Antigo Mercado de Xabregas renasce como a nova casa da escola de artes Ar.Co

por • 7 Março, 2017 • CULTURA, Reportagem, SlideshowComentários (12)1390

Depois de mais de quatro décadas na Rua de Santiago, na zona do Castelo, a Ar.Co mudou-se para o velho edifício situado na Rua Gualdim Pais, epicentro de uma área marcada pela degradação. O mercado construído durante o Estado Novo, e desactivado há mais de uma década, foi sujeito a obras. É agora mais um pólo de interesse numa zona de Lisboa que tem vindo a atrair cada vez mais gente. As artes e a cultura podem bem vir a ser o ponto de partida para resgatá-la ao esquecimento e, assim, cumprir a esperança nascida após a Expo’98. Há vida nova por ali. Mas nada de comparações com o Intendente.

 

Texto: Samuel Alemão       Fotografias: Nuno Martinho e O Corvo*

 

A alvura das paredes pintadas há pouco em perfeita sincronia com a limpeza da pedra trabalhada sublinha a simplicidade do traço de um edifício há muito desligado da sua função original. E ajuda a destacá-lo da paisagem em redor, cujo desalinho parece, na tarde em que O Corvo o visitou, unir-se ao céu num tecido impressionista de tons cinzentos carregados. Instalado no antigo Mercado de Xabregas, o novo edifício da escola de artes Ar.co – Centro de Arte e Comunicação Visual, cuja inauguração acontecerá esta quinta-feira (9 de março), pelas 18h, irrompe como uma lança de optimismo e generosidade criativa numa zona de Lisboa, desde há décadas, enredada na decadência e no olvido. Uma mudança tornada possível após a assinatura de um protocolo com a Câmara Municipal de Lisboa (CML), em 2013.

 

“A vinda do Ar.Co para aqui é o movimento mais significativo nesta zona, nos últimos anos”, afirma João Paulo Feliciano, artista convidado para a abertura, onde fará uma actuação musical com Rui Toscano e exporá a série fotográfica “Xabregas City, 2015-2016”. O título da exposição, cuja montagem encontrámos a ser coordenada pelo seu criador na sala destinada à programação, revela uma ironia que, porém, denota apenas a superfície do olhar em relação a um território que tão bem conhece. Comprou casa naquela zona em 2000, tendo-se para lá mudado dois anos depois, quando existia ainda a expectativa de toda a distância compreendida entre Santa Apolónia e o recinto da Expo 98 ser contaminada pela onda regeneradora trazida pela exposição universal dedicada aos oceanos.

 

 

Promessa que ficou por cumprir. Mas que a acumulação, nos últimos tempos, de diversos sinais de interesse pela área, por parte de múltiplos agentes, parece deixar antever uma tendência da qual já se fala há algum tempo. Fenómeno reconhecido por Manuel Castro Caldas, o director da escola, que O Corvo encontrou a conversar com João Paulo Feliciano. “Parecia um sítio remoto e não estaria, de todo, nos nossos planos, mas revelou-se um lugar interessante. Há anos que vínhamos notando que havia diversos artistas e ateliês a instalarem-se aqui. Só no último ano e meio, abriram três galerias”, conta o responsável, num tom de voz sereno, próprio de quem tem a paciência como conselheira. A mudança para o antigo mercado, situado na Rua Gualdim Pais, é o desfecho de uma longa espera.

 

Afinal, desde os anos 90 que se falava na mudança da Ar.Co para outras instalações, mais funcionais, com tamanho à medida da importância desta academia criativa, nascida em 1973, na Rua de Santiago, perto do Castelo de São Jorge. Havia uma necessidade e o facto de a CML ter mostrado interesse em colaborar permitiu supri-la. “Começámos os contactos com esta vereação em 2008, que teve muito boa vontade. O que sabíamos, quando começámos a conversar, era que precisávamos de um espaço em que a escola coubesse, não tivesse as limitações que tinha no Castelo, onde o turismo tornou tudo impossível, nos último anos. Além disso, teria que ser algo que pudéssemos pagar e fosse um sítio com alguma acessibilidade”, enuncia, antes de admitir a relativa surpresa que acabou por ser a escolha do mercado desactivado há pouco mais de uma década.

