O novo bar da Rua Cor-de-Rosa, no Cais do Sodré, também é uma livraria. E vice-versa

por • 20 Fevereiro, 2017 • Reportagem, SlideshowComentários (0)582

“Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe.” Começa assim o clássico do século XVI de Bernardim Ribeiro, inspiração para o nome do novo espaço comercial que faz os livros chegarem à rua mais animada do Cais do Sodré. Menina e Moça é um bar-livraria, aberto também a concertos, recitais de poesia ou tertúlias. Há turistas e viajantes a saírem com livros de poetas portugueses.

 

Texto: Rui Lagartinho             Fotografias: Paula Ferreira

 

Lisboa: dos poetas que sobre ela e nela escreveram, cidade biografada, fotografada, desaparecida. Lisboa dos roteiros para caminhantes, dos petiscos. Dos azulejos. Do fado. Todos estes temas enchem os primeiros livros – em português ou traduzidos – com que o visitante cruza o olhar, ao entrar na livraria que também é um bar, a Menina e Moça, na Rua Nova do Carvalho, ao Cais do Sodré, nos últimos anos conhecida sobretudo como a “rua cor-de-rosa”.

 

“O Cais do Sodré é um local onde chegavam marinheiros. Um porto. Quis preservar esse ritual de chegada ao cais. E acho que vai funcionar: já vários turistas e viajantes entraram e partilharam as suas experiências no placard que está na parede. É bom vê-los partir, com poesia de autores portugueses na bagagem.”

 

Cristina Ovídio, editora, está a viver um sonho, neste mês de Fevereiro em que a Menina e Moça abre as portas. Um espaço onde cada detalhe foi sopesado, pensado. As mesas são baixas para que a escala das prateleiras se agigante e nos faça sentir que estamos numa sala em que cada livro é um tesouro.

 

 

De uma ponta à outra da livraria, há um friso com dezenas de fotos alinhadas, a maioria tiradas por João Francisco Vilhena, um fotógrafo que gosta de escritores. O alfabeto ditou que Adília Lopes iniciasse o friso da glória, que é encerrado por Vitorino Nemésio.

 

“Este é um espaço onde quero ver afirmada a lusofonia, a qual quero também estimular nas actividades que pretendo dinamizar, sejam elas concertos, lançamentos de livros, recitais de poesia ou tertúlias” explica-nos Cristina Ovídio.

 

 

Entre o céu da livraria ilustrado por João Fazenda e as estantes, estão vários arcos onde se anicham os livros trazidos da biblioteca do seu pai, António Manuel Baptista, um nome pioneiro entre os comunicadores da televisão portuguesa . Semanalmente, na RTP, explicava ciência aos portugueses com o mesmo entusiasmo que Maria de Lurdes Modesto cozinhava ou João Villaret dizia poesia.

 

É que se Cristina – “levada de casa de minha mãe para muito longe”, diz agora, recorrendo a uma metáfora que, em menina, lhe permitia ser estimulada para fazer casas de palha – subiu às árvores e espreitou o vinho que o seu avô produzia, em Almeirim, foi para que os afectos nunca se lhe perdessem.

 

 

Está uma tarde de sol na Rua Nova do Carvalho, que há uns anos (2011) ganhou o nome de “rua cor-de-rosa”, quando foi fechada ao trânsito e viu o chão pintado. Nessa altura, os bares que ficaram na moda acantonaram os bares tradicionais. A esta hora, há tranquilidade, e apetece pedir uns scones denominados de uma família inglesa ou um pastel de nata, que aqui tem o cognome de Amor de Perdição.

 

Mas à noite, sobretudo depois do Bairro Alto fechar, meia Lisboa desagua aqui. Será que alguém, a essa hora, irá comprar livros? A Menina e Moça é também um bar. “O Carlos Santos, o nosso homem dos cocktails, inventou uma série de bebidas inspirados na Lusofonia. O Menina e Moça é uma mistura fina de ginja, medronho, soda e limão. Há também uma recheada carta de vinhos. Mas, quando for a cerveja a dominar os pedidos e a rua encher e transbordar para a livraria, existem umas redes estilo pescador que caem sobre os livros, para os proteger e a livraria segue dentro de momentos”, exemplifica a proprietária.

 

 

Cristina Ovídio pertence a uma geração que acabou muitas noites a dançar no Jamaica, viu nascer o Jukebox, descobriu a Pensão Amor e frequenta as noites de poesia do Povo. Conhece o chão que pisa e não tem dúvidas: “Os livros também cabem na rua cor de rosa.”

 

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