Quem é esta figura que veio dar nome à nossa rua em Marvila?

por • 14 Janeiro, 2015 • Actualidade, Reportagem, SlideshowComentários (12)2072

Foi uma noite memorável e de descobertas, a que se viveu anteontem em Marvila. Na tertúlia organizada pela Associação de Moradores do Bairro das Amendoeiras, explicou-se quem era o escritor Luiz Pacheco e por que razão mereceu este homem, “livre até à abjecção”, ter o seu nome numa rua da freguesia.

 

Texto: Fernanda Ribeiro     Fotografia de abertura: Dulce Fernandes

 

Parece uma provocação, que o próprio escritor talvez gostasse de ter feito em vida, acompanhando-a com um gesto de “Ora toma!”. A placa toponímica que dá nome à novel Rua Luiz Pacheco, uma via pedonal de Marvila, não podia ter sido colocada em local mais inesperado. Ironia da vida… e da morte, a placa está escarrapachada mesmo em frente à esquadra da PSP, uma instituição com a qual Luiz Pacheco se cruzou por diversas vezes, e nem sempre a bem, no seu percurso irreverente e radical de poeta libertino.

 

“Quem é esta figura que, de repente, nos apareceu na Via Principal de Peões que agora se chama Rua Luiz Pacheco?”. Foi para responder à questão que a Associação de Moradores do Bairro das Amendoeiras decidiu promover, dia 12 de Janeiro, uma tertúlia capaz de elucidar os residentes sobre quem era Luiz Pacheco, a quem a Câmara Municipal de Lisboa quis homenagear, atribuindo-lhe em 2013 o nome de uma rua em Marvila.

 

Lá estiveram, a convite da associação presidida por Manuel Saraiva – ele próprio um conhecedor da vida e obra do homenageado -, Paulo Pacheco, filho do escritor, e João Pedro George, autor de uma biografia de Luiz Pacheco.

 

A ouvi-los esteve uma assistência com mais de 50 pessoas, que encheu a sala da Associação – um facto surpreendente e notável para organizadores e convidados, até porque a noite estava fria e pouco convidativa a passeios. A anteceder a conversa entre os convidados e o público, houve uma encenação prévia, num palco improvisado.

 

Tendo como cenário uma cama e uma estante com livros, o grupo de teatro Contra-Senso abriu o encontro, com uma leitura dramatizada do texto Comunidade – escrito por Luiz Pacheco em 1964 e que havia de se tornar um dos seus livros mais vendidos, como testemunhou Paulo Pacheco, no relato que fez dessa “aventura terrível” a que nem sabe como sobreviveu, no período em que coabitou com o pai, entre os 6 e os 13 anos.

 

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Aos 10 anos, já vinha sozinho de Massamá para Lisboa vender livros do pai para conseguir arranjar dinheiro para comer. “A vender este livrinho (Comunidade), comi muitos almoços”, contou Paulo Pacheco. Famílias de acolhimento Paulo teve cinco – ainda que haja uma que elegeu para o resto da vida. “Nunca me senti rejeitado. Até porque nunca nenhuma família de acolhimento me rejeitou. O meu pai é que ia lá buscar-me e me levava com ele”, contou.

 

Não foi uma vida fácil a que teve, a acompanhar o escritor, editor e crítico que sempre se “expôs a 100 por cento e que fez de si próprio o motivo de inspiração para retratar a condição humana”, o que lhe valeu muitos inimigos, perseguições e até prisão. E Paulo Pacheco não tem peias. “Há coisas que não lhe perdoo”.

 

Mas, se “comida pouca, leitura muita”, sublinhou. “Comecei a ler muito cedo e o primeiro livro que ele me deu para ler foi um calhamaço com 400 páginas, Terras Desbravadas, de Sholokhov, lembro-me ainda muito bem. Aos 12, lia Dostoievski e a leitura foi algo que me acompanhou sempre”. “Só aos 20 anos me reconciliei com o meu pai como autor. E, aí, tenho-lhe um enorme respeito”, acrescentou Paulo Pacheco.

 

Daquilo a que chamou a “herança Pachecal”, Paulo destacou três aspectos que entende serem positivos:”Ganhei uma enorme capacidade de resistência às tragédias do quotidiano, tenho face a elas uma profunda insensibilidade”, destacou em primeiro lugar.

 

“O gosto pela literatura foi outra herança Pachecal”, disse. E, por fim, perceber que Luiz Pacheco foi alguém que “nunca desistiu e marcou a diferença. Dizia aquilo que pensava, publicava só aquilo de que gostava e era um exemplo de coerência face à vida”.