 

 

Cumprir última prerrogativa, a da acessibilidade, não parecia ser algo evidente, dada a fraca oferta de transportes públicos naquela zona. Mas Castro Caldas garante que o lugar “é até mais acessível do que o Castelo, para alguém que vem de Almada”, onde a Ar.Co tem um pólo, na Quinta de São Miguel. Para além disso, existe já uma rede de agentes culturais e artísticos, com os quais é possível estabelecer uma relação, e que se poderão sentir ali tão isolados quanto o Ar.Co. São os casos, para além dos ateliês e galerias, do Museu Nacional do Azulejo e do Teatro Ibérico. Uma alusão sugerida após questionarmos se não teme que a escola acabe por estar em Xabregas como um OVNI. “Somos tanto um OVNI, quantos os outros também o são. O território já está pontilhado de pólos de actividade, há que preenchê-lo”, diz.

 

E existe muito por preencher numa zona da cidade que sempre pareceu mais uma espécie de arrecadação desarrumada de Lisboa, esquecida há muito pelos poderes públicos e olhada com desprezo pelos privados. A pobreza e o desordenamento territorial são marcas bem evidentes, embora já contrabalançadas pelo dinamismo cultural e comercial recente. De repente, muita gente descobriu que ali também era Lisboa. “Isto é gigante, estamos a falar de uma área que representa um quinto da malha urbana de Lisboa e que está por definir”, diz João Paulo Feliciano, referindo-se ao espaço da área oriental da capital ocupado sobretudo pelas freguesias de Marvila e Beato.

 

(Foto: O Corvo)

 

Algo que pode constituir um potencial enorme, considera o artista plástico e músico, se a CML souber aproveitar o que parecer ser o início de uma dinâmica, “se tiver um visão forte, para esta área, não definida apenas a partir dos seus gabinetes, mas a partir daqui”. E não vale a pena fazer comparações com o processo de regeneração do Intendente, porque “cada zona tem um passado histórico distinto”, avisa, no que é secundado por Manuel Castro Caldas. “As analogias têm de ser feitas com muito cuidado”, avisa Feliciano. Mais importante será que os habitantes de longa data deste conjunto diversificado de velhos núcleos urbanos situados a Este de Santa Apolónia se sintam ouvidos e bem tratados por quem decide.

 

(Foto: O Corvo)

 

Algo para que poderá contribuir também a Ar.Co – tendo-se o projecto da nova casa tornado possível pela colaboração da administração central, da CML e ainda dos mecenas privados Fundação Calouste Gulbenkian, a Fundação Carmona e Costa, a Fundação Millenium-BCP e a família Soares dos Santos. A escola de artes, que já está instalada no antigo mercado desde janeiro deste ano – depois de uma intervenção com assinatura do arquitecto João Santa Rita -, pretende ter uma programação regular, cumprindo a sua missão de divulgação. E atraindo para ali gente que não estava habituada a ver as virtudes do local. Como os alunos da lição de ilustração dada pelo artista Nuno Saraiva, que ao Corvo, confessou: “Este é um espaço fantástico, com uma luminosidade maravilhosa, que entra por estes janelões”.

 

(Foto: O Corvo)

 

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12 Responses to Antigo Mercado de Xabregas renasce como a nova casa da escola de artes Ar.Co

