A Lisboa de Bordalo: uma exposição para descobrir o homem, o génio e a sua cidade

por • 10 Abril, 2017 • CULTURA, Reportagem, SlideshowComentários (1)138

Diz a lenda que, quando saía de casa para ir a São Carlos, Bordalo Pinheiro demorava horas para percorrer 230 metros. Parava para conversar, para se informar, para conspirar, para tirar notas. Uma exposição no Museu Bordalo Pinheiro, ao Campo Grande, inaugurada no final de março e que pode ser vista até junho, mostra como o artista olhou para a cidade e dela fez a protagonista do seu génio. O Corvo foi visitá-la.

 

 

Texto: Rui Lagartinho     Fotografia: Paula Ferreira     Vídeo: Álvaro Filho

 

 

Na “Lisboa de Bordalo”, temos a cidade aos nossos pés. Ao centro está um gigantesco Zé Povinho, ladeado de figuras típicas, que se deixavam ver pelas ruas nas últimas duas décadas do século XIX. Aquelas que Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) imortalizou com o seu traço e verve. Rodeados de ardinas, aguadeiros, marinheiros, criadas, galegos, vendedores de castanhas e fadistas, descobrimos Lisboa nas litografias e desenhos expostos na parede.

 

Os organizadores da exposição cartografaram nove núcleos da cidade que foram alvo da atenção do artista: Restauradores/Passeio-Público- Avenida; Chiado, Rossio/Baixa/Paços do Concelho/Terreiro do Paço; São Vicente/Alfama; São Bento; Ribeira/ Cais do Sodré; Belém/Ajuda; Fora de Portas e Rio Tejo.

 

Voltamos a encontrar o Zé Povinho, desta vez no seu contexto, sentado no epicentro deste pequeno mundo, o Rossio. Aponta para uma pequena árvore que tarda em medrar, mas que, o Zé garante, há-de crescer. É o Rossio, poderia ser o país.

 

 

Estamos na ressaca do fontismo, em que se pensava que Portugal ia descolar do seu provincianismo, com o dinamismo das obras impulsionadas por Fontes Pereira de Melo. Mas, na realidade, a cidade tarda a sair do seu marasmo, é uma aldeia de tribos. E é este mundo que Rafael vai parodiar nas páginas das publicações António Maria, Pontos nos ii e Paródia. Os políticos: ministros, família real, deputados e autarcas estarão sempre na berlinda.

 

Na sequência do ultimato inglês, num desenho nos Pontos nos ii, baptizado de “Depois do tratado”, D. José cede lugar à Rainha Vitória na estátua do Terreiro do Paço. O cavalo ganha orelhas de burro.

 

E nas páginas do António Maria, em Março de 1822, o quadro em que o Marquês de Pombal expulsa os jesuítas ganha, agora, o rosto do Zé Povinho, que aqui se apressa a expulsar a família real: “Vejam vóssorias o que eu faria se fosse o sr. Marquez de Pombal…

 

 

Causou grande polémica a primeira estátua integral de um nu masculino que figurava no frontão da Câmara Municipal de Lisboa. Em nome do pudor e dos bons costumes, rapidamente o jornal satírico António Maria propõe uma solução. “O frontão nu pelourinho” tem o rosto e o corpo coberto do presidente da autarquia Rosa Araújo. O mesmo Rosa Araújo que vamos encontrar, um pouco mais a norte, supervisionando as obras que iriam rasgar o Passeio Público, para dar lugar à comprida Avenida da Liberdade.

 

Nesta Lisboa, o Chiado é o umbigo. E é nesta aldeia cosmopolita, no Largo das Abegoarias, hoje Largo Rafael Bordalo Pinheiro, que o artista vive. Diz a lenda que, quando saía de casa para ir a São Carlos, Bordalo Pinheiro demorava horas para percorrer 230 metros. Parava, para conversar, para se informar, para conspirar, para tirar notas.

 

Num dos números de A Paródia, um desenho tem como legenda “Os três parlamentos”. Para além de São Bento, ganham estatuto político o Teatro São Carlos e o café do Martinho da Arcada. Os políticos guerreiam nestas páginas como rixa de gatos, que aqui se misturam pelos telhados. Bordalo chega mesmo a propor que a fábrica Nacional de Bolachas se desloque para São Bento, tantas eram as bolachadas entre parlamentares.

 

 

Os bombos da festa são os políticos dos partidos, regeneradores e progressistas, arquétipos dos “barrigas”, um tipo social que desce também às páginas dos jornais onde Rafael trabalhou.

 

Para respirar, Bordalo dá fé da abertura do Jardim do Zoológico ou da chegada dos touros a Entrecampos, a caminho da praça onde seriam lidados, então no Campo Santana. Era a Lisboa fora de portas, arrabaldes, um dos quais iria, mais tarde, acolher o Museu Bordalo Pinheiro, que hoje está, obviamente, dentro de portas.

 

Com esta exposição, um trabalho de João Alpuim Botelho, Mariana Caldas de Almeida e Pedro Bebiano Braga, todos da equipa do museu, é possível ficarmos com uma imagem mais ampla do artista, que não se reduz à de um excelente caricaturista. Bordalo era um bom aguarelista e o seu traço expressionista aproxima-o dos mestre das gravura do seu tempo.

 

Há uma mestria e um sentido jornalístico, onde o traço se aproxima do fotografia, como na litografia que retrata “A recepção de Capello e Ivens”, em 1885. Não era de ânimo leve e à toa que Bordalo gostava que o reconhecessem como jornalista.

 

Em Maio, o museu irá propor uma série de conversas sobre a “Lisboa de Bordalo” – o programa ainda não está fechado nem divulgado. Será organizada uma ou mais visitas in loco ao centro da cidade, altura em que muitos talvez reparem que a placa em cerâmica que baptiza o nome do Largo Bordalo Pinheiro poderia estar mais bem cuidada.

 

Museu Bordalo Pinheiro

Campo Grande, 382

Até Junho

 

Mais informações: museubordalopinheiro.cm-lisboa.pt/

 

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