rebentar de visitantes, uma exposição original, pensada para públicos transversais e gratuita, tem tudo para ser um sucesso.

 

 

Além disso, duas semanas depois de abertura, não é disponibilizado ao público um simples folheto, guia, daquilo que se vai ver para, assim, poder partilhar com a família ou amigos. O que não se compreende, dada a qualidade cenográfica da exposição e a clareza científica e pedagógica dos textos, bem enquadrados historicamente, mas apenas impressos…nos painéis.

 

Mais informações: www.mude.pt/exposicoes

 

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9 Responses to Impresso na pele: exposição mostra a história da Lisboa boémia em tatuagens  

  1. Não fazia ideia, mal divulgado, sim. Vou ver!!!!

  2. Hugo Hugo Hugo Hugo diz:

    Uau ! Raquel Antunes .
    Fado/ fada .
    Amo.
    ✖️✖️✖️
    (Há algum catálogo ou livro sobre esta exposição?)

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