 

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Mas, “para se sobreviver a um processo destes é preciso ter âncoras”. Para Paulo Pacheco foram duas: “uma, o nunca me ter sentido rejeitado, a outra o sempre ter sabido a verdade toda. O meu pai contava-me tudo”.

 

Da carreira de Luiz Pacheco falou João Pedro George, académico que tem uma tese de doutoramento sobre o escritor e que é autor de uma biografia sobre ele.

 

A primeira vez que soube dele foi através de uma entrevista publicada em 1992 na revista K, onde se dizia: “Luiz Pacheco só gosta de livros e de miúdas novas. E não é que o cabrão tem razão”.

 

Isso chamou-lhe a atenção e só depois começou a ler os seus livros. “Exercícios de Estilo”, “Textos de Circunstância”, “Textos de Guerrilha”, “Literatura Comestível”, “Pacheco versus Cesariny” foram alguns deles.

 

“Não estava habituado a ler pessoas que falavam de uma forma livre. E ele, Pacheco, não fazia cálculos em relação ao que lhe podia acontecer por estar a ser sincero. Transmitia a sua opinião”, sem temer consequências.

 

Mas ainda antes de se afirmar com escritor, Luiz Pacheco foi editor da Contraponto, uma editora de alguma forma marginal. E foi, sobretudo, em relação a este aspecto que João Pedro George falou.

 

“A Contraponto foi uma editora importante e nela Pacheco editou vários autores que mais tarde se haviam de tornar conhecidos, como Herberto Hélder, Natália Correia, António Maria Lisboa, Cesariny, entre outros”.

 

“Muitos desses livros eram proibidos pela censura e Pacheco foi perseguido pela PIDE. Acabou mesmo por ir a tribunal, mas por outras razões, não pelas edições da Contraponto”, acrescentou João Pedro George, que destacou igualmente o papel de Luiz Pacheco como tradutor de autores estrangeiros. “Ele foi o primeiro a traduzir o Marquês de Sade e a Contraponto publicou a primeira edição”, afirmou.

 

Sendo uma editora marginal, a Contraponto não tinha uma sede e os livros não iam para as livrarias. “Eram vendidos directamente aos compradores”, fosse pelo próprio Pacheco, pelo seu filho Paulo ou através de amigos.

 

Para João Pedro George, a importância de Luiz Pacheco é enorme. Não só por ser bom escritor, mas pelo valor que sempre atribuiu à actividade literária. “Se é verdade que ele poderia ter escolhido outra vida, e que terá cometido alguns actos imperdoáveis, também é verdade que vivemos num país que nunca valorizou o trabalho literário e ele nunca desistiu de o fazer”, disse.

 

Além dos convidados, também algumas pessoas presentes na assistência traziam histórias para contar sobre Luiz Pacheco. “Convivi com o Pacheco na década de 80 e ele impressionou-me muito. Para ele, não havia tabus. Considero-o um dos grandes escritores do século XX”, disse um homem na assistência, que acabaria por trazer uma novidade à tertúlia.

 

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“Quando dizem que ele nada tinha a ver com Chelas, se calhar, até tinha e eu tenho aqui uma prova”, disse ironicamente o homem, exibindo um exemplar autografado do livro Textos de Guerrilha, no qual Luiz Pacheco assinava uma dedicatória. Assinado pelo punho do autor, lê-se: “Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco, Visconde da Lapa, Barão da Estrela, Duque de Chelas”.

 

“Ora, afinal ele era Duque de Chelas. Nunca cá esteve em vida, mas veio cá eternizar-se”, acrescentou este participante na tertúlia, uma iniciativa que todos aplaudiram.

 

* Rectificações feitas às 19h50 de 14 de Janeiro. Corrige nome do autor da fotografia de abertura. Corrige nome do grupo de teatro mencionado no artigo. 

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12 Responses to Quem é esta figura que veio dar nome à nossa rua em Marvila?

  1. Tuga News Tuga News diz:

    [O Corvo] Quem é esta figura que veio dar nome à nossa rua em Marvila? http://t.co/Ers29Ut14B

  2. Surpreendente Luis Pacheco!!

  3. Segundo fonte credível, a grafia Luiz, com z, foi reclamada pelo próprio, que aliás assim escrevia o seu nome. E eu respeito. Grande Pacheco, sim senhor!

  4. O Enorme Luíz Pacheco. Quantos poetas deu a conhecer? Ficou a dever … e depois? Quanto lhe ficamos a dever?

  5. Quem é esta figura que veio dar nome à nossa rua em Marvila? http://t.co/3Figi372ng

  6. Luiz Pacheco, doente do Dispensário d. Amélia e muito amigo do médico que o tratava. Oferecia-lhe os livros que ia escrevendo. Infelizmente, a minha memória falha e não me consigo lembrar do nome do médico.