Junta de Freguesia do Beato usou até agora herbicida suspeito com glifosato

por • 14 Fevereiro, 2017 • Actualidade, SlideshowComentários fechados em Junta de Freguesia do Beato usou até agora herbicida suspeito com glifosato754

Apesar de saber das fortes dúvidas sobre as reais consequências para a saúde humana do uso em espaço público de herbicidas com glifosato – que, tal como outros pesticidas, viu a sua aplicação proibida por um decreto-lei, a 26 de janeiro –, a Junta de Freguesia do Beato tem recorrido à sua utilização. Nas passadas quarta-feira (8 de janeiro) e quinta-feira (9 de janeiro), os serviços da autarquia procederam à aplicação do produto fitofarmacêutico Round Up Ultra, da multinacional Bayer, na zona de Xabregas. Os avisos à população foram colocados em vários locais da Rua de Xabregas, na segunda-feira da semana passada (6 de fevereiro), neles se alertando os passantes nas áreas sujeitas a pulverização para a necessidade de tomada de precauções.

 

Ou seja, o produto foi, com toda a certeza, usado pelo menos até quatro dias antes da entrada em vigor da proibição total da sua utilização, a partir desta segunda-feira (13 de janeiro), de acordo com a listagem oficial sobre os herbicidas existentes no mercado, disponível no sítio da Direcção-Geral da Alimentação e Veterinária (DGAV) – segundo a qual, o mesmo produto teve a sua venda interrompida a 13 de fevereiro de 2016, há precisamente um ano. Apesar disso, o presidente da junta, Hugo Xambre (PS), contactado pelo Corvo, disse, num primeiro momento, desconhecer a situação. Pouco depois, tendo questionado os seus serviços, reconheceu o uso, que lamentou. “Os últimos lotes do produto foram adquiridos em janeiro de 2015. Mas já dei ordem para nunca mais os usarem”, diz.

 

Quando, de início, foi confrontado com a informação da utilização na Rua de Xabregas, o presidente da junta mostrou-se surpreendido, até porque, garante, a autarquia “tem vindo a adoptar práticas e métodos de substituição do produto em causa, nomeadamente a monda térmica ou soluções com ácido acético”. Ainda assim, Hugo Xambre admitia a existência em armazém de “stocks antigos” de Round Up Ultra, cuja utilização os seus serviços teriam vindo a reduzir. Desde que se começou a intensificar o debate sobre este questão, ao longo dos últimos dois anos, a autarquia foi mitigando os eventuais efeitos nocivos da aplicação deste herbicida – cujo potencial cancerígeno não está totalmente comprovado – com o recurso “ao método misto” da sua diluição numa solução de vinagre. Ao mesmo tempo, ia experimentando mondas térmicas a 90 graus.

 

Depois de averiguar junto dos seus serviços e de uma das vogais do executivo o que realmente se havia passado, o presidente da junta – que se encontra em regime de “não permanência” e não se poderá recandidatar nas próximas eleições autárquicas, neste ano – admitiu o uso do fitofarmacêutico no espaço público da freguesia. “Algo que não deveria ter acontecido”, reconheceu. “Já dei ordens para que nunca mais voltem a utilizar. Além disso, foram também desencadeados procedimentos para contactar uma empresa especializada na reciclagem destes produtos químicos, a fim de nos desfazermos dos restos de stock que ainda temos”, explicou, antes de especular que talvez os funcionários “tenham visto o produto numa embalagem e pensado, de forma errada, que nas zonas com menos pessoas não haveria tantos problemas na sua utilização”. Em todo o caso, Hugo Xambre diz não pretender passar culpas para ninguém, assumindo-se ele como “responsável por tudo o que a junta faz”.

 

O autarca do Beato garante possuir especial sensibilidade ao tema, até por ser formado em química, tendo sempre acompanhado favoravelmente todas as medidas e votações tendentes a diminuir ou eliminar o uso dos herbicidas com glifosato. Por isso, juntou-se à votação da recomendação, aprovada por unanimidade na Assembleia Municipal de Lisboa, a 18 de outubro, “Pelo fim imediato da utilização de herbicidas/glifosato no espaço público de Lisboa”. Nela, apela-se à Câmara Municipal de Lisboa que “elimine a utilização de produtos fitofarmacêuticos em espaço público, de forma progressiva e tão célere quanto possível, exceptuando situações de comprovada ausência de alternativa viável, devidamente comprovadas e acompanhadas de medidas de segurança que evitem o contacto directo de pessoas e animais com estes produtos químicos”.

 

Nota: Texto editado às 19h de 14 de fevereiro. Clarifica que o presidente da junta se encontra em regime de “não permanência”, e não a “meio-termo”, como havia sido escrito.

 

Texto: Samuel Alemão

 

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