Ler em Lisboa no Verão: buscar o silêncio e a sombra nas bibliotecas municipais

por • 3 Agosto, 2015 • Reportagem, SlideshowComentários (10)2304

Em muitas esplanadas de Lisboa pode-se ler à sombra, mas raras são aquelas onde é possível fazê-lo em silêncio. Entrar numa biblioteca pública pode ser a solução. O Corvo preparou-lhe um roteiro com paragem em cinco das principais Bibliotecas Municipais de Lisboa, desafiando-o também a que gaste algum tempo a conhecer as histórias da cidade que cada uma esconde.

 

 Texto: Rui Lagartinho    Fotografias: Paula Ferreira

 

Este Verão, a Biblioteca de São Lázaro saiu à rua e instalou um quiosque no Largo do Intendente, onde se podem levantar e devolver livros e ganhar alguns exemplares que são regularmente oferecidos aos leitores das Bibliotecas de Lisboa. O espaço funciona até 21 de Agosto, entre as 18 e as 21 horas. Uma operação de charme para uma biblioteca carregada de história mas que ainda é desconhecida de muitos lisboetas.

 

O espaço da Rua do Saco, a meio caminho entre o Martim Moniz e o Campo dos Mártires da Pátria, existe desde 1883 e foi criado com o intuito de servir de apoio à escola municipal do mesmo edifício, mas cedo ficou clara a intenção de o converter numa biblioteca de cariz popular para servir toda a população.

 

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A sala de leitura principal, em madeira nobre e escura, com os seus dois andares, é um local acolhedor bem fornecido de notícias diárias impressas nos muitos jornais e revistas disponíveis. Mas a sensação de confortável viagem no tempo, mal nos instalamos, faz de qualquer leitor um potencial investigador. Fica-se mesmo com vontade de iniciar aqui uma carreira de “rato de biblioteca”.

 

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Fechemos os olhos e voltemos a abri-los, agora, frente a um imenso espelho de água, com barcos a cruzá-lo. Estamos numa das salas nobres da Biblioteca Camões, virados para o Tejo. O Bairro Alto, que deixámos nas costas, ainda não existia quando o Palácio Valada Azambuja foi construído, em meados do século XV, na Quinta de D. Álvaro Vaz de Almada.

 

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Antes de se tornar biblioteca, o palácio teve as vicissitudes habituais deste tipo de equipamentos, nesta zona da cidade. Caiu com o terramoto, foi sendo reconstruído ao gosto das épocas seguintes, mantendo-se um edifício de grande interesse histórico. Eça de Queiroz utiliza-o como cenário de um dos episódios de “O Mandarim”. Antes de sair de vista lavada e carregado de livros, peça que lhe mostrem os azulejos que adornam a antiga entrada do palácio, que, por razões de organização recente do edifício, deixou de ser a porta de acesso à Biblioteca Camões.

 

 

Para encontrar o Tejo, que se avista das salas de leitura da Biblioteca Camões, podemos descer sempre a direito, atravessando o Bairro da Bica. A nossa próxima paragem não fica longe do rio. Nela, podemos ler no exterior, olhando-o de frente, se escolhermos trazer um livro para a varanda do edifício.

 

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A Biblioteca de Belém completou, este ano, meio-século de existência. É um equipamento cultural estruturante para a cidade, servindo três bairros populosos: Belém, Ajuda e Alcântara.

 

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O equipamento está instalado numa antiga ala do Palácio Angeja, que lhe deu o nome. Homem culto, o marquês instalou logo no século XVIII um Gabinete de Curiosidades, ao estilo dos que então se começavam a poder ver por toda a Europa. Antes da Câmara Municipal de Lisboa adquirir o edifício, nos anos sessenta, funcionou aqui uma escola dos familiares dos pescadores da frota bacalhoeira.

 

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No ano em que era inaugurada a Biblioteca de Belém, o que é hoje o bairro de Telheiras ainda não tinha sequer saído do papel. Por aquela zona da capital, onde as quintas se sucediam e a cidade se fazia campo, gostava de passear o geógrafo Orlando Ribeiro. Na Quinta de São Vicente, uma casa senhorial transformada em restaurante, convivia o professor com os seus colaboradores. Estaria longe de imaginar que ali ao lado, no Solar da Nora, viria a funcionar uma biblioteca com o seu nome.

 

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A Biblioteca Orlando Ribeiro, inaugurada em 2003, guarda, nas paredes brancas do antigo solar e na nora que domina o pátio, as memórias dessa Lisboa – que, quase engolida pelo crescimento, conseguiu salvar no último minuto alguns lugares que lhe podem, afinal, dar uma identidade própria, pelo dinamismo com que se inserem na comunidade.

 

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E se Telheiras marcou o urbanismo na Lisboa que entrou no século XXI, a meio do século XX a revolução urbanística fazia-se para os lados de Alvalade. O edifício da Biblioteca dos Coruchéus está escondido no meio de um jardim, num sítio onde, noutros tempos, seriam as terras da quinta da propriedade. O nome Coruchéus tem por base um elemento arquitectónico que designa, neste tipo de edifícios, os remates de pedra que marcam verticalmente os cunhais junto aos beirais.

 

O espaço, que é propriedade do município desde a década de quarenta do século passado, resistiu à invasão urbanística das grandes avenidas desenhadas então, como a Avenida de Roma ou a Avenida dos Estados Unidos da América – foi tendo vários usos culturais e administrativos.

 

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A instalação e abertura da Biblioteca dos Coruchéus, em 2013, pretendeu dar uma nova dinâmica ao espaço, incluindo actividades que se estendem ao jardim que envolve o edifício. Integra-se num quarteirão ligado às artes plásticas, de que fazem parte alguns ateliers de artistas, mas que são propriedade da Câmara Municipal, e a histórica galeria Quadrum, também municipal.

 

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Mais informações e agenda em:

http://blx.cm-lisboa.pt/

 

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10 Responses to Ler em Lisboa no Verão: buscar o silêncio e a sombra nas bibliotecas municipais

  1. Tuga News Tuga News diz:

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  2. Bem-haja a Boa Informação…

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  4. RBE RBE diz:

    Ler em Lisboa no Verão: buscar o silêncio e a sombra nas bibliotecas municipais | O Corvo | sítio de Lisboa http://t.co/T75BcNL74B

  5. infelizmente, graça à imensa sabedoria dos bucrotas da Câmara Municipal de Lisboa – Página Oficial estou proibido… http://t.co/89P28kV1O4

  6. RT @rbe_pt: Ler em Lisboa no Verão: buscar o silêncio e a sombra nas bibliotecas municipais | O Corvo | sítio de Lisboa http://t.co/T75BcNL…

  7. BMF diz:

    Obrigado! Importante artigo.

  8. RT @ocorvo_noticias: Ler em Lisboa no Verão: buscar o silêncio e a sombra nas bibliotecas municipais – http://t.co/BDWee68J5s