Fé no património reabre a Igreja de São José dos Carpinteiros

por • 14 Novembro, 2013 • Actualidade, Reportagem, SlideshowComentários fechados em Fé no património reabre a Igreja de São José dos Carpinteiros2593

Foi uma questão de fé no património, e na possibilidade que este suscita de trazer novos visitantes à paróquia, o que levou o padre José Freire a decidir avançar para as obras de recuperação da Igreja de São José dos Carpinteiros, que reabre a 1 de Dezembro. Fechada há mais de três décadas, a igreja situada na Rua de São José voltará a abrir regularmente as portas, depois de feitas as obras mínimas para o seu funcionamento: a substituição do telhado e do pavimento e a reparação de alguns dos painéis de azulejos setecentistas que a revestem.

 

“A mim custa-me ver uma igreja fechada, que não esteja aberta ao culto. E acho que é uma pena que, sendo esta ainda mais valiosa do que a igreja paroquial de São José, no Largo da Anunciada, ela tenha estado fechada tanto tempo. Porque a igreja de São José dos Carpinteiros é de uma riqueza fabulosa, está é muito degradada”, afirma o padre, que há seis anos está à frente da paróquia de São José.

 

Mesmo sabendo que haverá um longo trabalho a fazer para recuperar totalmente a igreja – uma tarefa para a qual não bastam os recursos da paróquia -, o padre José Freire decidiu avançar para as obras mínimas e reabri-la, ainda sem todo o seu esplendor. “Várias pessoas aqui do bairro me questionavam sobre quando voltaria a ser possível celebrar missa nesta igreja e, de facto, era uma pena tê-la fechada”, contou ao Corvo.

 

igreja de Sao Jose dos Carpinteiros

 

Mandada construir no século XVI, pela Irmandade de São José dos Carpinteiros, esta igreja seiscentista sobreviveu ao terramoto de 1755, que lhe destruiu a fachada original, reconstruída pouco anos depois. Embora tenha sido classificada como imóvel de interesse público em 1978, o templo permaneceu fechado durante mais de três décadas. E dela muitos lisboetas conhecem apenas a fachada que se ergue no cimo de uma escadaria. Chama a atenção pelos símbolos esculpidos na pedra: serrotes, compassos e outros utensílios dos carpinteiros, a lembrar símbolos maçónicos.

 

A reabertura do templo não se deverá, porém, ao facto de haver grande procura de locais de culto por parte dos fiéis da paróquia. É sobretudo porque esta tem um património fabuloso, que merece ser visto. “Nós não temos muita gente a frequentar a outra aqui perto, a igreja de São José, no Largo da Anunciada. Ela não tem assim muitos fiéis, mas tenho esperança de que, com a abertura desta, venham mais pessoas, porque aqui passa muita gente ”, explicou o pároco, numa visita feita às obras em curso.

 

“Isto é uma viagem ao passado, é património”, prossegue, entusiasta, José Freire, mostrando os painéis de azulejo setecentistas, ilustrando a vida de São José, que revestem até meio as paredes da igreja. Na abóbada do tecto, vê-se ainda uma pintura, embora já muito degradada, representando São José e o Anjo, de acordo com a descrição, feita pelo Igespar, do interior do templo. Também pouco legíveis estão outras telas que decoram as paredes da igreja. Nada disto estará ainda restaurado na reabertura, a 1 de Dezembro.

 

igreja de Sao Jose dos Carpinteiros

 

De acordo com o padre José Freire, o orçamento pedido para a execução das obras imprescindíveis, a substituição do telhado e do pavimento, foi de 50 mil euros. “Reunimos essa verba com dinheiro da paróquia e avançámos”, disse. “Antes, chovia cá dentro e as madeiras do chão estavam todas apodrecidas. Foi preciso substituí-las. Agora, vamos iniciar o trabalho da recuperação dos azulejos, para o qual também já nos apresentaram orçamento”, contou o pároco.

 

Não está, no entanto, previsto qualquer acompanhamento do Igespar, ou do Museu do Azulejo, na recuperação dos azulejos. “Esse trabalho vai ser feito por duas pessoas ligadas ao património, que nos vão ajudar”, afirmou José Freire.

 

Anexo à Igreja, e com ela comunicando, está um edifício onde, em tempos, funcionou a Casa dos 24, a instituição criada por Dom João I, Mestre de Avis, como forma de agradecer o apoio que lhe foi dado pelas corporações de ofícios durante a crise de 1383-1385. Nesta Casa dos 24, tinham assento dois representantes de cada um dos 12 ofícios, aos quais era concedido poder deliberativo na Câmara de Lisboa.

 

Mas nem a sala onde ela se reunia, no piso térreo, nem a Casa do Despacho, que funcionou no piso superior, estarão abertas ao público à data da reabertura da Igreja. “Ainda não há condições para abrir já a antiga Casa dos 24, e mesmo na igreja não vamos mexer mais. Só avançaremos com obras à medida que houver verbas”, sublinhou o padre José Freire.

 

igreja de Sao Jose dos Carpinteiros

 

Excepção feita à igreja de São Domingos, no Rossio – que fechou em 1959, depois do incêndio, e assim se manteve mais de 30 anos, até voltar a abrir em 1994 -, a reabertura de uma igreja deixada ao abandono durante décadas é um caso quase único na cidade de Lisboa. Que surge em contra-corrente. Em tempos de austeridade, com muitos estabelecimentos a fechar portas, há uma igreja que reabre, para ser vista.

 

Texto: Fernanda Ribeiro   Fotografias: David Clifford

Pin It

Textos Relacionados

Os Comentários estão encerrados.