  1. Pedro Duarte diz:

    Enquanto morador de Xabregas, descendente de três gerações de moradores de Xabregas, é com muita alegria que vejo a chegada do Ar.Co, onde inclusive já estudei. Mas quero condenar o tom repugnantemente elitista, classista, preconceituoso do jornalista quando diz “existe muito por preencher numa zona da cidade que sempre pareceu mais uma espécie de arrecadação desarrumada de Lisboa (…) A pobreza e o desordenamento territorial são marcas bem evidentes”. O jornalista está enganado: a zona oriental de Lisboa é uma zona habitada, repleta de vida, onde sou muito feliz tal como ela está, e onde gosto de viver porque ela é como é. Se quisesse viver numa malha urbana clássica mudava-me para o Areeiro. Não quero. Como não quer muita gente. Quando é que estas pessoas do centro deixam de pensar que queremos todos ser como elas e de se ver a si como modelo a impor aos outros? Os moradores do Beato não querem que o Beato seja o Castelo.
    Se, como diz João Paulo Feliciano “De repente, muita gente descobriu que ali também era Lisboa.”, essa ignorância não é culpa do bairro, é culpa de quem é ignorante.
    Também João Paulo Feliciano está errado quando diz “estamos a falar de uma área que representa um quinto da malha urbana de Lisboa e que está por definir”. Não! Não está por definir! Lá por uma coisa não se enquadrar na norma não significa que não esteja definida! Está definida: é assim. Queremos viver em Lisboa como se vivêssemos no campo. Não queremos prédios. Não queremos Braço de Prata Silver Living Concept. Não queremos Expo 98 (respeito quem goste do Parque das Nações, mas é na minha opinião a freguesia mais feia de Lisboa. Ninguém defende que o Parque das Nações seja como Marvila ou o Beato, porque tem agora Marvila e Beato de ser como o parque das nações? Não pode haver espaço para modelos diferentes? Ou a especulação imobiliária falará mais alto e continuará a destruir a cidade?
    Em resumo: não senhor jornalista, quando um bairro é habitado por pessoas pobres não significa que esteja abandonado. Os pobres também são pessoas.
    Estes senhores que vão à hora de almoço a qualquer dos restaurantes da Rua de Xabregas e vejam se estão vazios. Têm tanta gente quanto os da Baixa. Com muitas vantagens, como o facto de haver espaço para a indústria, prédios baixos aos quais se deve a tal luminosidade única da zona, etc.
    Não queremos mudar isso. Não queremos ser “reabilitados”. Achamos que é o centro, que perde população para os hostels sem parar, que precisa de ser reabilitado. Aqui estamos bem. Só “é OVNI” quem se comporta como OVNI. E vejam a ironia: é o OVNI que nos vem dizer “têm de ser reabilitados porque são uma dispensa desarrumada”. Cheira-me a fascismo.

    • Inês Rodrigues diz:

      Bravo!

    • João Paulo Feliciano diz:

      Pedro, estou muito mais de acordo consigo do que possa parecer. Só não partilho o tom. Aproveito para corrigir o verbo que usei: desenhar, em vez de definir. E quando digo desenhar não estou a pensar em empreendimentos, urbanizações, condomínios. Gosto muito de Xabregas como é. Mas pode, deve e vai ser melhor. Entre 2009 e 2015 vi fechar muitos armazens, oficinas, restaurantes, cafés, lojas, mini-mercados, padarias… e muitas casas ficarem vazias. Não gostei de ver esta zona ficar deserta. Estou contente que ganhe outra(s) vida(s). // só para registo: vivo e trabalho em Xabregas há 15 anos.

    • Jorge Ferreira diz:

      Caro Pedro Duarte, como morador em Xabregas por opção estou totalmente de acordo com o seu comentário… nada posso acrescentar. Bem haja!

  2. Paulo Branco diz:

    A Oriente, tudo de novo.

  3. Ainda bem já era tempo do mercado ter levado uma volta

  4. Fui estudante do Arco e fiquei eternamente amigo do Arco. Nessa qualidade, acompanhei o projecto e as obras do mesmo no Mercado de Xabregas. É com grande orgulho e alegria que vejo a escola instalada num espaço tão carismático como o do mercado. Xabregas tem a suas virtude e defeitos como qualquer outro espaço na cidade. Não sou morador mas defendo a ideia de que Xabregas tem a ganhar em manter a sua identidade e desenvolver-se de forma “sui generis”. Como arquitecto, faço votos para que os projectos de desenvolvimento urbano sejam sensíveis às características próprias da zona. A escola Arco, essa, tenho a certeza que será uma mais valia para a zona.

  5. Maria Augusta Sequeira diz:

    muito bem.

  6. António Jorge diz:

    Em total acordo com as palavras do Pedro Duarte.
    Toda essa gente, que tem repúdio pela zona Oriental da cidade, entram em total contradição, quando por aqui vêm, encher restaurantes e tascas, assistir a espetáculos na Fábrica de Braço de Prata, Teatro Meridional e etc. mais não digo, venham à descoberta, para ficarem agradávelmente surpreendidos, tal como muita imprensa internacional e nacional.
    Quanto à Ar.Co só posso dizer: Sejam bem vindos!

  7. António Jorge diz:

    Em total acordo com as palavras do Pedro Duarte.
    Toda essa gente, que tem repúdio pela zona Oriental da cidade, entram em total contradição, quando por aqui vêm, encher restaurantes e tascas, assistir a espetáculos na Fábrica de Braço de Prata, Teatro Meridional e etc. mais não digo, venham à descoberta, para ficarem agradávelmente surpreendidos, tal como muita imprensa internacional e nacional.
    Quanto à Ar.Co só posso dizer: Sejam bem vindos!

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