Miradouros de Lisboa: um roteiro para aproveitar o sol de Inverno

por • 25 Janeiro, 2017 • Reportagem, SlideshowComentários (5)911

É fácil esquecermo-nos deles. Lá do alto, os miradouros de Lisboa continuam a vigiar o rebuliço da cidade, com uma calma tão etérea quanto paradoxal. Há turistas, esplanadas, cães levados pela trela, estaleiros de obras, olhares deslumbrados e também tempo para dois dedos de conversa com alguns moradores, para quem estes cenários fazem já parte do quotidiano. De Arroios à Misericórdia, o Corvo propõe um roteiro para aproveitar as melhores vistas da capital, sempre com o Tejo como pano de fundo.

 

Texto: Pedro Arede          Fotografias: Paula Ferreira

 

O azimute está traçado. Apesar do frio, o tempo convida a um passeio e, por isso, o melhor mesmo é começar a pôr um pé à frente do outro, não só para aquecer, mas também para alcançar o primeiro miradouro do nosso percurso, a tempo de ver o dia nascer. Do Monte Agudo, nos Anjos, ao Miradouro de Santa Catarina (Adamastor), na Misericórdia, passando naturalmente pela Graça e outros patamares elevados da capital, o Corvo fez-se ao caminho para mirar Lisboa, a partir de alguns dos seus melhores pontos de vista:

 

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  1. Miradouro do Monte Agudo

 

Para quem vem a pé desde o metro dos Anjos, subir ao Monte Agudo pode ser penoso, mas é uma recompensa pela qual vale bem a pena lutar. Acessível pela Rua Heliodoro Salgado ou através da escadaria da Rua Ilha do Príncipe, o Miradouro do Monte Agudo remonta ao ano de 1950 e parece, por enquanto, ainda não ter sido incluído nos roteiros turísticos tradicionais, dada a pacatez que se sente, mesmo nas horas habitualmente mais movimentadas.

 

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A envolvência dos pinheiros oferece sombras e intimidade e os bancos de pedra, abrigados pela pérgula, abrem-se sobre uma ampla vista que tanto deixa ver o Tejo lá ao fundo, como a zona das Avenidas Novas. Virado para Sul, é possível imaginar o caminho que temos pela frente e antecipar a vista privilegiada que teremos a partir de alguns dos pontos mais altos.

 

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Vazias, algumas garrafas de cerveja fazem-nos imaginar um fim de tarde memorável ali passado entre amigos, na véspera. João tem 30 anos e, juntamente com a namorada, veio passear a cadela Sweetie, já acostumada a farejar todos os recantos daquele espaço. “Apesar de morar aqui, este miradouro é especial e não é tanto pela vista. É mais reservado. É um ponto de encontro aqui no bairro”, conta ao Corvo.

 

 

 

  1. Miradouro da Senhora do Monte

O Tejo é ainda uma miragem quando nos colocamos a caminho da próxima paragem. O Miradouro da Senhora do Monte, na Freguesia de São Vicente (Graça), fica sensivelmente a 15 minutos do Monte Agudo, se optarmos por fazer o caminho a pé, através da rua da Penha de França e da Rua da Graça.

 

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Subir, por fim, a Rua da Senhora do Monte é uma demonstração de vontade que merece ser valorizada e que termina de forma ofegante. Mas o fôlego é instantaneamente recuperado assim que somos engolidos pela vista deslumbrante daquele que é um dos pontos mais altos de Lisboa. Além do Castelo de São Jorge e do bairro da Mouraria, dali avista-se ainda a Baixa Pombalina, as Ruínas do Convento do Carmo, Monsanto e a Penha de França.

 

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Ali, onde D. Afonso Henriques terá instalado o acampamento durante a conquista da cidade de Lisboa, podemos ainda visitar a capelinha de Nossa Senhora do Monte (ou ermida de São Gens), onde resiste a antiga tradição, seguida por mulheres grávidas, de sentar na cadeira de São Gens, para pedir uma “hora pequena”.

 

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É difícil encontrar quem fale português entre os turistas que contemplam esta vista da capital. Inês tem 25 anos e mora a poucos metros do Miradouro da Senhora do Monte. Apesar de admitir ainda não ter tido “muito tempo para aproveitar”, confessa que o miradouro foi o que a mais atraiu na hora de escolher aquela zona para viver. “Sempre que cá venho à noite, há qualquer coisa de mágico nas luzes da cidade e neste ponto de vista, que me faz sentir em casa”, explica ao Corvo. “Mal cheguem os dias de Verão, o miradouro será a minha varanda”, prometeu.

