Olá, fala o presidente da junta!

por • 24 Fevereiro, 2017 • Reportagem, Slideshow, VIDA NA CIDADEComentários (1)421

André Couto, o presidente da Junta de Freguesia de Campolide, responde em directo online às perguntas e críticas dos fregueses. Através de uma emissão semanal, ao final da manhã de quinta-feira, no canal de vídeo do Facebook da junta, o autarca socialista tenta cultivar uma relação de proximidade com quem reside naquela área da cidade. E logo ali promete resolver os problemas que lhe são apresentados. O Corvo assistiu a uma hora e meia de discurso, sem interrupções e sem recurso à garrafa de água. Promoção pessoal? Marketing político? Nada disso, garante.“Não trabalho em especial junto às eleições, mas em todo o mandato”, diz.

 

Texto: Samuel Alemão        

Fotografias: João Barata (JF Campolide) e O Corvo*

 

“Mafalda, vamos fazer o seguinte. Mal esta sessão esteja terminada, assim que eu desligue, a primeira coisa que vou mandar fazer é que se proceda à reparação dessa calçada ainda hoje. Assumo esse compromisso aqui consigo”. André Couto (PS) é homem de verbo expedito e fluído. E não gosta de deixar nada nem ninguém sem resposta. Durante quase hora e meia, ao final da manhã (11h) desta quinta-feira (23 de fevereiro) respondeu, sem pausas, através de uma emissão vídeo em directo no Facebook da junta, às perguntas de quem o quisesse inquirir sobre os problemas da freguesia de Campolide. Sentado à sua secretária, com o portátil à frente e falando na direcção do smartphone que garantiu a transmissão, falou de forma incessante, motivado por cada dúvida ou reparo.

 

Foi a terceira edição de uma rubrica semanal que pretende auscultar de forma mais directa a população, e já qualificada como um “sucesso” pelo presidente de autarquia. “Se, por ventura, hoje não conseguirmos resolver a situação, por termos alguma obra em mão, resolvemos o assunto amanhã, o mais tardar. Gostamos de mostrar rapidez de intervenção”, diz, confiante, após se comprometer a reparar o piso pedonal da Rua Soares dos Reis, situação denunciada por uma das participantes no fórum. Ao longo da sessão do consultório interactivo a que O Corvo assistiu, no gabinete do edil de 34 anos e que ocupa o cargo desde 2009, foi dada resposta a 23 perguntas de fregueses e até de quem reside noutros locais. Apenas uma questão ficou por receber a respectiva réplica, por ter chegado já depois do fim da emissão.

 

(foto: O Corvo*)

 

Poucos minutos antes do início da sessão – que acabou por ter 43 pessoas a assistir em simultâneo no pico de audiência -, André e a responsável de comunicação da junta, Sofia Julião, conferiam a existência, naquela altura, de apenas cinco perguntas, três das quais recebidas na véspera e as restantes naquela manhã. Já a postos, o autarca lê e sublinha com um marcador fosforescente os aspectos que considera mais relevantes das interpelações populares. Troca impressões com Sofia sobre o vídeo anexo a uma das questões de um cidadão, e no qual se pode ver o aspecto que ele denuncia como sendo o desleixado estado de conservação de um pavimento, após a intervenção feita na Rua General Taborda. Já passam dois minutos das 11h, o presidente da junta verifica mais uma vez a caixa de mensagem, ajusta o suporte do telemóvel e diz “está na hora, vamos então começar”.

 

Depois de dar os bons dias, André Couto faz o enquadramento da intervenção, lembrando que responderá às questões enquanto presidente da junta e membro da Assembleia Municipal de Lisboa, onde tem assento por inerência do cargo. Fazendo a ressalva que não poderá indicar soluções para assuntos que sejam da competência da Câmara Municipal de Lisboa (CML), “por não fazer parte do executivo”, André diz que isso não é impeditivo de serem ali abordados todos os assuntos relativos à sua circunscrição e de “se discutir cidade”. E, no caso de Campolide, eles estão, sobretudo, relacionados com o espaço público, a fazer fé na natureza das perguntas enviadas. Todas elas tinham que ver com essa área, fossem sobre o estado dos pavimentos, sobre o estacionamento, os espaços verdes ou equipamentos diversos. A primeira dúvida da manhã a merecer resposta foi sobre a construção de um parque infantil no Bairro da Calçada dos Mestres, sobranceiro ao Aqueduto das Águas Livres. Nessa altura, já 37 pessoas estavam a assistir à sessão de esclarecimento online.

