Moradores do antigo Bairro das Colónias e ativistas contestam abate de oito árvores

por • 5 Dezembro, 2016 • Actualidade, Segunda ChamadaComentários (14)1068

O planeado abate, marcado para 12 de dezembro, de oito tílias nas escadarias da Rua Cidade de Manchester, no antigo Bairro das Colónias, nos Anjos, está a provocar a contestação por parte da Plataforma em Defesa das Árvores e a divisão entre os residentes, alguns dos quais querem ter mais esclarecimentos. Uma oportunidade para os obter ocorrerá, ao final da tarde (18h30) desta terça-feira (6 de dezembro), na Escola Secundária Dona Luísa de Gusmão, numa sessão convocada pela Junta de Freguesia de Arroios, entidade responsável pelas obras de requalificação do arruamento, que poderão implicar o fim dos exemplares arbóreos com décadas de vida. Assim o recomenda um relatório técnico feito por uma empresa contratada pela autarquia. Mas alguns dos moradores, que reuniram no passado sábado (3 de dezembro), desejam obter explicações adicionais.

 

No referido documento justificativo do corte das tílias, feito em abril deste ano pela empresa Sequóia Verde, e ao qual O Corvo teve acesso, mais de metade dessas árvores é apontada como padecendo de um grau “moderado” a “elevado” de perigosidade, de acordo com uma avaliação feita através do método Risk Rating System – que estabelece uma escala de risco entre 3 e 10. Neste relatório, onde se inclui também a inspeção realizada a uma olaia (cercis siliquastrum) ali existente – o que perfaz um total de nove árvores -, é indicada a existência de dois exemplares onde o grau de perigosidade apresentado corresponde a 7 e um outro a 8. Cinco tílias têm avaliação de nível 6. O que leva a técnica relatora a escrever que as tílias “apresentam um estado de vitalidade moderado e uma estrutura deficiente, em constante conflito com as fachadas dos edifícios e provocando deformações significativas dos degraus das escadarias”.

 

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(fotografia: DR)

 

Tal observação corresponde, mais à frente, à conclusão de que “a espécie arbórea em questão é desadequada para o espaço envolvente disponível”. O que leva a que se aconselhe a “substituição de todo o alinhamento”. Algo corroborado, meses depois da redação do relatório, já em 20 de outubro, pelo parecer técnico da Divisão de Planeamento, Gestão e Manutenção da Estrutura Verde da Câmara Municipal de Lisboa. Nele, diz-se que as oito tílias apresentam “patologias associadas a podridão de lenho” e “que as raízes destes exemplares arbóreos se encontram a levantar a calçada”. E acrescenta-se que o arvoredo daquela rua tem vindo a ser substituído por outra espécie “mais adequada ao local”, precisamente a cercis siliquastrum. Além disso, alegam os serviços da CML, todo o pavimento das escadinhas vai ser sujeito a renovação.

 

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Toda uma argumentação que está longe de convencer alguns dos residentes, mas sobretudo a Plataforma em Defesa das Árvores – constituída por cidadãos e diversas entidades, como a Quercus, o Fórum Cidadania LX ou os Amigos do Jardim Botânico -, para quem a simples ideia de proceder ao abate nas escadinhas é um erro. No seu blogue, os membros do colectivo ambientalista garantem mesmo terem “garantia de um especialista em como estão em bom estado fitossanitário e podem ser podadas”. Na reunião de sábado passado – que terá contado com cerca de três dezenas de participantes, apesar da intensa chuva -, e segundo o relato feito ao Corvo por um dos moradores, ficou patente a existência de diferentes sensibilidades ante o anunciado corte.

 

Se a Plataforma contesta por completo o mesmo, tal como diversos residentes, algumas outras pessoas preferem esperar para obter mais esclarecimentos. E, nesse encontro, um dos moradores terá expressado o seu apoio ao abate das tílias. Os próximos dias serão decisivos para avaliar o grau de mobilização, num bairro ainda a celebrar a vitória, na semana passada, do projecto de construção do Jardim do Caracol da Penha, no Orçamento Participativo de Lisboa 2016.

 

Texto: Samuel Alemão

 

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14 Responses to Moradores do antigo Bairro das Colónias e ativistas contestam abate de oito árvores

  1. O principal causador do mau estado das escadas é a falta de escoamento de águas pluviais. A erosão devido a essa situação é muito acentuada.