 

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  1. Miradouro da Graça

Uma caminhada de cerca de 10 minutos pela Calçada do Monte acerca-nos de mais uma “varanda” com uma vista única sobre Lisboa. É impossível deixar de reparar nas obras que dividem o Miradouro da Graça, transfigurando o seu aspecto habitual. Um grupo de ciclistas prepara-se para partir em viagem e um homem vai acertando um pedaço de pão com uma faca, enquanto observa o Castelo de São Jorge, a Ponte 25 de Abril e outros pontos de referência da cidade, possíveis de observar dali com algum detalhe, como a praça do Martim Moniz, a Baixa ou o até mesmo o Miradouro de São Pedro de Alcântara.

 

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Não há dia em que Joaquim não faça uma visita matinal ao miradouro da Graça. Em cima do parapeito, um saco de plástico azul de onde tirou uma pequena garrafa de vinho, pão e queijo, que faz questão de partilhar com os pardais, enquanto admira a paisagem. “Venho todos os dias para aqui. Até lhe sei dizer que, por hora, passam aqui 20 aviões. Já os contei”, confessa.

 

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“Isto aqui é muito bonito. Se tivesse de legendar o que acabei de assistir há pouco, por exemplo, chamava-lhe: A Chaminé da Gaivota. Estavam ali ainda agora duas gaivotas a trocar beijinhos em cima do telhado. Foi uma pena não ter chegado mais cedo para ver”, conta Joaquim, de 68 anos, morador da Graça.

 

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Apesar das obras do Miradouro da Graça, oficialmente denominado Miradouro Sophia de Mello Breyner Andresen, são sempre muitos os que o procuram para desfrutar da sua deslumbrante vista sobre o castelo e o rio e aproveitar a esplanada. O miradouro pede emprestado o nome da poetisa por esta ter passado aqui muitos dos seus dias a admirar Lisboa.

 

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  1. Miradouro das Portas do Sol

O Tejo está cada vez mais perto. Descendo a Calçada de Santo André, tomamos a Rua de São Tomé, enquanto o eléctrico 28 faz uma curva apertada ao passar. No total, o percurso leva cerca de 10 minutos a ser completado a pé. A chegada ao Miradouro das Portas do Sol dá-nos a sensação de termos alcançado terra firme, depois de tantos altos e baixos provocados pela sinuosidade do itinerário que já percorremos até aqui.

 

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O Miradouro das Portas do Sol é um banho de luz, que nos tira da frente qualquer distracção, para assim podermos finalmente ver o grande espelho fluvial em todo o seu esplendor. A esplanada do quiosque convida a adiar os compromissos do dia e a ficar um pouco mais.

 

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Daqui, é possível ver a Igreja de São Vicente e os telhados de Alfama a amontoarem-se em direção ao rio. O reflexo do sol, na água, é tão forte que se torna difícil manter o olhar fixo por mais do que alguns minutos. Ana Baía, 64 anos, nasceu na Amazónia (Brasil), e diz ser apaixonada por aquela vista. “Venho todos os anos a Lisboa e não consigo ainda dizer qual a altura do dia em que gosto mais de cá vir. São todas excelentes”, conta ao Corvo.

 

  1. Miradouro de Santa Luzia

Tomamos o Largo de Santa Luzia e, em menos de dois minutos, chegamos à próxima paragem. Os acordes de Stairway to Heaven, dos Led Zepplin, ecoam ao fundo, nas cordas de uma guitarra clássica. A vista não difere muito do Miradouro das Portas do Sol, mas a envolvência faz a diferença. Além de podermos ver representações da Praça do Comércio antes do terramoto de 1755 e também do ataque ao Castelo de São Jorge, o Tejo parece aqui estar mais perto, culpa da vista a pique. Os azulejos que adornam a pérgula, apesar de desgastados, oferecem cerimónia ao momento, emoldurando de forma perfeita aquela vista.

 

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Os muitos turistas que passam ignoram o piso em mau estado, tal é o deslumbramento, mas José Neves não. O músico de 53 anos mostra-se revoltado com a fraca conservação do espaço que conhece desde sempre e onde vai diariamente ganhar a vida a tocar guitarra. “O Miradouro de Santa Luzia merecia outra atenção por parte da Câmara. Não há um bebedouro que seja e a limpeza é o que se vê”, desabafa, numa pausa da sua actividade. “Os azulejos e o chão estão partidos e já nem os velhos querem vir para aqui jogar às cartas”, conta ao Corvo.