 

 

Depois de falar sobre o iminente início das obras do Corredor Verde de Alcântara – projecto da CML que criará um contínuo vegetal que o presidente da junta de Campolide não tem dúvidas em qualificar como “espaço de referência em Lisboa, mas também na Europa” -, o autarca responde à tal questão da Rua General da Taborda. O vídeo enviado mostra secções do pavimento não alcatroadas. André Couto avisa o freguês de que “a obra de requalificação do espaço público ainda não se encontra concluída”, estando o final da mesma previsto para 9 de março, de acordo com a informação recolhida junto do empreiteiro. “Passei lá de manhã, antes de vir para aqui, à paisana, para ver como estavam os trabalhos. Peço-lhe paciência, isto estará resolvido em breve”, diz, num apelo balsâmico, repetido em mais um par de situações.

 

André Couto evidencia ser um comunicador nato. Percebe-se que gosta de falar e fá-lo de forma articulada, num ritmo cadenciado e com uma dicção relaxada. Está à vontade com as palavras. Tanto quanto parece estar sobre os dossiês e os assuntos que lhe vão sendo apresentados pelos cidadãos. Durante a emissão em directo no Facebook, a sua postura e a sua retórica são pautadas por um misto de optimismo e de racionalismo tecnocrático. Nem mesmo o arreliante e inesperado ruído de um berbequim eléctrico na sala ao lado – que levam a assistente Sofia Julião a gesticular, em três ocasiões, a um dos funcionários, instando-o a pôr cobro a tal chinfrim – o parecem perturbar. Quem vê o presidente da Junta de Freguesia de Campolide na transmissão observa a sua camisa branca engomada, mas não vê as calças de ganga e os ténis de estilo urbano a sublinharem-lhe uma pose relaxada.

 

(foto: O Corvo*)

 

Mesmo ante as críticas de alguns intervenientes na sessão, o autarca não parece vacilar. “Temos de assumir de peito aberto que as coisas não correram bem”, concede, a certa altura, sobre o projecto de reabilitação da Rua Eduardo Malta, que já deveria ter sido concluído em 2013, mas apenas agora deverá começar. “Tudo o que podia correr mal correu”, reconhece. Pouco depois assumirá o erro na decisão de retirar certa passadeira, da responsabilidade da câmara. Alguém o questiona sobre o mau estado do piso do parqueamento automóvel no largo situado nas traseiras da junta, e para o qual o seu gabinete tem vista – um soturno cenário de sucessivas retaguardas de prédios altos. O munícipe é informado de que a junta propôs à EMEL a transformação do espaço numa bolsa de estacionamento para residentes. Lá ao fundo, num dos andares, uma mulher de meia-idade estende a roupa na corda.

 

Quando termina a sessão – na qual teve tempo para discordar de um amante da arte urbana que lhe perguntara porque insistia a junta em pintar de cinzento as paredes e não “legalizava as pinturas” -, André repara que não havia aberto sequer a garrafa de água colocada em cima da mesa, apesar de ter estado quase uma hora e meia a falar em contínuo. “O que vale é que até não gosto muito de falar”, diz, sem se aperceber da ironia involuntária. Tanto gosta que, a dada altura, até teve tempo de mandar uma “bicada” aos outros partidos, quando respondia a uma pergunta de uma freguesa. “Gostaria de ter uma oposição mais forte do que aquela que tenho e nisto estou a ser sincero”, afirma, numa referência ao alegado silêncio dos outros partidos ao convite para participarem na elaboração de um documento contendo a definição dos principais desafios do próximo mandato, a iniciar no final do ano, após as eleições autárquicas.

 

 

Quando o Corvo questiona André Couto sobre se não teme ser criticado por, com estas sessões, estar a fazer algo que pode ser visto já como parte da campanha eleitoral, responde: “Estou em campanha desde que aqui cheguei, em 2009. E, nessa matéria, estou descansado porque não trabalho em especial junto às eleições, mas em todo o mandato”. Benfiquista, confessa que se inspirou no jogador Bernardo Silva, agora no Mónaco, quando este deu uma resposta espirituosa em directo na televisão a uma adepta do Sporting que o tentava convencer a ingressar no seu clube. “Achei aquilo fantástico. Se um jogador de futebol faz isto, por que é que um político não faz a mesma coisa?”, interroga-se. As emissões semanais de quinta poderão vir a passar do período matinal para o nocturno, respondendo aos apelos de alguns fregueses.

 

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One Response to Olá, fala o presidente da junta!

  1. Sim sim ainda lhe telefono qq dia …

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