  2. Estes imbecis da CML, inventam até escalas de perigosidade para ter um motivo para abater as árvores.

  3. De facto, nem todos os residentes que realmente moram nas escadarias da Rua Cidade de Manchester ou as utilizam no seu dia-a-dia, estão contra o abate destas árvores e a substituição por outras espécies, embora não se tenham manifestado (sabemos bem que é mais normal manifestarmo-nos contra algo do que a favor, ainda por cima num caso destes sempre tão mediático). Parece-me a mim contudo que, embora não seja treinador de bancada deste assunto, decisões desta natureza nunca serão tomadas de ânimo leve e que o pior que pode existir são qualquer tipo de fundamentalismos. Se a preservação na natureza é essencial e um valor a defender, creio também que a segurança dos cidadãos será ainda mais. Deixemos, pois, os técnicos explicarem (o que acontecerá dia 6) e confiar no trabalho que desenvolvem, pois é para isso que a CML lhes paga.

  4. Ines B. diz:

    1. Para começar não é Bairro das Colónias, mas Bairro de Inglaterra.
    2. Depois a Plataforma em Defesa das Árvores respondeu a um pedido de ajuda de moradores.
    3. Se quem fez este texto lá estivesse estado tinha percebido que havia mais moradores contra o abate do que a favor. E tinha também percebido melhor a posição da Plataforma (não chega escrever textos a partir de documentos e blogs).
    4. Uma coisa é a reabilitação das escadas que a Plataforma não contesta, como é evidente, dado o seu estado lamentável, outra são os abates das árvores.
    5. Em relação ao relatório ele não é legítimo porque feito pela Sequóia Verde, uma empresa privada que também faz abates e “compra de madeira”. Era preciso saber se é a Sequóia Verde que vai proceder também aos abates e/ou fornecer as novas árvores.
    6. Ainda assim este relatório acaba por concluir que o principal risco é a própria obra de intervenção nas escadas! Há formas de assegurar que as árvores são protegidas durante as obras (se o Regulamento Municipal do Arvoredo não estivesse bloqueado na AML pelos 24 Presidentes de JF isto simplesmente seria ilegal).
    7. De salientar que árvores em espaço urbano, por muito saudáveis que estejam, apresentam sempre um risco moderado (que é o que o relatório acaba por considerar em relação a estas árvores). É preciso também saber que o número de mortes por quedas de árvores é ínfimo, portanto não pode ser usado como 1º argumento para o seu abate.
    8. As tílias são podáveis e podem ficar harmoniosas e controláveis. Há profissionais que o podem fazer.
    9. Os algerozes limpam-se (responsabilidade dos condomínios) e as folhas também (responsabilidade da JF).
    10. Isto faz parte dos custos associados aos benefícios que aquelas árvores proporcionam, nomeadamente ao nível da qualidade do ar, benefícios esses que nunca são contabilizadas.
    11. Este tipo de arbitrariedades não se coaduna com a candidatura de Lisboa a “Cidade Europeia Verde” e pode mesmo pôr em risco – uma vez que esta prática é reiterada e por toda a cidade – essa mesma candidatura
    12. Finalmente, que se os moradores assim o desejarem há forma de se arranjar as escadas e não mexer nas árvores. Custa caro e dá trabalho? Sim, mas elegem-se pessoas para resolverem problemas como deve de ser e não para despacharem assuntos. Haja sofisticação e vontade política, porque técnicos competentes há!

    • O Corvo diz:

      Boa tarde. Está enganada. A Rua Cidade de Manchester divide o Bairro de Inglaterra do antigo Bairro das Colónias, oficialmente denominado de Bairro das Novas Nações. A fotografia que ilustra o artigo foi obtida no enfiamento da Rua Cidade de Manchester com a Rua da Ilha de São Tomé. Quem escreveu o texto não só falou com um morador que está contra o abate de árvores, como dele recebeu os relatórios técnicos da Sequóia Verde e da CML. O artigo noticia o caso em questão, apenas isso. Cumprimentos.

      • Ines B. diz:

        Bom então nesse caso o artigo podia ser mais preciso e dizer isso mesmo, que a rua faz a divisão entre os dois bairros. De qualquer das formas uma rua que se chama de Manchester é evidente que faz mais sentido falar em Bairro de Inglaterra do que das Colónias, não? Mais isso são “miudezas”. Alguém falou com a Plataforma? Não. Foram ao blog “sacar” uma pequena nota de um post que não era especificamente sobre este caso. Reafirmo, a Plataforma respondeu a um repto que lhe foi feito por moradores que contestam os abates. E já agora a principal conclusão a tirar do relatório é efectivamente que as árvores devem ser abatidas por causa das obras (!!!!) que as podem pôr em risco e não pelo seu estado fitossanitário, que é considerado razoável.