 

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“Sabe, é que costumava vir aqui com a minha mãe e dá-me pena ver isto assim. De qualquer forma, o pôr e o nascer do sol são sempre absolutamente incríveis a partir daqui. Um dia ainda vêm para aqui cobrar entrada à porta, como fazem no Castelo”, ironiza o músico.

 

  1. Miradouro do Chão do Loureiro

A descida leva-nos à Rua da Saudade, até deixarmos de ouvir, a pouco e pouco, a guitarra que voltava a tocar em Santa Luzia. Com a Sé de Lisboa ao virar da esquina, seguimos pela Rua de São Mamede e, finalmente, pela Calçada Conde Penafiel, que nos faz voltar a subir mais um pouco.

Dez minutos depois, o Miradouro do Chão do Loureiro. Estamos em plena Baixa. A esplanada é ideal para observar o Elevador de Santa Justa, o Convento do Carmo, o Arco da Rua Augusta e ainda o Cristo Rei, na outra margem do rio.

 

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Irélia tem 29 e trabalha no café Zambeze, que explora aquele espaço. “Às vezes, começamos a ser ‘atacados’ logo de manhã, tanto por portugueses como por estrangeiros. O segredo é verem-nos do Castelo. Quando descem, é certo que param cá”, explica ao Corvo.

 

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Além da vista, o Miradouro do Chão do Loureiro ocupa uma posição estratégica, pois, através do elevador panorâmico de que dispõe, é possível chegar à Baixa em poucos minutos.

 

  1. Miradouro de São Pedro de Alcântara

Já cá em baixo, cruzar a Baixa a pé e “desaguar” na Praça dos Restauradores é a melhor opção para quem quer atalhar algum caminho e aproveitar a viagem do Ascensor da Glória para, dessa forma, alcançar o Miradouro de São Pedro de Alcântara.

 

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Dois pintores preparam os cavaletes para expor as suas obras, enquanto vários turistas aproveitam para tirar fotografias. A perspectiva daqui é radicalmente diferente de tudo o que foi possível admirar até agora. E permite-nos rever de longe a silhueta de todo o caminho palmilhado.

A vista é ampla, apesar de o rio ser mais “envergonhado” a partir deste ponto. Em toda a sua extensão, é possível contemplar a colina do Castelo e as suas muralhas, o Martim Moniz, a Baixa, a Mouraria, Alfama e ainda áreas mais recentes da cidade se olharmos para norte.

 

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Descendo as escadas, o jardim do Miradouro de São Pedro de Alcântara convida a um passeio. “Gosto de todos os miradouros de Lisboa, mas adoro particularmente vir aqui de manhã passear com os meus filhos”, conta Ira, de 43 anos, moradora na freguesia de Alvalade. “O jardim precisa de manutenção, pois as fontes não funcionam e há estátuas danificadas, mas nada que me impeça de vir aqui sentir o sol a bater-me no rosto”.

 

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  1. Miradouro de Santa Catarina

De São Pedro de Alcântara, descemos pela Rua da Misericórdia até à Praça Luís de Camões. O Tejo vê-se, a espaços, por entre os edifícios que ladeiam a Rua do Loreto e a Calçada do Combro, até alcançarmos a Travessa da Condessa do Rio.

 

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O rio deixa finalmente de ser uma miragem. A esplanada do Miradouro de Santa Catarina, como é oficialmente designado, está repleta de contempladores, que têm aqui a oportunidade de admirar a Ponte 25 de Abril em todo o esplendor, bem como as zonas ribeirinhas do Cais do Sodré, Santos e Alcântara. Neste que é um dos miradouros mais concorridos na noite lisboeta, pela proximidade com o Bairro Alto, são visíveis no chão algumas sobras de noites anteriores.

 

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Lurdes tem 72 anos e continua a visitar o miradouro, apesar da melancolia que sente sempre que lá vai: “Isto era um jardim lindo, onde costumava vir com os meus filhos, mas agora está tudo pintado, sem relva e o ambiente é o que se vê”, lamenta-se ao Corvo.

Com mais ou menos mudanças, o que é certo é que, apesar das tormentas provocadas pela viagem do tempo, o Adamastor de pedra que ali jaz continua a vigiar as águas longínquas que se estendem em frente. Os miradouros continuam, apesar de tudo, a ser as mais belas janelas de Lisboa. E têm tanto ainda por descobrir.

 

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5 Responses to Miradouros de Lisboa: um roteiro para aproveitar o sol de Inverno

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  3. mbbl mbbl diz:

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