        • O Corvo diz:

          É verdade, podia ter sido dito que ficava na fronteira com o Bairro de Inglaterra. Mas isso não é relevante para o artigo. Quem define com quem O Corvo fala são os jornalistas do Corvo. Aceitamos sugestões, claro. Mas a decisão editorial é nossa. Não aceitamos intromissões de qualquer ordem. Ninguém está a acusar a Plataforma de nada. Antes pelo contrário, está a ser dado destaque a um assunto que tem interesse público.

          • Ines B. diz:

            Porque será que sentem necessidade de dizer que quem decide com quem falam são os jornalistas do Corvo? Com certeza que são, não é isso que está em questão. Nem está em questão qualquer ataque à Plataforma. Simplesmente se vão mencionar a posição da Plataforma com tanto protagonismo no artigo, que a mencionem oficialmente, porque aí sim o “interesse público” é defendido. Será pedir muito um telefonema, um e-mail, uma deslocação ao local no sábado? Em vez disso, toma-se a opção de ir ao refugo de posts do blog cujo tema principal nem sequer são as tílias das Esc. Cidade de Manchester. Neste sentido, é claramente prejudicada não só a qualidade da informação como o debate. É isso que, como membro-fundador da Plataforma, eu questiono.

  5. Rosa diz:

    No entanto importa esclarecer que a defesa destas árvores pela plataforma em defesa das árvores não se reveste de nenhum tipo de fundamentalismo, apenas visa esclarecer uma situação muito mal dirigida pela. Junta de freguesia de Arroios. os moradores souberam do abate unicamente Por meio de um aviso que foi afixado às árvores e que tem vindo a revelar-se cheio de incorrecções. Só depois de os moradores questinarem a junta é que ela se dispôs ( e bem ) a organizar uma sessão de esclarecimento e a dar conhecimento dos relatórios que são referidos neste artigo, esses relatórios não são em nada coincidentes com a informação inicial da junta, por isso há necessidade de esclarecer as verdadeiras razões que levaram à decisão de abate. Perigo moderado é condição de todas as árvores adultas em espaço urbano e nunca razão para se decidir um abate, tudo no relatório técnico aponta para que a decisão de abate se prende com a forma como estão previstas fazer as obras de requalificação e nos estragos que tais obras podem causar às árvores, é preciso perceber como.

  6. Carlos Pires diz:

    Relembro que devido a pendente do local e péssima infiltração, é possível que a remoção imediata destas tílias crie uma cedência de solo, que faça ao longo do ano seguinte rachar e estalar os edifícios da escadaria, por isso está em questão também o prejuízo a população nas suas habitações e carteiras, não apenas na sua qualidade de vida.

  7. Neste dia, não pude ir, mas APOIO esta causa assim como outras da Plataforma em Defesa das Árvores https://t.co/YPy4ZMyiGp

  8. Eu sou moradora da rua cidade de Manchester e tal como disse na reunião de sábado, tenho sérias dúvidas acerca da viabilidade de se fazer uma intervenção de fundo nas escadas e ao mesmo tempo manter as tílias. Tmb tenho pena de sacrificar aquela paisagem… aquele enquadramento chega a ser poético. Não só pelas tílias mas tmb pelos degraus assimétricos. No entanto outros valores se colocam. Acessibilidade, mobilidade, segurança. Fazer esta obra agora é pensar nesta rua no futuro. Meus filhos pequenos vao crescer junto com as Olaias. Eu vou envelhecer enquanto elas crescem. E tanto minha filha pequena quanto eu idosa iremos poder subir e descer as escadas com um mininmo de conforto e monitorar a sua devida manutenção.

  9. GS diz:

    Eu moro num dos prédios das escadarias da Rua Cidade de Manchester, e sou a favor desta obra pelas razões resumidas pelos técnicos. As novas árbores que serão plantadas (olaias – Cercis siliquastrum) são mais apropriadas e apresentam muitas vantagens. Folgo em saber que irão arranjar os degraus da escadaria.

    Apesar de não fazer parte do movimento de contestação, concordo com Rosa na crítica à JF Arroios pela maneira e pelos tempos como comunicou a decisão aos residentes.

    Quanto à preocupação de Carlos Pires (“devido à péssima infiltração, é possível que a remoção imediata destas tílias crie uma cedência de solo […]”), estou curioso de saber o que os técnicos terão a dizer sobre o assunto.

    PS: não sou falante nativo de português, lamento eventuais erros na minha escrita.